segunda-feira, 12 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 48 -

- GADO -
- 48 -
Na manhã daquela segunda-feira um vaqueiro voltou apressado e extenuado à Fazenda “Sossego” clamando mais que depressa a ajuda do criador Valdomiro Timbó, irmão do Coronel Ahrtur, pai de Walquiria Rodrigues e também herdeiro legitimo das Fazendas Tijuaçú, Alarmes e Pirilampo além da grande Fazenda Maxixe. O vaqueiro conhecido em toda parte do lugar por Boca Rica (seu principal nome era Jerônimo João José) corria em desespero deixando os demais vaqueiros da fazenda em atônita agonia. Boca Rica chegou ao alpendre da Fazenda Sossego com seus alarmes e tudo a dizer para o patrão Valdomiro ter a desgraça ocorrida na mata do Espinho.
--- Patrão! Patrão! Uma desgraça! O gado está morrendo! – relatou atormentado o homem todo afligido da vida.
--- Que foi homem? Que te angustia? – indagou Valdomiro balançando em uma cadeira feita de vime.
--- Tá pra mais de vinte cabeças que eu encontrei no campo do Espinho. Os bichos estavam todos molestados. É coisa enfadonho doutor. O gado anda manco aqui e acolá e findando caindo já morrendo. É uma loucura, patrão! – dizia o vaqueiro todo suado e neurastênico.
--- Quantas reses estão morrendo desse jeito? – cuspiu pra parede o fazendeiro ao perguntar a Boca Rica de tal situação.
--- Sei não patrão! Tem pra mais de vinte. Eu não vi todo o rebanho. Corri pra avisar o senhor! – clamou por tudo o vaqueiro com a cara cheia de espanto.
--- E danado! Além de queda, coice! Eu vou olhar. Mas prefiro chamar o homem que trata os bichos. É bem melhor assim! – reportou Valdomiro de uma vez por todas.
--- E o senhor quer que eu chame o homem? – indagou um tanto vexado Boca Rica.
--- É bom. É bom. Va chamar o veterinário. Enquanto isso eu vou até a Mata do Espinho pra ver de perto essa estória. – relatou por fim o fazendeiro.
--- Pois eu vou. E peço que o senhor não pegue nos bichos. É doenção! – clamou Boca Rica e partindo em seguida para a cidade.
Sem muita pressa, o criador Valdomiro Timbó correu o campo na companhia de outros três vaqueiros e chagar até a Mata do Espinho onde encontrou mais de vinte reses já mortas e outras tantas acometidas do mau.  Em cada uma das vacas o homem inspecionou com cuidado e chamando os vaqueiros foi até muito longe de onde ele estava a procura de mais rebanhos para ver se estava amofinado da doença. Valdomiro perambulou por todo o intrincado campo encontrando outras reses acometidas do mesmo mau. Por volta de onze horas ele tornou ao casarão do “Sossego” a cuspir de banda e dizer aos três vaqueiros.
--- Nunca vi doença desse modo. Suspende a carne de gado abatido na minha casa. Vamos ver o que diz o homem. – falou com altivez o dono do rebanho.
--- É pra já patrão! – respondeu intrincado um vaqueiro.
O veterinário que recebeu o recado partiu para a Fazenda “Sossego” a procura de Valdomiro Timbó. Contudo o fazendeiro já havia saído à procura das reses mortas ou por morrer na Mata do Espinho. Em seguida, em seu jeep velho caminhou com outro vaqueiro para a região onde deveria estar o criador a procura do seu rebanho acometido do mau. Os mosquitos da manhã tardia enveredavam pelo interior do jeep e atormentavam o veterinário. Essa não parava em espantar os insetos. Inclusive um marimbondo “Cavalo do Cão”. Esse entrou somente para morrer. O vaqueiro que acompanhava o veterinário meteu o pé e esbagaçou o marimbondo.
--- Arra diabo. Vá morder o cão. – relatou enfezado o vaqueiro acompanhante limpando a alpargata de rabicho.
--- Tem muitos deles por aqui. – sorriu o veterinário ao ver o inseto esmagado.
--- Tem de muito. Eles comem cobra, aranha, mata cavalo e sua após ferroar o outro ele come ou faz de alimento as suas larvas. Bicho danado. Pequeno e danado de ruim. – cuspiu e banda o vaqueiro.
O veterinário sorriu com a arenga o vaqueiro contra o bicho morto.
O veterinário não viu nem rastro do fazendeiro Valdomiro por onde andou. Mas examinou o gado afetado e teve uma conclusão:
--- Eita diabo. Síndrome da Vaca Louca! É doença terrível! Valdomiro vai que enterrar esse gado e separar os outros ainda não acometidos. Deixa o gado de quarentena! Isso vai dar em vasta região desse Estado! – comentou o veterinário a coçar a cabeça e franzindo a cara.
--- E isso é ruim, doutor! – perguntou o vaqueiro ao veterinário.
--- Perigoso. Não se tem uma noção exata de se tratar dos animais doentes. Eles contraem dos ovinos e podem durar cinco anos até a manifestação do gado leiteiro ou não. É cuidar agora. – foi o diagnóstico do veterinário.
--- Ora merda! E minhas cabras? – falou o vaqueiro com o medo da morte do gado.
De volta à Fazenda “Sossego” o veterinário Joaquim Fragoso por fim se mostrava terrivelmente preocupado e já imaginava o que estava ocorrendo nas outras fazendas da região. A doença da vaca louca poderia afetar o comércio da região e de outros Estados, levando a importação a ser proibida por um bom tempo até se chegar a uma causa normal da morte dos animais. E ao chegar à Fazenda pelas primeiras horas da tarde o veterinário Joaquim Fragoso foi logo recebido pelo fazendeiro Valdomiro Timbó. Esse havia retornado da sua viagem à Mata do Espinho há poucas horas antes.  E quando o veterinário Joaquim Fragoso chegou o fazendeiro ainda estava suado por conta da viagem ao sol do meio dia.  Então o veterinário disse o que viu e deu o seu diagnóstico.
--- É problema. O gado está ameaçado do mal da vaca louca. É enterrar os mortos e separar os de saúde, apesar de não saber quais foram afetados. Isso é perigoso. Vem desde países como os da Europa e já está aqui. – amargou em dizer aquilo o veterinário.
--- E as minhas cabeças? Ainda faltam entregar três mil cabeças de gado bovino! – comentou assustado o criador Valdomiro Timbó ao contemplar e cerco formado pela mata extensa.
--- É preocupante. Eu não recebi nenhuma notificação de outro criador. Mas, certamente vai aparecer. Essa doença é derrubadora. Esse gado pode ter levado cinco anos para desenvolver o estágio e contágio. – relatou o veterinário se acercando da sombra providencial do alpendre.
Após um longo período de conversa, almoço e repouso, o veterinário Joaquim Fragoso voltou para a sua casa no centro município de Serra Grande onde outra noticia podia dar um rumo ao seu atendimento o qual era do seu feitio. A estória da Vaca Louca lhe deixou preocupado. Os criadores de gado da região importavam animais de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais os centros de maior reprodução do rebanho. No nordeste há também a criação de gado de corte e leiteiro. Entre tudo isso, era enfim preocupante a chamada doença da vaca louca, pois os animais vinham sempre de locais diversos. No seu escritório, o veterinário Joaquim Fragoso ainda não tinha recebido nova chamada para cuidar de reses doentes.
No dia seguinte, uma terça-feira, o veterinário recebeu em sua casa um criador de gado temendo por seu rebanho, pois surgiram umas reses vindas do centro-oeste um pouco magras com a pele tirada e mostrado a carne viva de tanto coçar. Esse gado estava adoentado e ele não sabia identificar o mau. E veterinário caiu em campo e diagnosticou de imediato ser o mau da vaca louca.
--- É grave doutor? – perguntou alarmado o fazendeiro.
--- E muito. Sepulte as vacas mortas e ponha em quarentena as sadias. – relatou Joaquim Fragoso ao temeroso criador.
Com esse segundo caso, o veterinário determinou urgência no rebanho do seu município e procurou de imediato a Secretaria de Agricultura do Estado apontando pela extrema carência de se fazer diagnóstico em todo o rebanho do Estado e, provavelmente de onde tinha vindo às reses mortas. O pânico tomou conta de todo o Estado e o consumo de carne de gado caiu vertiginosamente e nem leite havia nos mercados da capital. Mesmo se dizendo que era leite “sadio” o povo olhava de forma desconfiada e rejeitava a compra. O mau da vaca louca tomou conta dos noticiários nacionais e a situação em muito sacrificou o rebanho dos Estados do centro-sul do País. De vez, as exportações de carne bovina para o exterior ficou comprometida enquanto aves tomavam conta do mercado.
--- Isso é um horror! – relatavam os compradores nos açougues.
--- Veja como está esse açougue! Só se vendo para crer! – respondia outro extasiado.
E marcha tomou conta da capital com um punhado de gente a interferir na compra da carne bovina com os seus cartazes em punho e a gritar para todos os passantes.
--- Não comprem carne de gado! – relatava um enorme placar tendo a frente às pessoas quase sempre desavisadas do contágio da doença.
E a quarentena prosseguia por um bom tempo.

domingo, 11 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 47 -

- AVENIDA GETÚLIO VARGAS -
- 47 -
Ao entrar no chalé Glauco mostrou a Racilva o que ela havia feito com os arrumadores da casa uns dias passados. Uma coisa alí outra acolá. Tudo ao gosto e modo da terna moça toda alegre quando fez a arrumação disso e daquilo. O chalé era amplo e não deu tempo de se ver tudo naquela hora do almoço. Por sinal Glauco Rodrigues já estava a par dos lances arrumados, pois foi ele a comprar todo móvel, alguns até trazidos de ouras partes do Brasil, como os tapetes, acolchoados, candelabros, luminárias e mesmo os armários de guardar comidas e bebidas vindas do Rio de Janeiro. A parte de fora, a entrada propriamente dita era de um esmero acabado. O chalé amplo ficava afastado da entrada do portão da casa. E o domicílio era bem afastado das outras habitações da avenida. Uma calçada tinha em todo o redor do chalé e a entrada de carros era feita pelo lado direito, já no final do muro do chalé. Tudo era magnífico com árvores na frente e dos lados do chalé ocupando todo o quintal onde estava construído o chalé. Esse caso ficaria para se conhecer tempos depois. No momento, era a vez do lauto almoço preparado pela governanta Elizabete Peres, conhecida no local onde trabalhava até aquela data de apenas por Bete. O título de Governanta foi posto por Glauco no momento que a contratou para ser a moça de servir a todos. Com a continuação, Bete teria a ajuda de outros serviçais, como arrumadeiras, gente da limpeza e de um homem a funcionar como Mordomo. Disso ela estava ao par.
--- Mordomo? – disse Bete na hora que foi contratada para o chalé.
--- É. Uma espécie de homem a atender a porta. – respondeu Glauco a sorrir.
--- Mas Mordomo? – quis saber Bete que tipo de homem era aquele.
--- É. Mordomo. E você é a Governanta. Depois da esposa quem manda é você. – sorriu Glauco.
A moça ficou revirando os olhos como quem não advinha o que era um Mordomo. Aliás, ela não sabia de coisa alguma a não ser lavar pratos. O homem orientou a moça para trajar roupas mais decentes, como uma roupa longa, sapatos de meia altura, meias, os cabelos de modo a sempre penteados, luvas, e algumas bijuterias discretas.
Porém, naquela hora, Bete apenas estava a servir o almoço feito de peixe. Isso ela sabia fazer muito bem. E também não ouvir a conversa dos patrões quando esse tivesse a almoçar. Por isso, Bete se afastava do local. Ao soar da sineta ela voltava para servir algo diferente.
--- Chateação!  Eu heim! – respondia a moça em tonalidade baixa. E completava:
--- Sineta pra cá! Sineta pra lá! Até parece que sou um cachorro! Besteira! – concluiu a moça no seu resmungar.
E ainda dava um “tuco” para completar o seu desaforo.
Na sala de refeição estavam os noivos a comentar coisas e causos. E a sorrir também. Logo a seguir Glauco indagou a Racilva sobre os Passaportes.
--- Eu pedi há uns vinte dias. – respondeu Racilva.
--- E os documentos levados? – indagou Glauco enquanto almoçava.
--- Identidade, carteira funcional, identidade militar, carteira da policia. Ora vejam só. Carteira de motorista que eu não tenho. Carteira de trabalho, certidão de viuvez. Essa e com você. – (sorriu a moça) – certidão de nascimento – E eu estou morta? – sorriu Racilva. Foi tanta coisa que nem sei mais. – sorriu a moça.
--- Deve estar chegando. – respondeu o homem sempre com a boca cheia de farofa.
--- Deve. Deve. Eu espero que despachem. A Polícia Federal é um amor. Faz tudo isso como se a gente não fizesse nada. Nossa! – replicou Racilva.
--- Segunda feira eu mando Ribeiro saber se teve algum empecilho! – retrucou Glauco.
--- Rio de Janeiro! Que sonho! – aludiu Racilva a olhar para cima e a sonhar.
--- Paris, Roma e tantas outras! – sorriu Glauco ao sentir a paixão da moça em conhecer o Rio.
Na manhã de segunda feira, Walquiria Rodrigues chegou à Prefeitura e logo foi recebida por uma recepcionista. A moça magra estava sentada à frente de um birô de mogno já um tanto acanhado pelos anos de serviço. E logo foi dizendo:
--- Pois não! – disse a moça a assuar o nariz por estar gripada.
--- Carlos Gardel, por favor! – respondeu Walquiria sem temer contagiar a gripe da moça.
--- É lá em cima. Pode subir. – sorriu a moça um pouco descorada.
E Walquiria, diretora de um colégio municipal, o Colégio João de Deus,  subiu a escadaria para o primeiro andar, o único existente, e se topou com nova recepcionista a quem indagou:
--- Carlos Gardel! – falou sem entremeios a moça.
--- Assunto? – indagou a recepcionista querendo ser dona da verdade.
--- Sou a diretora do Colégio Municipal João de Deus. Quero falar com Carlos! É só! – falou de modo ríspido a moça.
A recepcionista não sabia o que dizer. Se ele estava ou não. Afinal ao cabo de um curto tempo decidiu falar.
--- Ele está em audiência com o Prefeito. – respondeu a atendente.
--- Pois é até melhor. Eu falo com os dois. É assunto particular. – rosnou Walquiria querendo apagar a situação da atendente..
A atendente sentiu frio nos pés diante da impetuosidade de Walquiria. E disse afinal:
--- Pode entrar. É nessa porta. – ao se voltar para a porta de acesso ao Gabinete.
Walquiria se dirigiu ao Gabinete do Prefeito ainda a olhar por mais uma vez a cara da moça. E ao querer entrar no Gabinete, eis que parta se abriu. Era mesmo Carlos Gardel o homem que Walquiria procurava.
--- Desculpe. Quem. ...Olá! Você? Que novidade! – falou Carlos ao ver a sua frente a moça.
--- Pois é. E eu vim falar com você mesmo. Podemos? – indagou Walquiria sem mais nem menos.
--- Mas claro. – relatou Carlos e olhou para a moça atendente.
A atendente deu um “tuc” e voltou a cabeça para ver a rua. Com certeza, entre os dois devia haver algum caso de amor nem que fosse platônico. O certo foi Walquiria se dirigir para outra sala do lado esquerdo do Palácio Municipal e ao entrar ainda fez careta para a atendente. A atendente ficou irada com a expressão de Walquiria.
--- Pensa que toma? Tá aqui, ó! – disse Walquiria para a atendente ainda em surdina.
O rapaz ia à sua frente e ainda perguntou.
--- O que foi? – indagou Carlos a Walquiria a sorrir.
--- Nada. Reclamo do calor. – respondeu Walquiria entrado na sala de despachos de Carlos onde havia mais duas funcionárias.
--- Tá demais, hoje. Eu não tenho nem calor por causa do ar condicionado. – respondeu Carlos e pediu a moça que batia à maquina.
--- Veja dois cafés. – falou Carlos para a datilógrafa enquanto levava Walquiria até a sala e a mandou sentar em uma poltrona.
--- Hum! Que chique! – sorriu Walquiria a se sentar na poltrona.
Ao redor ela observou uma galeria de fotos de ex-prefeitos, dos mais antigos ao ultimo. Ela olhou e fez de conta não ter visto a galeria.
--- Bem! O que você quer? – perguntou Carlos Gardel a pegar as mãos de Walquiria.
Walquiria sorriu e deixou as mãos com ternura a ser pegas pelo homem forte do Prefeito. E depois de um curto espaço de tempo ela falou como quem procurava a ver se tinha mais alguém na sala. E entrou a datilógrafa com duas xicaras de café. Ela suspendeu a carícia feita e aceitou o café que Carlos havia pedido. Ao tomar o café Walquiria disse:
--- Agora aqui está frio. Parece ter mudado da água para o vinho. – fez ver Walquiria a sorrir.
--- São os segredos da vida moderna. Frio e calor. Na verdade, quando está chovendo por demais eu peço para reduzir o clima aqui dentro. Mas é o costume. A gente fica tão viciada com a temperatura que, quando falta, nós queremos mesmo a usar o ar sem condições de fazer o negócio esfriar. É a vida! – sorriu Carlos a contemplar a exuberante beleza de Walquiria
--- No Colégio onde eu estou ainda não tem essa gostosura de ar. – refletiu a moça a sorrir.
--- Isso é. Mas a Municipalidade está fazendo um levantamento de custos e o seu Colégio está na vez. – sorriu Carlos a se debruçar na mesa em sentido contrário a Walquiria.

sábado, 10 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 46 -

- MAGISTÉRIO -
- 46 -
Na sexta feira à noite era a comemoração da formatura dos concluintes do curso de Magistério em festa organizada em um local bem elegante da capital. O salão estava cheio de gente. O pessoal de Racilva Arantes eram seus pais, tios, primos e também o noivo, Glauco Rodrigues e mais Walquiria Rodrigues, sobrinhas de Glauco. Também estavam o coronel Ahrtur Timbó e sua amada esposa Nair Rodrigues além de um bom fulcro de gente conhecida sem falar nos demais componentes dos outros concluintes do Magistério. Era uma suprema festa muito bem organizada e divertida. O Governador do Estado e seu secretariado estavam presentes bem como o Prefeito da Capital. O Magistério é um ensino de primário ou Educação Fundamental. Mesmo assim, Racilva pensava em ir mais distante. Então, esse era o primeiro degrau para o Ensino. Walquiria, bastante animada e toda prosa, diretora do Colégio João de Deus, sorria a largas conversas com sua amiga Racilva Arantes e demais convidados para a festa. Uma turma intensa havia no salão de banquete escolhido para o diletante evento. Noivos, namorados e paqueradores de outras moças estavam também presentes bem como algumas sofisticadas moças olhavam os rapazes mais distantes a fim de pegar para dançar. E a dança começou com uma valsa do compositor austríaco Franz Schubert. E a seguir outras valsas mesmo brasileiras. Enfim, todos dançaram inclusive Racilva Arantes com o seu noivo Glauco Rodrigues até as primeiras horas da madrugada quanto a gente se foi para as suas casas.
Walquiria Rodrigues, animada como que, sempre dizia a Racilva modesta e acanhada:
--- E o casório vai ser assim? – indagou Walquiria a gargalhar.
E a moça respondia sorrindo.
--- Será melhor. Pergunte a ele! – apontava para o seu noivo Glauco.
Com o final da festa de formatura de professoras, Glauco e Racilva rumaram para a casa onde a moça morava. No meio do caminho Glauco falou breve.
--- Mais tarde nós iremos ao nosso chalé para ver como tudo está. Hoje, eu vou dormir mesmo no chalé, pois o quarto do Hotel eu entreguei ontem. Tenho uma empregada. Ela faz os preparos da comida para mim. E por esses dias eu espero chegar mais três criados. Esse pessoal está sendo recrutado por uma casa encarregada em preparos de chalé e chácaras entre outras coisas do ramo. Eu escolhi essa moça, por sinal bem jovem porque ela me pediu para ser uma espécie de camareira. E eu prometi e ela, hoje, está no chalé. Só quero vê. – sorriu Glauco ao informar as coisas do chalé.  E sorriu para disfarçar.
A moça ouviu tudo e nada comentou. Em um instante Racilva olhou para trás para ver se os pais estavam dormindo. Porém todos estavam acordados. A moça olhou de soslaio o seu noivo e esse apenas dirigia o seu carro sem nada deixar a notar. E então ela perguntou:
--- Você entregou tudo mesmo? – indagou a moça ao noivo.
--- Sim. Falta apenas apanhar algumas coisas. – respondeu Glauco ao dirigir com cuidado.
--- E nem me disse? – reclamou a moça acabrunhada.
--- Foi ontem. Antes de vir para a festa. – sorriu o homem ao desviar de um gato na rua.
--- Mas você já estava planejando há algum tempo? – perguntou Racilva a Glauco.
--- Bem que estava. Mas, apenas na noite passada eu resolvi entregar à chave a mulher do Hotel. Dalila. É. Dalila! Espécie de gerente do hotel. O dono mesmo é outro senhor.
--- Quem é ele? – perguntou Racilva um pouco amuada.
--- Anselmo. Anselmo Duarte. Ele nunca vai ao Hotel. Tem outras ocupações. Lojas. Enfim, muitas outras ocupações. – destacou Glauco de modo sério.
--- Eu nunca vi a loja dele! – reclamou Racilva meio constrangida.
--- Eu creio que você já esteve em uma loja de Anselmo. Você foi levar uns documentos. – respondeu Glauco querendo disfarça o leve ciúme que brotava na moça.
--- Documentos? Que documentos? – perguntou a moça desconfiada.
--- Uns documentos. Eles estavam na cesta. – respondeu Glauco.
--- Não me lembro de tais documentos. – respondeu a moça, com efeito.
--- Parece. Não sei. Ou foi você ou Ribeiro. Uma coisa assim. – disse Glauco entrando da Avenida Três onde morava Racilva.
--- Vou acreditar! – respondeu a moça já ao descer do carro.
--- Acredite. Pode acreditar. E pergunte a Ribeiro! – respondeu Glauco afirmando a conversa.
A moça abriu e fechou a porta do automóvel e se voltou para o lado em que seguia seu pai. Nesse tempo, o velho Jonas descia do carro e dizia:
--- Obrigado por sua ajuda. Eu agora vou tratar das minhas galinhas. – respondeu Jonas.
--- Velho besta! Só pensa nas galinhas! – reclamou a mulher Lindalva torcendo a cara e saindo do carro do seu quase genro.
--- É a vida dele, comadre. É a vida dele! – sorriu festivo o homem Glauco.
E então deu um beijo na sua noiva antes de sair em disparada rua a fora. Nas casas ao lado as janelas levemente se abriram. Em uma delas uma cabeça. E chamou baixinho:
--- Puta! Não passa de uma puta! – a o rosto de um homem fechou em seguida a janela.
--- Vem te deitar, homem. Tu te incomodas com a vida dos outros! Repara nas tuas filhas. – reclamou a voz de mulher de dentro do quarto.
Às onze horas da manhã do sábado Glauco e Racilva chegaram ao chalé localizado frente à praia do Meio. Àquela altura, a praia estava cheia de gente vinda dos bairros de Petrópolis, Cidade, Tirol e Alecrim. Os pescadores puxavam a rede para extrair o seu pescado. Curiosos estavam a postos verificando a quantidade de peixe. Um rapaz alertou:
--- Uma arraia! – apontou assustado o rapaz.
O pescador cuspiu de lado e puxou a arraia pela cauda e jogou para fora. Outro rapaz foi dizendo alarmado.
--- Tubarão! – relatou o rapaz de olhos esbugalhados.
--- É cação, seu merda! – respondeu outro para o amedrontado apreciador da pescaria. A rede estava quase toda de fora com os pescadores a retirar peixes grandes e miúdos. Os homens do mar pouco falavam entre si. A não ser quando mandavam um peixe para a mulher tratar.
--- Leva pra casa! – dizia o pescador com a sua voz baixa e grossa.
O menino corria com o pescado na mão a procura de sua mãe e a lhe entregar uma cioba. Outros esperavam a sua vez. Do alto do penhasco estavam Glauco e Racilva a admirar todo aquele esplendor de mar. O Forte, a pequena estrada, a casa redonda, casinhas de palha entre tantas coisas ao derredor. O vento sobrava forte no cume do morro chamado de Petrópolis onde a vida passava lenta e briosa. Os dois amantes ficaram a admirar o oceano perdido nas entranhas do além. Um navio passava ao largo apenas se vendo a silhueta de quase nada a navegar mar afora em direção ao sul do Brasil. Botes singravam as terríveis ondas. A cada passo o mar se agigantava apesar de não ter susto aos dois amantes. 
--- Lindo o mar! – refletiu em voz baixa Racilva.
--- Diz um poeta: “É doce morrer no mar. Nas ondas verdes do mar”! – sorriu Glauco ao abraçar a sua noiva.
--- Eu ainda viajo de navio! – sonhou Racilva com olhos ternos de amor.
--- Olhe! Alí você enxerga a praia da Redinha. Não queria conhecer a Redinha? Pois está ali! – sorriu satisfeito o homem.
A moça sorriu e olhou para o seu amado noivo.
--- Redinha! Que bela! – recitou nostálgica a moça.
--- Tem uma capela lá no fundo da Redinha. Toda branca. É uma capela! – discorreu Glauco.
--- Que doce se casar em uma capelinha como aquela! – sonhou Racilva a admirar a capela quase nada, bem pequena e modesta.
Barcos chegavam do mar pelo rio Potengi ansiando em aportar de vez do seu cais  do Canto do Mangue onde deixava todo o seu conteúdo da pescaria de dois ou mais dias. E isso, Racilva nem sequer pensava. Apenas seguia o ritmo dos anseios a cobrir os seus adágios.
--- Os senhores vão almoçar aqui? – perguntou Bete temendo a presença de Racilva.
--- Nós vamos sim. – sorriu modesto o homem Glauco.
--- Está na mesa. – respondeu a moça ao seu patrão e se afastou para o interior do chalé.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 45 -

- LEMBRANÇA -
- 45 -

Eram três horas da madrugada. Bete acordou e procurou consultar o seu relógio de pulso. O dia ainda não tinha amanhecido. O quarto estava às escuras, pois Glauco apagara todas as lâmpadas, inclusive as do abajur lilás. Com um pouco de sacrifício Bete arranjou um meio de acender a luz. E viu a hora.
--- Três horas! – reclamou a moça, pois tinha de ir embora para a cozinha.
No meio de tal agitação, Bete observou Glauco para conferir se o homem estava a dormir.
--- Pronto. Está dormindo que nem anjo. – recitou Bete a sorrir baixo enquanto se levantava da cama do Hotel Belas Artes onde a moça tomou o costume de dormir ao lado de Glauco todas as noites ou quase isso, pois havia o tempo em que Glauco passava fora do Hotel.
Na rua era tudo silencio, a não para os lados da Estação de Trem onde os viajantes procuravam arrumar as suas malas para poder viajar no trem das cinco horas. Mesmo assim, do trem não se ouvia nem sinal. De imediato, um barulho! Era um barco chegando e a buzinar! A buzina fazia um barulho rouco. Bete então não se assustou.
--- O barco. – pensou Bete.
E a moça sentiu vontade de cutucar Glauco para ver se o acordava. Sorriu! Cutucar o homem era até engraçado. E foi o que fez. O homem se ajeitou sem acordar. Deu com a mão em quem tocava nele e dormiu o sono dos travessos. E Bete então cutucou novamente, a sorrir. O homem não acordou e deu com a mão na pessoa travessa que o cutucava enfiando a cara do travesseiro da cama.
--- Acorda. Preciso sair. Mas tenho que falar com você. – falou baixinho Bete.
--- Deixa-me dormir. – falou Glauco com a voz abafada pelo travesseiro.
--- É serio. Deixa-me falar com você. – disse Bete ao ouvido de Glauco.
Após um curto espaço de tempo o homem se levantou apenas meio corpo, olhou as horas em seu relógio de algibeira posto na cabeira da cama em um espaço reservado ao porta-joias e indagou de modo sonolento a sua companheira Bete ainda com vontade de abraçar a cama.
--- Que foi? Um vulto? – indagou Glauco ao se lembrar do vulto visto pela moça.
Naquela madrugada em que a moça notou a presença de um vulto no quarto de dormir de Glauco, ele depois pensou ter sido o vulto do seu avô, pois coincidira com a hora da morte do velho Coronel Timbó. Com certeza, o seu avô viera dar a noticia de sua ida para o outro lado da vida, assim pensou Glauco ao recordar as informações de Bete e a noticia da morte do velho quando Glauco chegou a Fazenda Maxixe.
--- Não. Não é isso. É se você pode me levar para o chalé que você comprou! – fez vez a moça ao falar com voz serena ao ouvido do seu amor.
--- Ora! Você me acordou para perguntar isso? – disse aborrecido o homem.
E assim o homem voltou a se aninhar ao travesseiro como querendo dormir mais uma vez.
--- É serio, bem! Você me leva? Se você me levar, está bem. Se não, eu vou embora dessa pocilga. – reclamou Bete com certa raiva.
O homem apenas somente queria dormir. E então respondeu:
--- Levo! Levo! Levo! – relatou o homem a querer dormir.
--- Tá bem. Agora eu vou sair daqui. Já sabe? – perguntou a moça ao homem.
E o homem descobriu o travesseiro de seu rosto e perguntou meio abusado.
--- Sabe o que? – indagou Glauco coçando a cabeça diante da insistência de Bete.
--- Quando eu vou? -  quis saber Bete ainda espalhada na cama.
--- Não! Talvez na próxima semana. Logo depois da festa. Ou antes! – respondeu o homem a se agasalhar no travesseiro.
--- Está certo. Agora eu vou sair. A dama não tarda em passar aqui! – ressalvou a domestica ao dizer tudo o que tinha a dizer ao seu amado.
A buzina do barco se fazia ouvir um pouco distante. Com certeza o barco já passava do Yate Clube de Natal. Bete nem por isso ligou. A voz de um carregador de frutas em um balaio foi o que mais chamou a atenção da moça. Ele passara em frente ao Hotel a conversar com outro carregador. Com certa eles se dirigiam ao mercado da cidade. Com bem cuidado Bete abriu a porta do quarto, saiu de mansinho, sem fazer barulho e caminho para a cozinha do Hotel onde outras mulheres estavam a sangrar as cabeças de galinhas ou a mexer as panelas no fogão a carvão e a lenha para aguentar a faina diária dos hóspedes. A mulher Dalila saiu de um quarto com uma trocha de roupas sujas e depositou tudo no lavador do Hotel. Um homem tossiu e escarrou em um quarto da Hospedaria.
Às oito horas da manhã daquele dia Glauco já estava a caminhar pelas ruas antigas e solitárias do Bairro da Ribeira onde havia o comércio ostensivo. Uma casa na Avenida Tavares de Lyra por onde Glauco passava era a antiga sede de telefonia da capital. Ele olhou o prédio sem qualquer intuição e caminhou célere para a Agência Pernambucana, um prédio mais além, após a Rua Dr. Barata e vizinha a um salão de barbearia. No caminhar solene ele enveredou por um e por outros e viu aquele velho amigo com quem rompeu a amizade. O homem Onofre passou por Glauco e deu apenas um:
--- Bom dia! – disse Onofre a olhar Glauco.
Esse não respondeu e caminhou direto para a Agência onde provavelmente encontraria algo de novo para si e para Racilva Arantes, a sua noiva. Ao estar distante do seu velho e salutar amigo, Glauco ainda pensou no termo:
--- Puto! E ainda me cumprimenta! – pensou Glauco enraivecido por demais.
Não foi por muito tempo. Antes de entrar na Agência, o homem sentiu um pegar de braço. Ele olhou de repente e viu a figura de Onofre. Nesse instante, Glauco relutou por um momento e depois ouviu de Onofre um pedido de pêsames:
--- Queira aceitar meus pêsames. A morte do seu avô! – relatou Onofre tecendo elogio fúnebre por causa do falecimento do Coronel Timbó, o coronel Fabriciano Rodrigues, de oitenta anos, morto recentemente de causa natural. Glauco evitou um pouco. Mas no fim agradeceu aquela prestimosa atenção.
--- Obrigado! – respondeu Glauco sem sorrir e com uma face muito seria.
--- A propósito. Como foi a morte? – indagou Onofre querendo se aproximar do seu amigo.
Glauco já temia por uma aproximação daquele modo e relatou apenas ter sigo comum:
--- Ele dormiu e não acordou. Foi coisa simples! – relatou Glauco querendo se desvencilhar de Onofre.
--- É assim. Eu também perdi um sogro. Ele foi um caso mais complexo. Morreu há alguns meses. Câncer no estômago. Era um homem robusto. Quando veio a falecer, estava apenas um velho magro. A minha esposa acompanhou toda a enfermidade do pai. – lamentou Onofre.
--- É isso. Uns morrem outros nascem! – comentou Glauco temendo maior contato com e velho amigo  Onofre.
Há certo tempo, Glauco era amigo até demais de Onofre. Porém, ao tomar conhecimento de uma bela moça, ele formulou para Onofre em ir até a residência de Racilva para pedi-la em noivado. O homem, Onofre sorriu de Glauco e disse apenas não ir a casa de Racilva. O caso duro pouco tempo. Um dia Onofre foi à repartição de Glauco pedir desculpar por não acreditar na sua estória de namoro. Esse rompeu relações de vez com Onofre e nunca mais esteve em seu escritório. Passado o tempo, já noivo, quase casando, Glauco encontro Onofre na rua e esse apresentou pedido de condolência pela morte do coronel Timbó. Sem maior caso, Glauco aceitou os cumprimentos de modo tão decepcionado.
---Meu dileto amigo! Aceite meus cumprimentos e aceite as minhas desculpas pelos desavisos passados. Eu apresento as minhas desculpas pela nossa amizade antiga. – fez ver Onofre.
--- Está bem. Nada a reclamar. – respondeu Glauco sem ansiedade.
--- Amigos então? – perguntou Onofre apertando a mão de Glauco.
--- Pode ser. Agora, com licença, pois tenho coisa a fazer. – relatou Glauco querendo se retirar o mais rápido possível daquele local.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 44 -

- SANTA MISSA -
- 44 -
No sétimo dia de falecimento do Coronel Fabriciano houve a celebração da Santa Missa em sufrágio da alma do extinto. A Igreja do Município de Serra Grande estava plenamente lotada de gente. Coiteiros eram muitos. E além dessa gente havia por iguais camponeses, gente do mato, trabalhadores das Fazendas – eram cinco fazendas pertencentes ao Coronel Timbó – autoridades do Município, inclusive o Prefeito, secretários, vice Prefeito, suas esposas, pobres mulheres e homens simples dos arredores de Serra Grande. A Igreja era até pequena para receber esse mundo de gente. E outras pessoas, simples até, ficaram do lado de fora juntas com os capangas das cinco fazendas, todos bem armados. Nenhum homem ou mulher pertencente a João Duarte, já falecido, morto sem piedade pelo coiteiro Manoel Nazareno, o Neco do Saco, estava presente. Os jagunços estavam atentos para qualquer casualidade. Na sacada da Igreja viam-se meninos vendendo cocadas, picolés, doces, grudes, bolo entre outras oferendas. Na Igreja, viam-se igualmente os familiares do Coronel Timbó, como a viúva Maria do Rosário, seus filhos, netos e bisnetos. Estava também a serviçal da casa grande dona Odete Agar. Porem, não se avistava outro componente da falia Agar. A polícia do Estado fazia a vez de guarnecer a área contra possíveis ataques por terceiros, caso que não ocorreu.
Glauco Rodrigues e a sua noiva, Racilva Arantes, estavam presentes a solenidade religiosa celebrada bem como a sobrinha de Glauco, a jovem Walquiria e o seu pai, Valdomiro, também estavam presentes à cerimônia. Além dessas pessoas, estavam presentes igualmente filhos, filhas, netos e bisnetos moradores em outros Estados do velho Coronel Timbó.
--- É o mundo todo! – disse alguém a sorrir com uma Bíblia debaixo do braço.
Esse homem era um protestante. Ele passava ao lado da Igreja e soltou essa piada. Dito isso, o homem gargalhou. Com o homem seguiam quatro ou cinco protestantes empedernidos. Esses sorriram também. E um garoto se aproximou do grupo protestante e prontamente ofereceu:
--- Cocada? – falou o garoto a sorrir com a presepada armada pelos protestantes.
--- Não!!! – respondeu irado o homem da Bíblia torcendo a cara. E então ele seguiu marcha em frente.
A Santa Missa foi longa, por sinal. O pároco da freguesia fez um longo discurso enfatizando a vida, o trabalho, a honra e as aventuras do Coronel Fabriciano Rodrigues Timbó ao tempo em que recordava os seus parentes extintos, como pai e avô, homens duros de fibra. Esse pessoal percorreu vasta terra e lutou contra os tapuias por longo tempo até o fim do reinado do chefe tapuia o rei Janduí. Os coronéis do passado remoto eram portugueses vindos da costa do Estado, amigos dos tupis, guerreiros sangrentos contra os seus adversários tapuias. Ao falar o sacerdote fez uma ampla exposição sobre a temeridade desses coronéis, lutando a ferro e a fogo contra os seus audazes contendores aborígenes. A viúva Maria do Rosário Timbó, um tanto cansada apenas fazia de conta ouvir a preleção sacerdotal enquanto rezava o seu rosário com toda penitencia e saudoso amor. Alguém ouviu a mulher dizer:
--- Nada disso trás de volta o meu amado. – balbuciou Maria do Rosário.
Com a celebração final da Santa Missa, homens, mulheres, jovens e crianças saíram para as suas casas e a família do Coronel Timbó foi direta para a residência da casa grande na Fazenda Maxixe. Estavam todos cansados com a celebração e a fala do vigário. A viúva Maria do Rosário se recolheu ao seu quarto enquanto o seu filho Coronel Ahrtur Rodrigues Timbó conclamou a capangada em frente da fazendo para dizer-lhe o seguinte:
--- Pessoal! A partir de agora eu sou quem manda em vocês. De toda essa terra imensa eu dito as ordens. Os meus irmãos estão de acordo com o meu parecer. Nenhum jagunço pode me desobedecer. E a partir de hoje, vou edificar uma estátua em frente à fazenda, de tamanho natural representando o nosso pai, o Coronel Fabriciano e vai ficar fincada bem no meio do terraço. E digo mais: nas próximas eleições eu sou o candidato a Prefeito de Serra Grande. A minha sobrinha, Walquiria, será eleita a deputada estadual.. E depois, ela será eleita deputada federal e em seguida, senadora da Republica. Eu quero ver todo mundo votar em Walquiria, a nossa deputada. Quem não quiser votar, que se retire do bando. – relatou o homem Ahrtur com a cara de poucos amigos.
--- Viva! Viva! Viva! – gritaram os jagunços e o povo em geral.
--- Queremos Walquiria! Queremos Ahrtur! Viva! – aclamaram todos os presentes.
A fala do Coronel Ahrtur Rodrigues pegou de surpresa a senhorita Walquiria Rodrigues. Muito emocionada, quase a chorar, com lágrimas da face, ele falou:
--- Minha gente. Gente humilde mesmo! Eu não esperava ser lançada candidata a qualquer cargo, como fez o meu tio Ahrtur. Porém, ele parece ter adivinhado a minha vocação para uma carreira eletiva. Agora eu sei. Eu serei candidata a deputada estadual. – proclamou Walquiria com lágrimas nos olhos.
E o povo todo acorreu a jovem Walquiria tomando-a nos braços e a conduzindo por entre a massa e a gritar:
--- Queremos Walquiria! Queremos Walquiria! Queremos Walquiria! – gritava a massa.
Por outro lado, o povo também conduziu o fazendeiro, coronel Ahrtur e a gritar a um só brado.
--- Ahrtur para a Prefeitura! Ahrtur para a Prefeitura! – gritava retumbante o pessoal.
Da Missa para um comício foi um passo. A massa inteira percorria a cidade como um todo com Ahrtur e Walquiria Rodrigues em seus fortes braços lançando os dois a candidatos nas futuras eleições do Estado.
--- A timbozada vence!!! – gritavam céleres os jagunços de fama.
E todos os que estavam nas ruas gritavam a uma só voz.
--- Viva a timbozada! – gritavam todos agitando galhos de árvores como bandeiras.
Houve até quem trouxesse um pé de bananeira para fazer a marcha prosseguir. Havia gritos de gente a proclamar o nome dos novos redentores de Serra Grande. Ao final da festa que durou a tarde toda, o Coronel Ahrtur, ao descer dos braços do povo subiu a improvisado palanque para discursar.
--- Esse não era o momento de tanta festa. Pela manha, nós estávamos reunidos a rezar pela alma do coronel Timbó, morto de repente faz uma semana. Mas, eu disse a minha gente ter o compromisso de erguer uma estátua do meu avô, o Coronel Timbó, na frente do meu rancho. E eis no que terminou a minha situação. Agora eu digo: “Quem viver verá”. Eu serei o prefeito dessa cidade. E a minha sobrinha será eleita deputada estadual. – proclamou o Coronel.
Havia gente muita em torno de um palanque improvisado na praça pública da cidade de Serra Grande. Ninguém se lembrava do Coronel Fabriciano. A gente queria naquele instante era a festa para as futuras eleições. Batucadas foram formadas no final da tarde em praça pública com a gente a sacudir palhas de árvores extraídas dos pés de paus. Era um reboliço total e não se podia mais parar. Um grupo de protestante voltava de um sermão e olhava atônito para o aglomerado de gente. E dizia:
--- É o mundo todo! – dizia o protestante abraçado a sua Bíblia.
No dia seguinte, um sábado, Glauco Rodrigues fazia os cálculos da festa.
--- Por incrível que pareça. Nós estávamos em uma solenidade religiosa e Ahrtur resolveu dizer a feitura de uma estátua do nosso avô. E deu no que deu! Como é que pode? – fez ver Glauco ao pessoal da família reunida em torno do alpendre.
--- É a vida, meu rapaz! É a vida! – declarou por sua vez o irmão Valdomiro Timbó.
--- Mas não podia ser assim, Valdomiro! – reclamou Glauco ao seu irmão;
--- Quem pode mais que o povo? Agora não tem volta! Pra frente até o fim! – disse com ênfase o irmão Valdomiro.
A anciã Maria do Rosário ainda rezava contrita como se nada daquilo tivesse ocorrido. Ela era a marca da saudade deixada pelo Coronel Fabriciano Timbó. Ele deixara uma marca para todo o sempre na memória da anciã. Apenas pensava Maria do Rosário nos tempos áridos pelos quais eles passaram onde a chuva era coisa rara. A água não havia a não ser dos barreiros. Isso, quando o tempo favorecia. O cata-vento somente moía como era tempo de ventania e nada mais. Cobras no mato eram comuns de se avistar. Raposas tinham até demais. Galinhas só dormiam em seus poleiros. Quando era tempo de chuva, a vida se alegrava, tomando novo rumo. Mandacaru a florar. Era um novo sertão. Burros gordos em lugar dos magricelas. Touro brabo em vez das vacas magras. Ela rezava contrita pensando em tudo o que o Coronel Timbó teve de enfrentar.
--- Minha avó! A senhora vai almoçar agora! – indagou de repente uma de suas netas.
--- Vou não minha netinha. Eu estou rezando o Oficio. – soletrou a anciã.
--- Nem um tiquinho? – perguntou a neta.
A anciã continuou o seu Oficio.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

VENUS ESCARLATE - 43 -

- VAQUEIRO -
- 43 -
A arrumação do chalé estava quase pronta. Racilva orientava os arrumadores onde por isso e aquilo de modo a não faltar lugar para coisa alguma. A sua formatura estava quase pronta também. Por isso mesmo, a moça se redobrava em formatura e em seu chalé. Walquiria vez por outra estava a ajudar a Racilva nos preparativos da festa e da mudança da casa. Tudo de brilho se podia ver no casarão. Piscina com cascata, salão de jogos, sala de leitura, estacionamento, restaurante a luz de vela, vista panorâmica e tudo mais o que se pensasse. O chalé ostentava uma espécie de sobrado em torno de três andares e a sua forma triangular, própria dos chalés europeus e mais precisamente dos suíços.  As camas eram feitas de madeira, todas como de casal. Banheiros solitários com agua morna e fria. Na parte superior, o hospede gozava de lareira e frigobar além de outras benfeitorias.  Na parte dos casais eram também acomodações iguais aos outros. O chalé era simplesmente deslumbrante. E Racilva passava a toda hora a acertar detalhes para ela importantes. Criados tinham para fazer a festa de entrada dos nubentes quando Racilva fosse então casar.  Para a moça era tudo alegria.
--- O máximo! – gritava Racilva a abração o noivo nas tardes de sábados.
--- E a festa? – perguntou Glauco a sorrir
--- Qual? – quis saber Racilva nem se lembrando da sua formatura.
Durante a madrugada do dia seguinte, Bete, a doméstica do Hotel Belas Artes, estava a dormir ao lado de Glauco Rodrigues, o Timbó, no mesmo cômodo de sempre onde o homem se hospedava enquanto não havia casado. E foi nesse igual instante, por volta das três horas da madrugada ter a moça acordado sobressaltada. Ela se soergueu e ficou de modo surpreso com temor a todo instante do homem já idoso. O silencio sepulcral invadia todo o recinto e, por fim, todo o bairro da Ribeira. Não era ouvido um só ruído, nem mesmo de ratos pelo quarto de dormir. Na imensidão do bairro, nada estava a clamar. Os cabarés já estavam fechados e os seus clientes tinham ido para as suas moradias. E nem o trem apitava para largar em busca do interior de outros Estados. Nada. Barulho algum se notava. Apenas a moça acordara enfim. Ela estava em sobressalto. Um temor feroz lhe incutiu a alma. E a moça se lembrou de ter visto um ancião no quarto de dormir. Por um instante a moça se encheu de preocupação. E quis acordar Glauco do seu sono maternal. Porém nada fez Bete. Ela apenas observou com cuidado para observar as batidas do coração do seu bem amado.
--- Ele dorme! – pensou e disse a moça.
Um vento gélido sacudiu o quarto de dormir onde estavam Bete e Glauco. Aquele silvo fez a moça se encolher de todo.
--- Frio! – disse Bete à miúde.  
E era terrificante a situação daquele instante. O lençol da cama se desmanchara em desalinho como querendo buscar outros dormitórios. O coração a moça batia forte, ao solavanco quase a gritar. Temor cruel Bete sentia.
--- Um vulto! – relatou a moça. Isso ela falava de forma baixa.
E Bete procurou ligar a lâmpada do quarto às escuras onde tudo era um breu. E assim fez. Nada de vulto no quarto então com a luz de um abajur. E Bete quis gritar de terror. Porém não teve coragem. Ela se levantou devagar olhando bem ao seu redor para enxergar se nada havia de mais. Caminhou Bete sempre vagarosa até a entrada da sala do sanitário. Muito atenta ela observou para dentro e nada pode observar de mais. 
--- Havia um vulto aqui! – comentou sozinha a moça de forma muito baixa.
Nesse momento, Glauco se mexeu na cama buscando alguma proteção da própria Bete. E nada fez de maior êxito. Ela estava sozinha na porta do gabinete onde o homem fazia a barba de olhos arregalados para o homem, toda tremendo de susto. Bete temia alguém a lhe espremer a garganta ou coisa assim. E levou a mão a garganta. Sua roupa era um traje comum e então a moça se enrolou com uma toalha de banho.
--- Vou gritar! Não! Besteira! Mas era um vulto! Um velho! – comentou muito baixo Bete.
A porta do gabinete da privada se faixou rangendo as dobradiças. A moça tremeu de medo. E correu para junto de Glauco procurando amparo. O homem dormia tranquilo. Bete nada fez para acordá-lo. Remorso. Com certeza remorso. Seu pai! Não! Era muito velho! Avô! Ela não se lembrava de mais ninguém. Apenas se lembrava de ter visto um homem velho. Devagar a moça se ajeitou na cama e procurou dormir com a mão na boca aterrorizada demais. Com o passar do tempo, Bete ouviu o chiado de chinelo no corredor. Logo percebeu ser alguém da cozinha a sua procura. E logo se preparou enquanto o chiado parava e um toque na porta do quarto era ouvido. Era dona Dalila, a mulher do Hotel. 
--- Acorda moça. Está na hora! – disse a mulher com uma voz pesada.
E Bete não contou conversa. Vestiu o seu traje comum e se largou para dentro da cozinha. O trabalho tinha começado.
Eram sete horas da manhã. Um estafeta chegou à porta do Hotel Belas Artes. Tocou a sinaleta e entregou um telegrama quando a moça Bete foi receber. Era para o doutor Glauco Rodrigues o homem de Bete. Ela recebeu o telegrama, agradeceu e deixou na porta do quarto de Glauco. Tocou à porta e de vez, saiu. Sem muita pressa, pois estava a fazer a barba, o homem abriu a porta e viu no chão o telegrama. Glauco apanhou a missiva e leu. E de vez espantado falou alto!
--- Não é possível!! Agora?! Tenho que correr para o sertão! – comentou com muita pressa Glauco Rodrigues enquanto a sua barba estava ainda por fazer em seu total.
De repente, Glauco Rodrigues rumou para o estacionamento de carros da Ford e sem ter sentido ele clamava por Deus.
--- Deus do céu. O meu avô morreu! Merda! Meu avô! – Glauco dizia e chorava a um só tempo.
Em pouco tempo Glauco chegou a casa de Racilva e a chamou depressa a dizer da sorte do seu avô, Coronel Fabriciano Timbó, 80 anos, morto na madrugada daquele dia.
--- Ave Maria! De que foi? – comentou assustadíssima e com muito temor a jovem Racilva.
--- Não sei. O telegrama não diz. Apenas diz: “Vovô morto. Venha logo! Ahrtur”. Isso é tudo. – comentou tremendo o homem a chorar demais.
--- Será que foram os outros? – quis saber a noiva de Glauco.
--- Não sei. Pode ter sido. Pode ter sido. Vamos chegar a Serra Grande para a gente saber! – tremendo e chorando falou Glauco.
O carro correu célere passando por cima de pau e pedra, em caminhos incertos até chegar a menos de duas horas a Fazenda Maxixe, ponto da ocorrência do infortunado sacrifício. Por entre o caminho, na Fazenda do Cardo se ouvia um tiroteio tremendo. Capangas com suas armas a disparar para cima e a gritar de alegria a morte – com certeza – do coronel Timbó. Em meio daquilo tudo, os foguetões a espocar acelerados. Tudo era festa na Fazenda do Cardo com os familiares do fazendeiro João Duarte a comemorar delirantes. Nem mesmo a Força Policial tinha a vez de se intrometer, pois o fogo intenso era ouvido em todas as direções da Fazenda, dos mais próximos aos mais distantes. Alguém disse ter ouvido dos capangas a frase:
--- Estamos vingados! – diziam os capangas da Fazenda do Cardo.
--- Viva! Viva! Viva! – gritavam todos os beligerantes.
--- Quem é que pode mais? – bradavam outros.
--- É hoje! É hoje! É hoje! -  clamava alguém dos jagunços.
E o carro rumava sem sossego vencendo lagos e montes até chegar a Fazenda Maxixe onde o clima era de pura tristeza e consternação onde dona Maria do Rosário, a viúva, apenas rezava aos pés do homem morto, o Coronel Fabriciano Timbó em uma suave prece de eterna guarida. O casarão estava tomado de gente vinda de todos os cantos. Eram serviçais, moradores, gente humilde, pessoas de alto escalão do município de Serra Grande, mesmo a família da morta Adélia Agar, a sua irmã Odete, inclusive, o padre da Igreja entre todos os visitantes. O Coronel Fabriciano Rodrigues Timbó tinha morrido naquela madrugada de um ataque cardíaco, sem fazer o menor ruído. Ele faleceu como uma criança.
--- Ele morreu igual a uma criança! – relatou dona Nair, esposa de Ahrtur Rodrigues, pai de Glauco.
--- Deus foi justo com ele! – respondeu alguém.
--- A que horas vai ser o sepultamento? – perguntou outra pessoa.
--- Não sei. Talvez à tarde. Espera-se mais gente ainda! – comentou uma mulher.
O velório durou o dia todo. A urna mortuária era de um negro veludo total. Os castiçais eram de pura prata. Havia um passar do esquife feito de rosas vermelhas e roxeadas encobrindo um tapete de igual tonalidade. O féretro saiu do interior da casa grande ao soar de música fúnebre  ao tocar de uma Banda para o Cemitério da Fazenda Maxixe. Havia grinaldas e arranjos florais significando saudade eterna de seus entes queridos. O tempo mudou de repente às 5 horas da tarde. Um estrondo sonoro de um trovão se fez soar.