terça-feira, 6 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 42 -

- PURA RAZÃO -
- 42 -
Quando estavam todos no almoço, Glauco Rodrigues resolveu falar de vez sobre os últimos acontecimentos da fazenda “Sossego” onde o Coronel Fabriciano fora vitima de atentado a bala deflagrada pelo jagunço Januário Cipó a mando do fazendeiro João Duarte Junior, filho de João Duarte, morto por capangas do Coronel Fabriciano Timbó há alguns dias após o sacrifício da mulher Corina e do filho dela, Fortunato e de um roceiro da fazenda do Coronel, chamado por Chicão, capitão do mato, por sinal.
--- Meu avô! É preocupante o estado de coisa que se dá na fazenda. Primeiro: foram às três mortes dos roceiros. E depois foi a da tentativa feita contra o senhor por um capanga a mando dos Duarte. É imprescindível se fazer urgente do conhecimento do Governador do Estado e do Comando da Polícia Militar. É imperativo se solicitar a participação policial para a proteção da gente pobre desse sertão de Serra Grande. – relatou o advogado Glauco Rodrigues.
--- É verdade! A questão não pode continuar de tal jeito. Faça ver o empenho do Governo para uma resposta aos atentados, principalmente contra a minha pessoa, um velho de 80 anos. Eu escapei por um triz. – respondeu o velho Timbó.
Com a certeza de uma resposta positiva do Governo e da Polícia Militar, pouco tempo depois do almoço Glauco Rodrigues foi até a estação de rádio do pelotão da Policia Militar e solicitou o envio de tropas armadas para a região de Serra Grande com a rapidez de um relâmpago. Dizia no final da missiva:
--- Assinado: Glauco Rodrigues, Diretor da Recebedoria Rendas do Estado. – o fim da missiva.
Tão logo se fez o despacho à correspondência foi recebida na capital pelo Comando da Policia e pelo Governo do Estado. No exato momento todo o contingente policial, a mando do próprio Governador foi deslocado para a região de Serra Grande. Na cabeça de tudo estava o Tenente José Francisco de Miranda, o Tenente Miranda, homem desaforado e de poucas conversas sendo capaz demandar prender seja lá quem fosse. O contingente militar chegou pela noite daquele dia e de imediato o tenente Miranda resolveu ouvir as partes conflitantes. Eram oito horas da noite. Ao gabinete do tenente Miranda estava presente o Coronel Fabriciano, o também coronel Ahrtur Rodrigues Timbó, outro filho do Coronel Timbó, fazendeiro e criador de gado, senhor Valdomiro Timbó com a presença do advogado Glauco Rodrigues. Da outra parte, estava presente apenas a viúva de João Duarte, dona Amelinha Duarte Manso cuidada por uma filha, um roceiro e um bando de jagunços.  Após ouvir a todos, inclusive o Coronel Fabriciano, sobrevivente de uma armadilha bem montada por João Duarte Junior, o Tenente Miranda um tanto amolado daquela celeuma ordenou de pronto.
--- Vamos acabar com essa lengalenga! É hora se se apertarem as mãos e deixar de lado essa mortandade. Já morreu gente demais e eu não estou para defender mortos e vivos. Quero ver se terminam esta contenda agora mesmo. Tanto da parte do Coronel Timbó como de vossa parte, dona Amelinha. E tenho dito! – confirmou o tenente cheio de espinhos de cardeiro pelo corpo. E nauseado ouviu da mulher:
--- De minha parte, acaba agora. Já perdi um marido e um filho. Nada tenho a reclamar. Sei que foi João quem começou essa desordem. Por mim, nunca haveria esse tipo de sangue. – chorou Amelinha ao dizer tal fato.
E para a satisfação de todo o senhor Coronel Timbó, homem velho da região, abraçou a mulher, pequena por seu tamanho, vestindo trajes de luto, um véu na cabeça e sapatos baixos. A filha, menos modesta deu de ombros para os da família do coronel e alguém ouviu a mulher dizer algo como:
--- Deixa está! – falou a filha de dona Amelinha.
Uma tropa ainda ficou na Serra Grande por algum tempo montando guardas nessas duas fazendas em conflito, pois o Tenente Miranda não confiou inteiramente do abraço da mulher Amelinha. Isso porque a sua filha havia dito palavras tendenciosas, conforme a autoridade policial ficou conhecedora do termo.
Tempos depois, alguns meses, Glauco teve noticia de Zilene Caldas. A moça deixou uma carta informando estar de partida para o Rio de Janeiro. E o caso acabou aí. Glauco sentiu a falta de Zilene. Ele amou a moça por algum tempo sem ninguém notar tal fato. Ela se resguardava para não despertar ciúmes na sua amiga Racilva Arantes. Certa vez, Racilva declarou a Glauco ter chegado a hora da sua formação. Era o mês de dezembro. Havia festa por toda a cidade. Glauco confirmou a compra de um chalé no bairro de Petrópolis. A casa grande do Tirol, ele a vendera depois de havido o caso da assombração. Racilva não frequentara mais a residência do velho Neco, o Manoel Revoredo. As aulas impediram tal frequência às sessões espíritas. O chalé era uma magnifica habitação de frente para o mar. Logo abaixo havia uns casebres e bem depois apenas o mar aberto. Para Racilva aquela era uma residência de forma elegante.
--- Formidável mesmo! – sorriu a moça ao visitar a casa.
--- Eu tenho pensamento de construir outra casa nos confins da cidade onde até agora não existe habitação. – sorriu Glauco ao falar a moça.
--- Mas já? – quis saber Racilva espantada.
--- Deixa o tempo passar. Mais pra frente. – sorriu Glauco abraçando a noiva.
--- Mas a gente nem morou nessa? – comentou amuada a moça.
--- Pois é. Nós nos casamos, vamos passar umas férias do Rio, depois voltamos e assim a coisa vai se indo. – raciocinou Glauco a Racilva.
--- Rio? São Paulo até! Quem sabe: Porto Alegre! – sorriu Racilva ao contar nos dedos o seu itinerário a pensar.
--- Também tem Paris, Madri, Roma e coisa e tal! – sorriu Glauco ao fazer cocegas na sua noiva
A moça sorriu de felicidade ao saber do pensamento do namorado. E Racilva pensou ainda no que disse certa vez o diretor da firma onde a moça trabalhava:
--- “Ele é rico! Podre de rico! E a moça que se casar com ele vai ficar podre de rica” – comentou Haroldo Doria, dono da loja de artigos domésticos.
E tudo isso era passado. Foi pelo menos a sorte de ter sido Racilva Arantes a contemplada.
E certa vez, ao entrar da Recebedoria de Rendas, um homem indagou por certo documento por ele solicitado há algum tempo. Racilva prometeu procurar entregar o tal documento. Então o homem, um pouco alquebrado pela idade ainda perguntou à moça como se chamava.
--- Racilva. Racilva Arantes. – respondeu a moça ao senhor idoso.
E o homem fez tal comentário a respeito do nome Arantes.
--- Hum! Arantes! Ousadia, Independência, força de vontade! – sorriu o homem ao decifrar o nome da moça.
Racilva sorriu sem muito entender tal significado do seu nome. E então, saiu requebrando os seus quadris para todos os que quisessem olhar.
Na hora do almoço Racilva estava no restaurante do Grande Hotel acompanhada do seu noivo, fazendo os planos de sua formatura quando notou a presença do homem alquebrado, magro até com um rosto alquebrado. Ele estava sozinho em uma mesa ao largo, tragando o seu almoço quando Racilva notou a sua presença e chamou a atenção de Glauco para tal figura:
--- Quem é aquele velho? – perguntou a moça ao seu noivo de modo preocupado.
--- Qual? – quis saber Glauco com a boca cheia de comida.
--- Lá! Olhe! Lá! – disse Racilva apontando para a mesa onde estava sentado o velho.
Glauco então correu a vista por todo o recinto e vislumbrou a figura magricela do velho. E em seguida respondeu.
--- Ah! Não sei! Deve ser algum novato do restaurante! – respondeu Glauco sem muita pressa abocanhando a comida em seu prato.
--- Interessante! Hoje, na Repartição, ele declarou o significado do meu sobrenome! – alertou curiosa a moça.
--- E qual foi? – perguntou o homem com a boca cheia de farofa a por para fora.
--- Não sei bem. Algo como “Ousadia”. – respondeu a moça pouco preocupada.
--- Ah bom! Deve ser um estudioso! – sorriu Glauco colocando mais farofa para fora.
Racilva notou o seu noivo a vomitar farofa e logo disse:
--- Tenha modos! Estas a me sujar com essa farofa! – relatou Racilva a limpar os seus braços.
Então, o homem não fez por menos: sorriu a valer.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 41 -

- ARMADO -
- 41 -

Na sexta-feira à tarde, um jagunço de um determinado lugar foi até o casarão da Fazenda “Sossego” onde estava o coronel Fabriciano com o intuito de matar o homem. O jagunço vinha da cidade de Serra Grande onde se traçava o destino de todos os fazendeiros e coronéis bem como de outra gente quando se queria dar cabo. Dessa vez foi o coronel Fabriciano por causa da morte de João Duarte, homem que mandou matar a mulher Corina, amante do coronel Ahrtur e do seu filho – de Corina – Fortunato. Essa era uma contenda de duração bem antiga entre o Coronel Ahrtur e o fazendeiro João Duarte, o qual tombou morto pela ação de outro jagunço, Manoel Nazareno, o Neco do Saco a mando do Coronel Fabriciano. Ainda era tarde cedo quando o jagunço se fez a espreita do Coronel. Armado até os dentes, o jagunço cujo nome era Januário do Cipó tornou a olhar o movimento do casarão; os outros jagunços e de arma em punho, um rifle de grosso calibre fez fogo contra o Coronel com mira certeira de acertar no peito do velho. Naquele instante, o coronel se moveu para apanha uma brasa no chão e a bala passou raspando o seu alvo se alojando na parede onde estava o velho homem de oitenta anos.
--- Diacho! – disse baixo o jagunço Januário o Cipó procurando armar a sua carabina.
Nesse igual momento, o velho coronel Fabriciano percebeu o tiro e rumou para dentro da casa grande enquanto outros jagunços a serviço do coronel correram para defender a vida do seu patrão. Juliano do Monte foi o primeiro a chegar. Ele fez mira e atirou em cima do peito do jagunço Januário do Cipó. Esse caiu para trás e de repente o coronel Fabriciano apareceu no umbral da porta gritando:
--- Não atirem! Não atirem! Deixa eu ver quem esse capanga e quem mandou ele me matar!!! Não atirem!!! Não atirem!!! – gritava o coronel para um grupo de celerados e prontos para fazer fogo contra o jagunço Januário do Cipó.
A cambada ficou em perfeita ordem a espera de novas instruções do senhor e dono o Coronel Fabriciano, homem corajoso da região de Serra Grande. Juliano do Monte era o mais aguerrido jagunço em pé sobre o cangaceiro derrubado por bala. Do Monte estava ali, esperando apenas a ordem do Coronel Fabriciano para atirar para matar o seu rival Januário do Cipó em uma ação sem dó nem piedade. Ele cuspia como onça na caatinga a espreita de sua caça. E sempre dizia com raiva.
--- Fala logo quem te mandou! Fala ou atiro! – rosnava Do Monte cuspindo raiva.
O bugre apenas gemia de dor. A bala transfixou o seu ombro. Foi um tiro mal dado aquele. Mesmo assim, Do Monte estava por cima de Januário do Cipó naquele momento. Ao seu redor estavam outros brutamontes prontos para fazer fogo ao menor sinal do Coronel. Contudo, o homem forte de Serra Grande já estava por cima do celerado a perguntar quem lhe mandara fazer aquele serviço.
--- Fala senão eu te mato corno! – gritava o coronel Fabriciano a todo custo ao bandoleiro.
O bugre não falava porque era seu calibre: falar e morrer. Apenas ele gemia de dor. Dor atroz nunca sentida. Mesmo o coronel deu ordens aos capangas.
--- Tira a roupa desse traste! Pendura ele na vara! – respondeu o coronel embravecido.
A vara era uma espécie de tronco onde os assassinos contumazes eram pendurados até a morte quando tinham de morrer. Juliano do Cipó sabia disso com certeza. E ele apenas gemia a dizer:
--- Piedade senhor Coronel! Piedade! Deixa eu morrer em paz. (tosse). Deixa em morrer em paz. (tosse). Eu não sei quem foi o homem que mandou fazer o serviço. (tosse). Sei não seu coronel. (tosse). – lamentava o bugre.
--- Tu vai falar e é agora! Diga o nome cabra frouxo! – reclamou o coronel com muita ira.
--- Eu não sei seu coronel. Sei não. – tosse – Ele é um homem forte, cheio de riqueza. Apenas me favoreceu... (tosse)...E disse que o resto eu...(tosse) ...recebesse um o Louro, no mercado da cidade. – (tosse, tosse). – e caiu ao desalento o cambaio.
--- Tira a macheza dele! E faz fogo depois! Você, Do Monte venha cá! – respondeu com bastante fúria o coronel ao capanga desalmado.
Só se ouviu o tiroteio comer na rajada da caatinga e o homem nem sequer gemer. Doze tiros quase sempre um em cima do outro. E o homem do campo ordenou ao capanga ir até o Mercado resolver a encrenca com Louro. Em seguida com mais três comparsas irem à fazenda do homem morto, o rancheiro João Duarte e por lá fazer a vendeta contra o filho João Junior, o homem que encomendou a chacina e, por sinal, o primeiro filho de JD. A cambada se fez a pronto e rumou para o mercado da cidade. Ali, eles encontraram o homem chamado Louro. E sem que em mais: os bugres abriram fogo contra o facínora, matador por encomenda dos homens de qualquer lado. Foi uma saraivada de balas tendo o homem caído por terra. Uma ação rápida aquela, pois não deu tempo a Louro desembainhar a pistola. E dali os jagunços rumaram para a fazenda do “Cardo” onde montaram tocaia.  Toda a fazenda estava coberta por capangas. Eram homens de lado e de outro. Do Monte teve de esperar o anoitecer para ninguém ver a sua empreitada.
E veio a noite. Do Monte mascando fumo esperou um tempo. Quando nem havia lua no sertão ele achou por bem começar a perseguição aos capangas do fazendeiro João Junior conhecido mais por seu Junior. E deu a ordem aos demais seguidores contumazes para rasgar a garganta dos jagunceiros, um por um até o ultimo. Dali então era a sua vez. Matar matado o fazendeiro Junior mandante da quase morte do coronel Fabriciano na tarde daquele dia. O casarão estava escuro como se nada tivesse no local. Nem filhas, irmãos e mulher de João Duarte, o morto. Devagar como se estivesse sem pressa, e a depressa era por demais imperfeitas, Do Monte e os três facínoras entraram de mansinho no casarão. Todos estavam a dormir. O senhor Junior, esse tinha um sono pregado. Do Monte chegou perto do algoz e decepou sua cabeça. Em seguida, os jagunços saíram da fazenda sem o menor barulho. Quando a mulher de Junior acordou viu apenas o sangue a escorrer pelo a coberta.
Na manhã do sábado a Fazenda Maxixe estava coberta de capangas. A ordem! Não entra nem sai ninguém do terreno. Até mesmo a ordem foi severamente mandada para as outras fazendas dos ostentosos coronéis Fabriciano, Ahrtur e Valdomiro Timbó. Fazendas Tijuaçú, Alarme, Sossego e Pirilampo. Havia um clima de guerra em todo o campo.
Naquele sábado foi sufoco para entrar no sitio Maxixe para os visitantes Glauco Rodrigues, sua noiva Racilva Arantes e a sobrinha de Glauco, a senhorita Walquiria Timbó, filha de Valdomiro. Os jagunços, armados até os dentes não quiseram reconhecer o carro do doutor Glauco e foi preciso vir até a porteira do sítio o capitão do mato para então permitir a entrada de Glauco e suas convidadas. O capitão do mato era feitor Getúlio Boa Boca, homem forte e destemido capaz de qualquer coisa para proteger os seus patrões da vida e na morte. Quando Boa Boca autorizou a entrada de Glauco, a moça Walquiria quis descer do carro para mostrar quem era ela. Contudo, nesse momento o doutor Glauco Rodrigues Timbó foi dizendo:
--- Tenha calma! Tenha calma! Não se sabe o que está havendo! Vamos para o casarão! – refletiu com muita frieza o doutor Glauco.
--- Calma uma merda!!! – gritou a moça ao desespero.
--- Calma! Calma! Deixe de alarme! – declarou o seu tio.
Então o carro rumou para a casa grande acompanhado por diversos jagunços tendo a frente o feitor e caçador de fugitivos, o homem Getúlio Boa Boca. E automóvel apenas estacionou na frente do casarão aonde a mãe de Glauco veio receber o filho de braços abertos tendo em recíproca a ação feita pelas duas moças: Racilva e Walquiria. Depois de desfazer os maus entendidos e as desculpas apresentada pelo feitor Boa Boca tudo voltou ao normal. O velho coronel Fabriciano já estava no casarão ao lado dos filhos Ahrtur e Valdomiro. Após longas conversas o Coronel alertou ao filho Glauco a solicitar uma força policial para a sua fazenda, pois não havia clima de segurança alguma. O homem concordou com tudo o que ouviu e disse ter de informar ao comandante da Força Policial do Estado e ao próprio Governador da intranquilidade vivida pelos moradores das fazendas próximas de do povo de Serra Grande.
Após esses impasses começou-se a conversar sobre amenidades. Walquiria era toda prosa ao relatar ser naquela hora a nova Diretora de um Colégio Municipal na capital do Estado.
--- O convite foi feito pelo próprio Prefeito. Ora vejam só. – sorriu Walquiria d forma singular.
--- Imagine uma neta do coronel sendo recebida pelo prefeito da capital! – relatou Nair, mãe de Glauco.
--- Pra mim. Isso é uma bosta! Ele devia ter contratado você logo no inicio do seu Governo. – adiantou o coronel Fabriciano ao bafora o seu cachimbo.
--- Mas, meu avo! Eu não estava nem procurando um emprego maior assim. Eu estava a fazer um teste para datilógrafa. Foi então que Carlos me levou até o prefeito! – sorriu alegre e com muito entusiasmo a moça.
--- É uma bosta! Não por você! Mas pela ação atrasada do Prefeito. Uma bosta! Pura bosta! – declarou o velho camponês.
E a vida continuou por horas a fio quando todos entraram para a mesa e foram recebidos pelas domésticas do casarão. Era a vez de todos irem almoçar. O dia claro era sinal de verão em toda a região da fazenda.

domingo, 4 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 40 -

- TRÂNSITO -
- 40 -
Tão logo deixou Zilene em frente ao Jornal onde ela trabalhava, Glauco rumou para a Agência Pernambucana, às oito horas da manha, quando o expediente estava a começar. O comércio registrava o seu número de pessoas, principalmente de empregados. Um trem apitou logo a seguir da Rua Chile avisando aos viandantes e motoristas estando à máquina a transitar. Ninguém teve susto nem medo por causa do trem. Apenas alguns transeuntes se viraram a olhar a máquina lentamente trafegando com o seu chiado e buzinado alarmantes. E por isso os mais importunados diziam:
--- Chateação! – dizia um.
--- Passa por cima! – gritava outro.
--- Arrocha!!! – declarava o mais atrevido.
E o maquinista pouco e nada ligava para os descompostos ousados. O novo automóvel de Glauco estacionou em frente a Agencia Pernambucana onde o homem saltou olhando para o trem atravessando pouco distante a rua aonde os outros carros também vinham estacionar. A rua era a Avenida Tavares de Lyra. Ela começava da margem do rio e terminada no cruzamento com a Avenida Rio Branco, há uns quinhentos metros após. Glauco sacudiu a poeira da calça, atravessou a calçada sob uns pés de fícus e entrou na Agencia a procura de novidades, além dos seus jornais de costume. E então, Glauco vislumbrou uma publicação pouco recente cujo nome trazia uma impressão figurativa de momento: A ESTAMPA!.  Aquele era uma publicação nacional e trazia artigos de vários autores. Há observar um pouco mais tranquilo, Glauco notou algo a lhe chamar a atenção. O NOME DO PAI.
--- Interessante! – respondeu Glauco calado como só para ele.
O artigo trazia um composto sobre o nascimento. Ele observou surpreso todo aquele volume de narrativa onde estava expresso em seguinte registro. E como um bom maçom, Glauco, pois a ler o artigo cujo teor era dito:
---  Após a Suméria, a mais antiga civilização da humanidade que se tem noticia, vivendo na extremo sul da Mesopotâmia vieram então os Caldeus originado a Caldeia. Entre os rios Eufrates e Tigre, os caldeus deram prosseguimento ao que fizeram os antigos e guerreiros sumérios. Fundamentados na cidade de Ur, fundada pelo Rei Ur-Nammu, os caldeus deram origem a um personagem bíblico citado no livro de Genesis, o qual se distinguiu como um homem a criar o Deus. É tanto que Bíblia, nos capítulos iniciais se diz o Deus “de Abraão”. Ele estava com 14 anos de idade quando tocou fogo no Santuário do seu pai Terá onde estavam guardados todos os deuses da antiguidade: deus contra fome, a morte, o vencido a até a dor de barriga, o bicho de pé e a doença de olhos. Foi assim que Abraão resolveu acabar com tudo e ficar com um só deus. Já estando um pouco maduro, ele casou com a moça Sara ou Agar e então migrou para outras regiões aonde veio a fundar o templo de um só Deus na cidade da Síria habitada no vale do rio Eufrates. É tanto que Abraão e interpretado como Pai. E ser pai significa ser também um Deus. E como o Deus de Abraão revolucionou a temática do reino, ele passou a ser igualmente citado com Abraão do Senhor seu Deus. Assim vejamos o nascimento de um deus. Quando um homem necessita fecundar a sua bem amada mulher, milhões de outros espermatozoides se seguem com um. Esse se “salvará”. Apenas um ser. Os outros são todos deletados ou mortos. Porém o que se salva entra do óvulo e ali habita por o seu tempo. Sendo o homem, o caso são nove meses. Na ocasião em que ele se salva é preso no óvulo onde é alimentado pelo sangue ou mucosa uterina quando está fecundada a companheira, para dizer de forma mais simples. O fato é que existe o Pai e a Mãe em todos os casos. E a serpente dita no Genesis nada mais se torna a ser o serpentear do um micro espermatozoide com rabinho e tudo a procura de salvar a sua “pele”, ou seja, de encontrar o local de entrada para estar do óvulo. Os demais “irmãos” que ficam a margem, esse são a “clara” de um ovo – de galinha, por exemplo – e depois são deletados para o chamado “inferno” ou terra, quando a mulher vai se banhar. Esse é principio de uma vida. E por isso se dá o exemplo: Em nome de Pai. Do Filho e do Espirito Santo, cujo sentido é a própria mãe do feto. Isso representa o elefante, o jacaré, o crocodilo, o leão e também a borboleta, as coisas mais simples da vida e até o homem. Há quem diga uma citação de Jesus: “Eu sou”. E Ele foi como o homem de hoje pode dizer: “Eu sou!” porque ele é o homem. E o inferno é o “mundo inferior” ou lugar dos mortos e pode ter o significado de Seol ou Hades.
--- Incrível esta interpretação do nascimento de um ser. – relatou silencioso o homem Glauco.
E ele apanhou um exemplar da revista com uma Vogue para entreter a sua noiva, os jornais do dia e foi embora para a sua repartição de trabalho. Na revista tinham amplas reportagens e artigos sobre beleza, mundo, casa, estilo de vida e coisas a mais. Glauco Rodrigues sorriu de felicidade, pois aquele era o número mais novo da revista nas bancas da cidade. Antes porem, ele deixou o automóvel no estacionamento da Ford, na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Sachet, veio ao hotel, mudou de roupa – suja – se vestiu a prumo para ir aos afazeres do dia. Eram quase nove horas quando Glauco chegou à repartição e não avistou por perto a moça Racilva Arantes. Logo ele pensou de estar na hora, pois com certeza o ônibus atrasou um pouco mais. Naquela hora da manhã já estava a falar em uma possível greve do Sindicato dos Garis. Na ocasião, Glauco não deu a mínima importância para o fato. E mais: ele estava a haver com despachos de documentos muito mais importantes. Porém, naquela hora ele recebeu a vista de sua sobrinha Walquiria. Ela estava tão bem trajada, pois nem sequer esses trajos ele então notou de repente. Acolheu Glauco com boas vindas a chegada de Walquiria. E a moça indagou de repente:
--- Onde está Racilva meu tio? – indagou surpresa a moça.
--- Vem por ai. Vem por aí!. – respondeu o tio a beijar as mãos de Walquiria se atropelos.
--- Isso é que é emprego! Chega-se a hora que se quer. – sorriu a moça incontinente.
--- Novidades para me contar? – perguntou Glauco a sua sobrinha.
--- Se tenho? Ora se tenho! Fui promovida a diretora de um estabelecimento de ensino. – sorriu Walquiria como se estivesse toda satisfeita.
--- E foi? De qual Governo! – indagou de surpresa o homem.
--- Bem. Foi e não foi fácil. Ontem eu fui a Prefeitura fazer um teste para servir de datilógrafa. Veja que coisa! Bem! Eu estava respondeu as questões quando entra na sala um velho amigo. Eu nem reparei. Mas ele me viu. E de surpresa me apanhou naquela ocasião e dizer não admitir eu ser apenas datilografa da Prefeitura. Enato ele me levou até o Prefeito e declarou:
--- Empregue a moça! – disse Carlos Gardel.
--- Então passei a conversar com o prefeito e ele logo disse: Eu era a diretora de um colégio em lugar de secretaria do prefeito. E agora estou aqui para contar ao senhor o feito. – declarou a moça cheia de entusiasmo.
--- Bom. Esplendido! Alguém já foi informado? – indagou o tio.
--- Não. Espero a publicação no Diário Oficial. Mas, amanhã eu irei à fazenda e direi ser a nova diretora de ensino da Secretaria de Educação. – respondeu Walquiria sorrindo.
Nesse momento Racilva Arantes entrou em seu gabinete e trabalho. Feliz da vida ela abraçou a sobrinha do seu noivo. E por fim Racilva deu uma olhadela na sua banca de trabalho e notou a presença da revista Vogue.
--- Vogue! Já chegou? Maravilha! Eu vou por uma banca para mim só por causa das revistas de estilo. – gracejou a moça apresentando a Walquiria o novo exemplar da Vogue.
--- Eu vi na Agência e trouxe logo para você. – sorriu feliz Glauco ao se desfazer de qualquer temeridade.
--- Já sei. Tu és um amor de criatura. Mil beijos! – declarou sentida a noiva de Glauco.
E Glauco convidou a sobrinha para comemorar a sua contratação pelo Município para um refrescante salutar almoço no restaurante do Grande Hotel, que foi aceito prontamente. As duas elegantes moças pediram licença ao chefe de Racilva para irem ao comercio do bairro da Ribeira para olhar almas novidades em roupas de luxo. Walquiria estava certa do seu contrato pela Prefeitura e quando saísse à nomeação ela queria estar melhor apresentável os modos de vestir.
--- Essa revista mostra um estilo melhor de se vestir? – indagou Walquiria a Racilva.
--- Tem de tudo nessa revista. É uma revista da moda francesa, creio eu! – sorriu Racilva ao contemplar a revista a sua amiga.
--- Francesa? Mais que luxo? Será que tem aqui algum artigo que se contemple em alguma loja? – indagou aflita a jovem Walquiria a sua amiga.
--- Creio que tem. Parecido, tem! – relatou Racilva a Walquiria.
--- Vamos ver se encontramos. – sorriu Walquiria apresando o passo.
E desta forma as duas moças passaram a manha a percorrer as lojas de artigos femininos, experimentado blusas e saias, vestidos e adornos. Tudo o que se podia almejar naquela festa de autêntica beleza. As horas foram passando até chegar a hora do almoço no restaurante do Hotel.


sábado, 3 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 39 -

- CARRO COLETOR -
- 39 -

Oito horas da manhã de sexta-feira. Zilene Caldas desceu do auto. Glauco Rodrigues rumou em direção oposta. Um garoto vinha em uma bicicleta. Quase atropelo a moça. E disse:
--- Cuidado boneca! – falou o rapaz olhando para trás.
Zilene teve um susto. Mas se aguentou e disse em resposta:
--- Babaca! – falou Zilene ao ciclista com muito ódio.
Com a cara obtusa a moça caminhou com os seus papeis colados ao busto procurando a entrada do Jornal, lugar onde trabalhava. O vento forte sobrou e arrancou os papeis sacudindo ao leu pelo chão a fora. Zilene procurou apanhar os papeis. Um caminhão tanque vindo. O motorista buzinou com insistência com uma buzina fazendo:
--- Panpan. – de forma alta e alarmante.
A moça estava agachada a apanhar os papeis espelhados pelo chão. Ela olhou para o carro com uma feição de não entender o buzinar. E de uma só vez gritou para o caminhão tanque que estava parado com uma cara agressiva, arrogante até a espera da moça se levantar e sair:
--- Passe por cima! Estupido! E vá pra merda! Não tem o que fazer? – descompôs a moça ao carro tanque hostil.
O motorista do carro tanque abriu o vidro da porá e disse:
--- Moça! Isso é uma via de transporte de carga! – falou o motorista.
--- E vá pra merda você também! – gritou esbravejante a moça para o motorista estirando o dedo maiúsculo da mão direita.
O pessoal que passava, sorriu a valer vendo a moça atarantada a sacudir a saia e sair calçada afora. O homem vindo com um fogão em sua cabeça ainda teve tempo de dizer:
--- Ele é mais forte que a senhora! – relatou o carregador quase não podendo falar.
A moça tinha a cabeça dolorida por causa da bebida tomada na noite e madrugada passadas. E nem respondeu ao carregador. Apenas saiu do caminho do carto de combustível cheia de ódio de rancor a pensar de nada ou de tudo o que fizera durante a madrugada. Ela não se lembrava de coisa alguma até beber um conteúdo branco em um copo postado na sua mesa. E lembrou apenas do nome dito por Glauco:
--- Gim! Que merda! Não bebo mais! Nunca na minha vida! – relatou em baixinho volume a moça.
Um homem vinha saindo do Jornal e teve tempo de lhe dizer:
--- Estão te procurando lá em cima. – relatou o homem a sair de calçada a fora.
Zilene deu uma rabissaca e nada respondeu. Nem sequer um muito obrigado. Ela apenas subiu os degraus da escadaria e buscou a entrada do Jornal. Era tudo tão confuso em sua mente que a moça nem pensava ao certo. A cabeça parecia um bombo. E tudo mais parecia diferente. Os seus olhos estavam a lacrimejar como nunca. Ela entrou na redação e procurou sua pauta. Enfim encontrou um papel e sacou para dentro da bolsa. Zilene apenas viu o que estava escrito com a cabeça zunindo a todo instante.    E ainda teve tempo de dizer:
--- Lixo! É uma merda! – respondeu a moça zangada.
E saiu de vez da redação, pois não tinha nada a fazer. Lá fora pegou o carro da reportagem e disse ao motorista.
--- Urbana! Tem assembleia dos catadores de lixo! Na certa farão greve! – resmungou a moça.
O motorista dirigiu o carro direto para o bairro das Quintas. Zilene não suportava a velocidade do carro e resolveu fechar os olhos como se estivesse a dormir. No sacolejo do carro ela ainda pensou na madrugada daquele dia.
--- Que bosta que eu fiz! – pensava alarmada a garota.
O carro brecou de vez. Ela abriu os olhos. Era um sinal de trânsito. E Zilene fechou a vista e tornou a pensar.
--- Ele é um filho de uma puta! Botou-me de porre! Quando acabar fez o que bem quis. Não me lembro de nada. E era um motel aquela baranga? – indagou sem jeito ao pensar.
O carro continuou a trafegar com máxima velocidade permitida. A cabeça de Zilene era quem zunia. Ela nem se lembrava da refeição matinal. Frutas, café, queijo, bolachas e suco. E então veio a vontade de vomitar. Porém a moça se aguentou.
--- Ressaca! Isso é uma porra! – e cuspiu Zilene para fora do carro.
Ao acabar de pensar no que fizera horas antes daquela manhã foi o tempo do carro encostar próximo ao prédio da Urbana. Um alarido enorme. Zilene não tinha sossego. Um carro de som a todo volume divulgava:
--- Estamos em estado de greve! Não ponha o lixo para fora de casa! – dizia em um verdadeiro alarido o locutor do carro de som.
E uma mulher perguntava a outra com as mãos nos quartos.
--- E agora? Onde vou botar meu lixo? – perguntou a mulher de modo inquieto
--- No cu da mãe dele! – cuspiu a outra ao responder a pergunta feita
Uma anciã vinha chegando já acorcovada e indagou.
--- É greve é? – indagou sorrindo a anciã.
--- Não está vendo velha! Tudo só se faz com greve! Tô pra ver! – respondeu a mulher primeira
A zoada infernal tomava conta do lugar. Alí era a Urbana. Mas sede do Sindicato dos Garis ficava em outro local. A multidão de catadores de lixo fazia a feira com bandeiras coloridas com a insígnia do partido entre outras bandeiras de alguns partidos de menor importância. Os trabalhadores gritavam por melhorias salarias:
--- Queremos salários justos! Queremos salários justos! – gritavam os trabalhadores.
Um homem subiu no carro de som para dizer:
--- Não se pode viver com salário de fome! – era o que dizia o chefe dos garis.
Entre toda essa azafama estava Zilene com a sua cabeça moída. E procurou por entre os outros repórteres buscar uma palavra do presidente do Sindicato. E o encontrou:
--- Estamos em greve total a partir de agora! – relatou o presidente com ênfase.
--- Nem o lixo hospitalar? – indagou Zilene.
--- Nem esse. Estamos em greve por melhores salários! – respondeu o presidente do Sindicato
--- E os restaurantes? – voltou a indagar Zilene diante de tanta balburdia dos garis.
--- Não temos nada contra os restaurantes. Mas eles que conservem seu lixo nos depósitos, - ressaltou o presidente.
--- E as moscas? – perguntou bem forte Zilene.
--- Que moscas? Que moscas? Não temos nada contra as moscas! – relatou o presidente.
Ao retornar a redação um tanto confusa, Zilene entro depressa e foi dizendo:
--- Greve geral! – fez ver Zilene.
Então, o chefe dos repórteres indagou:
--- E a matéria do Ministro? – indagou o chefe de reportagem.
--- Que Ministro? – perguntou assustada a moça.
---Tá vendo. Você trocou as pautas! – respondeu ele agressivo.
--- Ai meu Deus! Essa era de Antônio! Nem vi! – sorriu Zilene a ocupar a maquina.
O chefe de redação entrou na hora e declarou sem exceção. 
--- Põe essa matéria da primeira página. – declarou saem relutância o chefe.
--- E a do Ministro? – perguntou o rapaz olhando o seu chefe que passava;
--- Põe em outra página qualquer. Matéria dos garis é mais importante: GARIS EM GREVE. Só isso.



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 38 -

- BAR PALHOÇA -
- 38 -
Após a sessão da Federação Espírita o trio saiu no automóvel de Glauco Rodrigues a comentar certos aspectos da sessão onde um homem declarou ter assistido em outro Centro o fazer por um médium da remoção de um tumor do pulmão de um homem enfermo já em fase terminal. Esse médium incorporou o espírito de um médico e assim fez a cirurgia mediúnica. O resultado se deu positivo. O doente ainda viveu vários anos e nunca mais se queixou de qualquer outra enfermidade. Zilene fez ver outro caso:
--- Eu fiquei assombrada com o depoimento de um assistente de ter visto um amigo já falecido. Ela não sabia do caso. Mas amigo veio lhe avisar de estar em outro lugar. Incrível! – relatou a moça emocionada.
--- Tem cada caso incrível de nós ouvirmos! – comentou Racilva surpreendida com os fatos.
--- Tem casos de influencia dos espíritos em nosso mundo. – relatou Zilene mesmo chocada.
--- Veja ter o mundo Terra um número expressivo de 18 bilhões de seres desencarnados. Isso representa três vezes mais os seres encarnados. – respondeu Racilva com certa preocupação.
--- Eu imagino serem estes espíritos desencarnados, tantos os bons como os elementares a pensar e a conduzir os demais seres aqui da Terra conforme suas ideias e vidas fora do corpo onde viveram. – fez vez Zilene a Racilva ainda com temeridade.
--- Eu fico a imaginar se eu penso, por exemplo, em meu antepassado bem distante, ele vem a mim, como se fosse ao presente. Quer dizer: eu penso nele e ele vem a mim naquele instante. Então eu não estou pensado somente nele. Mas estou conversando com ele. Isso é magnifico. – comentou Racilva cheia de vivacidade.
--- Já pensou em você pensar em um elemento que viveu muitos anos atrás. Os Sumérios, por exemplo. Eu penso e ele vem a mim. – sorriu Zilene com esse fato.
--- É um vai e vem de um mundo e de outro! – sorriu Racilva alegremente.
--- Então, assim, nós não estamos descobrindo nada. Nós estamos apenas recriando processos já criados há milhões de anos passados por essas antigas civilizações. – falou Zilene procurando entender a chave do problema.
--- Pois é. Isso é fenomenal. – descreveu Racilva a esse assunto.
--- Porém existe um problema: nós somos pensamentos. Transmitimos e recebemos. Se nós estamos sintonizados com pensamentos bons, então recebemos bons pensamentos. E justamente é o contrário. É por isso que existem guerras. Por que os maus se entrosam com os maus pensamentos. Não é a pessoa, como vamos dizer: Hitler. Mas o pensamento dele que gira frequentemente em tono de nós. Como ele tem Napoleão, Cesar, Nero, Átila. Isso contando os mais famosos sem querer levar em conta os menores. – refletiu a jovem Zilene.
--- E se nós entrarmos em pensamentos com elementos negativos vamos se envolver com planos primitivos. – vivenciou Racilva esse pensamento.
Glauco deixou Racilva em sua casa e partiu para deixar à amiga Zilene no bairro da Cidade Alta onde a moça estava a morar.  No percurso, Glauco teve a curiosidade de indagar o fato de a moça dizer sempre quando se encontrava com ele algo como serpente. Zilene então sorriu e disse a Glauco ser o caso de teatro, pois em uma peça havia uma serpente.
--- Era só isso? – indagou Glauco se admirando da linguagem do teatro.
--- Só. Está preocupado com o termo? –indagou Zilene a sorrir.
--- Não. Não. Só queria saber. – respondeu o homem se despreocupando do assunto.
--- Pois é! Olhe a cobra! – sorriu Zilene ao descer do carro para seguir para a sua casa.
O homem então sorriu e fez o mesmo em direção à moça.
--- Olhe a cobra! – sorriu Glauco com esse dizer de que esteve a aprender durante esses dias.
Quando já começava a transitar para a sua residência, Zilene Caldas teve um momento de pausa e então deu um leve grito por Glauco. Esse estacou o carro. Ele estava a dirigir para o seu local tranquilo onde dormia: o Hotel Belas Artes. Porém a ouvir o chamado de Zilene ele parou o carro e perguntou de volta.
--- O que se passa, Cobrinha? – e sorriu a vontade.
--- É que: você nem me chama para tomar uma cerveja? – indagou a moça com seu ar faceiro.
--- Quer beber a esta hora da noite? – indagou Glauco a Zilene observando bem a moça.
--- Sim. Uma cerveja não faz mal a ninguém. – sorriu Zilene ajeitando seus cadernos sobre os peitos.
--- É. Não faz. E aonde você quer ir? – indagou Glauco para colher mais de sua companheira.
--- Sei lá. Qualquer lugar que venda cerveja. – sorriu Zilene se achegado ao carro.
Aquele carro era o prenuncio da safadeza. Ele procurava de todo meio um lugar aprazível para se aconchegar com suavidade. Podia até mesmo uma praia ou um lugar mais aprazível. Era o carro quem escolhia o lugar. Ele e nada mais. E na sequencia Glauco declarou:
--- Entre! Vamos à Cabana. – sorriu Glauco ao contemplar a beleza singela da moça.
E nem precisava chamar pela segunda vez. Na primeira então Zilene Caldas embarcou no carro totalmente ancho, tirando os cadernos dos seios e se deitou no banco do automóvel ao dizer.
--- Nada melhor do que se ter dinheiro! – declarou como em um sonho a moça.
E então o homem respondeu como a atiçar a cobra.
--- Nada melhor do que se ter uma bela serpente em seu colo! – articulou por sua vez Glauco.
A moça olhou para Glauco e sorriu deitando-se ao colo do enigmático homem. Esse acariciou a cabeça a moça como quem a seduzisse pela vez primeira. E a moça então se aconchegou de leve ao colo do homem com a boca a beija sua ansiosa pele branca e cheirosa de uma linda açucena da pessoa amada. Eram onze horas da noite. Uma quinta feira e havia bem pouco movimento na Palhoça. Apenas os casais de namorados e os habitués. Estes ficavam até à uma hora da madrugada no meio da semana. Glauco entrou com Zilene e quase ninguém notou a não ser Luís, o garçom de todas as noites. Ele esteve na primeira Palhoça, onde o casal ficou e logo saiu. Glauco pediu uma cerveja. Com ele ficou o cardápio. Ostras cruas, carne assada, lagosta, camarão entre outros aperitivos. Glauco preferiu a ostra crua.
--- E é gostosa? – indagou Zilene.
--- Uma delícia! – sorriu Glauco a olhar de modo carinhoso a dama de sua frente.
--- Crua? – Zilene fez uma cara azeda.
--- É ainda melhor! – declarou Glauco a seduzir a moça.
--- Vou experimentar. – sorriu sem graça a jovem Zilene.
E então o garçom Luís aos dois clientes e disse ainda:
--- Ostras colhidas hoje! – sorriu Luís a por os pratos na banca.
Glauco agradeceu a gentileza do rapaz e começou a comer a ostra com um gole de cerveja.
--- Coma para ver como é boa a ostra! – sorriu baixinho o homem.
--- Estou comendo! ... É mole! ...E fria! ...- sorriu Zilene a degustar a ostra crua.
--- Mole como a cobra? – indagou Glauco querendo atiçar Zilene.
--- Hum? – sorriu Zilene agora sem muito entender o que o homem falou.
---Cobra! Não é o termo usado no teatro? – perguntou Glauco quase lento querendo pegar a moça no instante mentira.
--- Ah é! Cobra! – sorriu Zilene assumindo a norma dita antes.
--- Essa cobra tem pelos? – fez ver Glauco ao querer saber mais sobre a serpente.
--- Parece! – declarou Zilene a comer a ostra crua e beber cerveja gelada.
E o tempo foi passando e a cerveja se esgotando tendo Glauco pedido outra rodada, e mais outra, e mais, e mais até sentir a embriagues a moça já estar a chegar. Ela pediu para sair, ir até o banheiro e na volta pediu mais cerveja ao garçom. Não contava Zilene com uma surpresa invulgar. Na mesa já estavam postos mais pratos de ostras e um gim, com certeza, para a moça beber.
--- Que é isso? – perguntou já embriagada pela aquela bebida.
--- Gim! – disse o homem a contemplar a formosura de Zilene.
--- Nossa! Eu já estou ébria. Tornei-me uma ébria! – e gargalhou Zilene.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 37 -

- ACASO -
- 37 -
Na mesma quinta-feira pela manhã, Racilva Arantes recebeu em seu escritório no Gabinete do doutor Glauco Rodrigues a visita da sua amiga Zilene Caldas. Foi por pura cortesia, afinal Glauco não estava no seu gabinete naquele instante. E dessa forma, as duas amigas puderam conversar a vontade falado sempre do médium Manoel Revoredo, o Nequinho, ancião dos seus oitenta anos, mais ou menos. O ancião marcou a sessão de quinta feira na Federação ficando Racilva de voltar a sua casa na sexta feira, pela tarde. Racilva estava animada com o resultado da primeira experiência feita. E perguntou a Zilene como tinha se saído quando estava sob o efeito de hipnose ou dormindo como era mais frequente ser dito. E Zilene, com temor declarou alguns episódios do passado. E então, Racilva sorriu.
--- Será que vou ser como antes? – indagou Racilva alegre.
--- Isso eu não creio. Nossa vida tem locais altos e baixos. Você chegou a dizer que o homem colhia frutas. Mas não disse onde estava. Podia ser em qualquer parte do mundo. – destacou Zilene sorrindo.
--- Mas isso é incrível. Eu não me lembro de nada. – decifrou Racilva atrapalhada ainda.
--- Por isso o médium achou melhor progredir nas sessões. Sexta feira ele poderá ter uma mais ampla visão de você. – destacou Zilene de forma séria.
E a conversa progrediu nesse mesmo compasso e por fim Zilene destacou ter mais tarde de ir com Racilva a sessão da Federação. Isso porque o ambiente era bem melhor e Racilva podia ver e ouvir outros depoimentos de médiuns, os mais sábios da cidade. Enquanto as duas amigas conversavam de mediunidade e coisas mais, o noive de Racilva caminhou de volta ao seu gabinete. Ao entrar na sala Glauco cumprimentou a amiga de Racilva. E essa fez o mesmo. A noiva foi quem chamou a atenção do seu noivo de que Zilene esteve a dizer ser a sua intenção em ir à Federação na sessão daquela noite.
--- Pode amor? – indagou Racilva muito alegre.
--- Claro. Eu a apanho logo mais na frente do Teatro. – respondeu Glauco de olhar desconfiado.
Zilene sorriu satisfeita com o acerto feito de ir logo à noite à sessão espírita. E adiante trocou breves palavras com a amiga adiantando ter logo mais assuntos bem fortes para as duas moças poderem trocar, pois afinal era a primeira vez de Racilva a uma reunião espirita de verdade.
--- Cuide-se. – recomentou Zilene a sorrir.
--- Não tenhas dúvidas! – disse em troca Racilva tomando a amiga pelo braço para conduzi-la até a porta da Repartição.
Ao passar diante da mesa de trabalho de Glauco Rodrigues a jovem Zilene trocou um olhar furtivo para com ele e ainda disse muito baixo:
--- Cobra! – e sorriu de vagar.
O homem ficou sem entender o que Zilene queria dizer e respondeu:
--- Até logo. – respondeu Glauco com um olhar inquieto.
Enquanto isso, ainda pela madrugada, antes do sol nascer de verdade, o grupo de três capangas entro na fazenda do criador Joao Duarte. E se fazendo de vaqueiros arredios foi procurar abrigo em determinado local mais distante de outros vaqueiros e capangas. Manoel do Saco era o chefe do grupo e deu ordens para os dois jagunços se afastarem e cruzarem o sítio de formas a que os três ficassem resguardados a espera do homem João Duarte. Antes do ocorrido Neco do Saco se certificou da presença no local de Joao Duarte ao indagar de um jagunço por onde andava o “patrão”. Por isso, ele não desperto maior atenção.
--- O “patrão” está na casa grande? – indagou Neco do Saco a um jagunço.
--- Por certo. Quem pergunta? – fez ver o jagunço.
--- Manoel. Trago uma parte da boiada para ele. Todos são gados sem ferro. – respondeu Neco
--- É, Então o senhor espere na fazenda! – disse de vez o capanga.
E assim foi o caminhar do homem. Já solto de canga e corda ele fez então a distribuição dos seus jagunços por determinadas partes da Fazenda “De Cardo” como era conhecida à fazenda de João Duarte. E assim se fez o dia. Quando o sol já despontava no horizonte, Neco do Saco viu muito bem a presença de João Duarte a sair de casa para inspecionar o seu gado. E foi em cima do ato que o capanga do coronel Fabriciano pegou de vez o se desafeto e pôs em sua cabeça a arma de fogo com a recomendação:
--- Nem grite e nem fale! O casarão está cercado pela tropa de jagunços! – disse baixo com a arma apontada para a cabeça de Joao Duarte o jagunço Neco do Saco.
O homem, sem poder olhar para trás, obedeceu a ordem. E pela ordem dada, seguiu direto em marcha pelo campo. Um jagunço do seu lado se posicionou em ordem de tiro. Ele disse então:
--- Não atire! Não atire! Não atire! Diga a todos! Não atirem!!! – reclamou assustado João Duarte.
--- Muito bem. Vamos em frente! Se alguém atirar, você é homem morto também! – rezou Neco do Saco falando baixo ao seu rival.
--- Quem é você? – perguntou JD enquanto caminhava atordoado pelo atendado em sua casa.
--- Um capanga, meu mestre! Um capanga! E não fale mais se não você morre! – respondeu Neco do Saco a caminhar com o rendido fazendeiro.
--- Tá bem! Tá bem! Não pergunto! Mas é dinheiro que você quer? – indagou JD ao capanga.
Um soco de um Winchester fez o homem se calar. Pelo visto o capanga não estava atrás de algum níquel. Talvez fosse vingança. Talvez. E o homem JD continuou a caminhar até chegar a uma montaria. No cavalo o homem subiu diante da ameaça de um Winchester. Os outros dois cangaceiros fizeram o cerco em torno do prisioneiro para ter certeza de não haver ninguém a apontar uma arma para eles. E devagar, enquanto um jagunço fez um tiro para atingir algum algoz, o jagunço da turma de Neco do Saco abriu fogo contra o elemento atingindo de cheio apesar da distancia entre os dois. O cavalo de JD estrebuchou assustado e Neco do Saco foi ao ferro:
--- Não te disse cabra frouxo. Tu morres se parecer outro! – reclamou Neco com raiva da bala.
--- Não atirem! Não atirem! Por favor! Não atirem! – gritava JD aos seus capangas.
E foi assim que depois de algum tempo os cavalos marcharam em disparada, seguindo uma trilha e outra, subindo mato e descendo montanhas, atravessando lagos e vadeando rios rasos até chegarem ao um recanto desprovido de quase tudo. Foi quando Neco do Saco ordenou:
--- Descanse cabra! Vamos ver se tu és macho mesmo! Corno safado! Matador de mulher e homem! Desça! – disse bravo o jagunço ao homem já sentindo estar liquidado.
E o homem JD se apeou  do cavalo. Em seguida, Neco amarrou as mãos do patrão dos jagunços adversários e amarrou ao rabo do seu cavalo. Neco chicoteou o animal sob a alegria dos dois outros jagunços seus amigos até uma distancia boa. JD não se aguentava mais de tanta inominável desventura e pediu ao bandoleiro que lhe matasse, pois estava todo quebrado. Sem negar pedido. Neco do Saco desferiu um golpe com um facão na cabeça do coitado. Ele teve morte instantânea. Em seguida, o bandoleiro arrancou uma trunfa de cabelo da cabeça de JD e uma orelha para mostrar ao coronel Fabriciano o seu feito. Depois de tudo isso, amarrou o homem rico do sertão em cima do cavalo dele e acoitou o animal acreditando ser esse capaz de acertar com a volta.
--- Vamos embora! Trato feito! – discursou Neco do Saco aos seus jagunços.
Então, a turma sacudiu o chapéu para cima sob os gritos de terem alcançado o feito.
Já passava das duas horas da tarde quando o roceiro Manoel Nazareno, o Neco do Saco, chegou com seus dois companheiros à Fazenda “Sossego” a procura do Coronel Fabriciano, o velho, com a sua mochila a terá-colo com as duas partes do corpo do fazendeiro João Duarte comprovando o seu trucidamento. Os jagunços ficaram de fora. Somente o Neco do Saco teve a permissão de entrar e falar com o coronel. E ele fez a entrega:
--- Pronto coronel! A prova! – declarou Manoel Nazareno cuspindo de lado a gosma do fumo.
--- Muito bom! Cachaça pra todos! – gritou o coronel de modo sempre alegre.
O sol já terminava o seu percurso da tarde e a jagunçada continuava a beber sem parar a cachaça oferecida pelo coronel e saudavam os três amigos do cangaço gritando para o alto. O velho Coronel era só alegria.