terça-feira, 23 de agosto de 2011

VENUS ESCARLATE - 30 -

- VAQUEIROS -
- 30 -

A moça sorriu com a conversa entre os dois homens: o vaqueiro e o seu patrão. E ficou Racilva a meditar com os termos usados no interior do Estado: amojada; barbatão. Quanto mais os homens falavam mais vontade tinha Racilva de sorrir. Principalmente por causa desses dois termos: amojada e barbatão.
--- Que loucura essa! – sorriu muito baixinho a moça por não ter conhecimento tão bem desses termos.
Enfim foi tanto sorrisos chega ser espanto para o noivo Glauco e de ter perguntado o que houve na conversa entre ele e o vaqueiro. E a noiva respondeu:
--- Nada não. Confesso ter de aprender ainda muito com o seu linguajar. – sorriu Racilva.
E depois de tudo isso o carro continuou a trafegar pelo sertão da Fazenda Maxixe onde estavam reunidos todos os compadres naquela manhã domingueira. Quando o luxuoso carro estacionou na fazenda Racilva, de imediato viu se aproximando a sua amiga e sobrinha do seu noivo Glauco, a sorridente Walquiria. Com ela estava uma pessoa desconhecida para Racilva. Porém logo ficaram enturmadas as duas fidalgas companheiras. Depois de abraços e beijos e da benção do tio Glauco foi a vez de Walquiria apresentar a Racilva a sua nova companheira de anos passados:
--- Essa é Zilene. E para Zilene essa é Racilva, noiva do meu tio. Esse é o meu tio Glauco. – disse Walquiria e caminhou direto para o alpendre da casa grande.
Zilene se deu por satisfeita com a apresentação de Racilva, passando a conversar animada com a nova conhecida. As três já estavam no alpendre da casa grande para onde seguiram e onde havia entusiasmada zoada dos irmãos Timbó, avó, - o Timbó velho -, compadres e de outras gentes de perto e da distancia animando a roda de quem alí conversava acaloradamente. Em dado instante Racilva ouviu algo do acontecido alguma semana passada. E abriu os ouvidos para escutar melhor:
Os vaqueiros caminhavam ao passar por frente do casarão e o coronel Arthur Rodrigues, irmão de Glauco indagou do grupo de vaqueiros ou jagunços bem mais conhecido por esse termo:
--- E então, cabras? Os cavalos comeram? – indagou o coronel Arthur com voz alta para apenas ser ouvido pelos vaqueiros ou jagunços.
--- Comeram e beberam! Estão de barriga cheia! – relatou um jagunço todo suado.
--- Bom! Assim é que eu gosto! – sorriu a vontade o coronel Arthur.
Na verdade, isso queria dizer ter os jagunços feitos justiça com os três homens matadores. Os três, encabeçados por Manoel Bento, o Manoel Mijão, foram mortos e enterrados longe do cercado da fazenda Maxixe. Racilva Arantes prestou atenção quando o Coronel Arthur ainda fez as contas ao seu irmão, Glauco:
--- Ainda falta um! – relatou meio baixo o Coronel.
Glauco sorriu porem não disse nada em troca. Apenas pegou uma garrafa de cachaça e fez homenagem ao irmão e aos jagunços.
--- Saúde para todos. – alardeou Glauco oferecendo garrafas de cachaça para os jagunços.
Após essas saudações, Racilva Arantes entrou no solar e procurou a sua amiga Walquiria para comentar o sucedido. E ainda perguntou o que os jagunços tinham dito ao coronel Arthur:
--- Que eles disseram com os cavalos estarem de barriga cheia? – indagou Racilva um pouco temerosa e assustada.
--- Você não sabe? E eu também não! – gargalhou a moça pegando pelo braço as duas colegas e então saiu para o interior do quarto das damas.
O domingo estava animado no interior da Fazenda Maxixe com o coronel Fabriciano Timbó abocanhando uma porção de carne de gado e os homens contando as proezas dos últimos dias. Os vaqueiros do Maxixe arrebanhado o gado de um curral para o outro com a certeza de fazer a entrega das vinte mil cabeças de gado até o final do mês. As senhoras tinham a incumbência de fazer chegar a refeição ainda quente nos pratos e nas tigelas postas à mesa. As moças sorridentes admiravam a conversa dos mais velhos e Walquiria Timbó cutucava com o cotovelo as costas de Zilene para alertar a moça para a conversa dos adultos mais velhos. Nesse momento, entrou na sala um jagunço e falou ao pé do ouvido do coronel Arthur. Esse ouviu e calou. O jagunço saiu da sala. E o coronel também o acompanhou um pouco sério.
--- Tem confusão! – alertou Walquiria a sua amiga Zilene.
--- Que confusão? – indagou Zilene sem muito entender.
--- O coronel saiu às pressas! – disse Walquiria olhando para o seu tio Glauco.
Esse nada fez. Estava almoçando e assim continuou. O velho Fabriciano também continuava com o seu comer de carne de gado. Todos, enfim, ficaram como se nada tivesse havido. Bem fora do alpendre do casarão estava um cavalo com um corpo em cima. Um jagunço pouco assombrado apenas disse:
--- É Chicão, o nosso capitão do mato. – relatou o jagunço ao coronel Arthur que não disse nada nessa ocasião.
Com um pouco de tempo o coronel Arthur falou e voltou para dentro do casarão.
--- Tire o homem e enterrem. – ele falou meio baixo aos demais jagunços.
Os jagunços obedeceram a ordem e o coronel, trancado de cara e trincado de dentes, entrou na sala e caminhou até a sala de jantar onde todos estavam almoçando alegremente. Ao entrar no recinto, Arthur foi até onde estava o velho coronel Fabriciano e lhe segredou no ouvido o caso de Chicão. O coronel Fabriciano ouviu e apenas disse:
--- Enterrem! – falou Fabriciano com voz baixa e continuou a comer a carne de gado.
O velho coronel Fabriciano estava alegre da vida e assim permaneceu dando a impressão aos demais nada haver mudado na hora da refeição do meio dia. Ele apenas chupou de uma canela de vaca o seu conteúdo, um tutano gordo e amarelo. Quando o velho coronel acabou deu um belo arroto para ninguém por defeito no seu prazer de um alto fazendeiro de oitenta anos. Logo a seguir foi para o seu escritório puxando o filho também coronel Arthur pela gola da camisa. Todos sorriram com a presepada do velho. E não disseram coisa alguma do flato do coronel Fabriciano solto pelas calças de gabardine do ancião. A reunião no escritório foi à portas fechadas não sendo permitido a entrada a nenhum outro, nem mesmo a outro filho do velho coronel.
Por volta das três horas da tarde Zilene Caldas, a amiga de Walquiria, estava a perambular sozinha por caminhos dantes nunca vistos com a folhagem a cobrir todo o campo onde havia arvores imensas de um lado e do outro da vereda por ela descoberta. Alí não havia aragem e as folhas mortas caídas ao leu dormiam sossegadas com as vespas a tirar o caule das folhagens do restante a sobrar. Zilene caminhava sozinha admirando aquela mata virgem onde apenas um caminho permitia se passar de um pouco mais tranquilo. Pássaros silvestres aninhavam-se por entre as folhagens dos acajus-catinga ou de outras árvores de igual espécie. Tudo eram paz e sossego no arvoredo. E apenas a moça a deleitar aquela imensa e sobranceira ilusão da vida viva. Depois de andar ao leu tantos quilômetros afins, a moça ouviu um ruído na mata densa. Zilene procurou ouvir melhor aqueles ruídos e gemidos como de uns duendes E se postou ao lado de uma arvores imensa. Talvez fosse um jacarandá ou bracatinga. E Zilene nem se importou em descobrir de qual árvore era a que deu o seu abrigo. Ela apenas ouvia o gemido perdido na vereda do sertão. E com isso Zilene se pôs a observar com temor. E então pode ver logo atrás de umas árvores dois corpos seminus abraçados um ao outros a sôfregas ânsias incontidas de dois amantes em dois amores. A moça se encolheu de vez e toda procurando se esconder ao máximo dos amantes alí expostos a toda sorte de agonia e destemor. Esse foi o mais longo dos tempos do qual a moça pode assistir entre matas de aroeira e outras matas. Apenas passados alguns instantes os amantes terminaram o seu afã e, se cobrindo todo, eles rumaram em direção a casa grande passado perto do lugar onde a moça os pode observar. Com o passar das horas, Zilene ficou sabendo que a doce mulher era uma servidora da casa grande de nome Odete:
--- Aquela é Odete Agar. – disse-lhe Walquiria quando Zilene perguntou de quem se tratava.
--- Ah bom. Odete. Ela é parenta de alguém da casa? – perguntou Zilene.
--- Não. Bem. Ela era a irmã de Adélia. A que morreu. Adélia era casada com meu tio Glauco. – explicou Walquiria.
--- Ah bom. Então é mesmo que ser da família. – respondeu Zilene.
--- É. Mais ou menos. Ela é virgem. E não pretende se casar com outro homem. Chamam-na de “Pecado”. Imagine? – sorriu Walquiria ao dizer o apelido de Odete.
Zilene também sorriu a valer, pois bem queria ter os “pecados” que Odete devia ter. Então apareceu na casa grande a noiva de Glauco. A moça reclamava de dores, pois estava no seu tempo de regras.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

VENUS ESCARLATE - 29 -

- SANDY -
- 29 -
Logo após o café da manhã, Glauco Rodrigues seguiu solitário e pensativo para buscar seu carro, um Cadillac onde estava guardado na garagem do Posto Ford, alguns metros do Hotel onde ele se hospedava. O dia estava calmo, próprio de um domingo, somente se ouvindo da Igreja próxima o Coro a rezar orações litúrgicas: era celebrada a missa das oito horas. Na Avenida Rio Branco não havia por acaso nada de atropelos a se notar naquela parte da manhã silenciosamente domingueira. A Rua Sachet cruzava com a Avenida Rio Branco. Algumas ébrias pessoas ainda vinham dos cabarés existentes no bairro. Na Rua Sachet, todas as oficinas ainda estavam fechadas e provavelmente não abririam a nenhuma hora daquele dia. Glauco seguia calmo até o posto de serviço da Ford onde estava um bombeiro a colocar gasolina em um automóvel de um notívago e desatento consumidor. Ao chegar ao Posto, Glauco Rodrigues teceu os seus cumprimentos ao bombeiro ou frentista dizendo ter ido buscar o seu carro. O frentista, meio agachado, ponto gasolina no carro, nada respondeu, olhando a bomba e o homem que acabara de chegar um pouco com pressa. Ao terminar de abastecer o automóvel, recebeu a conta e pôs-se logo à vontade se dirigindo ao carro do Glauco observando o interior do veiculo enquanto o seu dono tocava no arranco e deixava o carro a esquentar para poder trafegar em seguida.
--- O senhor vai por gasolina? – perguntou o frentista escorado no capô do carro.
O homem olhou o painel de controle do automóvel e disse então:
--- Vou completar o tanque. – falou Glauco ao frentista.
--- Quando o senhor for eu olho o nível do óleo, - respondeu o frentista.
--- Está bem. O seu nome? – indagou Glauco ao frentista.
--- João. Eu me chamo João. – respondeu João do posto ao mesmo tempo em que se afastava do carro e seguia para dentro do posto a buscar algo.
Após dez minutos Glauco Rodrigues já estava com o seu maravilhoso carro na bomba de gasolina abastecendo o veículo. O frentista, logo após abastecer o automóvel indagou do homem se queria ver o nível do óleo do motor. Glauco, meio a contragosto concedeu a permissão olhando para o seu relógio de bolso. A campara do motor se abriu e João do Posto olhou a vareta do óleo por mais de uma vez e bem atento chegou ao dono do carro mostrando o nível e dizendo.
--- Está baixo o óleo. Quer completar? – perguntou João ao dono do carro mostrando a vareta com o dedo apontando o nível em que estava o óleo.
Já um tanto aborrecido Glauco findou por dizer ser melhor colocar o óleo, pois se estava baixo, o carro teria que prosseguir viagem até o sítio onde Glauco teria que ir.  O frentista recomendou ao dono do carro ser melhor arriar todo o óleo e por novo lubrificante no automóvel, pois a mistura do novo com o velho combustível não adiantaria em nada. Isso deu mais coceira em Glauco ao dizer baixo:
--- Isso é uma merda! – fez vez Glauco de forma baixa.
Enfim, Glauco fez a manobra com o seu carro e foi até ao dique, pondo o veículo sobre o hidráulico e descendo do carro a seguir deixando o veículo em ponto morto onde o garagista pode mover o carro um pouco para trás. E demorou um tempo com o garagista tirando o óleo velho, aparando em uma bandeja velha e suja e buscando três latas de um litro cada qual para por no automóvel ao descer do hidráulico. João do Posto cuspia no chão imundo da garagem e ao falar relatou ao dono do carro:
--- Leva um tempo, mas é bom. O óleo do carro estava muito fino e o veículo podia bater a qualquer momento.
--- Bater o que?- perguntou Glauco ao mecânico como estranhando o assunto.
--- O carro bater. Deixar de rodar. Com o óleo baixo o carro bate. – falou o frentista.
--- Mas bate como? – perguntou surpreso com o termo empregado por João.
--- Se o senhor rodar muito pelo interior, vai ver carro batido. Ele bate. Não trafega mais. É isso. O motor amarra! – cuspiu João para um lado.  
--- Ah bom. Estou entendendo. Eu comprei esse carro faz uns dez anos. E nunca troquei óleo e nunca me disseram para fazer isso. – lamentou Glauco.
--- Agora, o senhor entra no carro e dá partida. Deixa o bicho em ponto morto. Só dê partida. Eu vou olhar como está saindo o óleo. – comentou João e foi para trás do veículo.
O homem obedeceu à recomendação do mecânico e entrou no carro. Deu partida e esperou resposta. O frentista demorou um pouco e mando o homem dar nova injetada no carburador. Glauco, obediente, fez o que João mandara. Apenas perguntou:
--- Mais? – indagou Glauco suando por tudo que era poro.
--- Não. Tá bom. – e o mecânico voltou até o motorista. Nesse momento veio com más noticias para o alarme de Glauco.
Limpando as mãos com uma bucha imunda o frentista deu seu parecer.
--- O carro tá bom. Mas eu recomendo o senhor trocar as camisas, molas de seguimentos, bronzinas. É que o carro está vazando óleo para o motor. Mas pode esperar mais uns dias. De qualquer jeito o senhor vai ter que fazer o serviço, quer dia quer noite. – cuspiu de lado o mecânico passando a estopa no rosto.
Glauco ficou nervoso e indagou do mecânico onde faria esse negocio.
--- Na oficina da Ford. A não ser que o senhor tenha um mecânico. Mas na oficina é melhor -  disse João assoando o nariz com os dedos da mão.
--- Puta merda! É melhor eu vender esse e comprar outro carro! – fez ver por demais inquieto e assombrado o homem.
--- Isso é. Troca um velho e compra um carro novo. Um Dodge! – completou João a assuar o nariz.
Após essa troca de conversa Glauco pagou a despesa, deu mais uma gratificação ao frentista e pegou a estrada em direção à residência de sua noiva, Racilva Arantes onde podia descansar a cabeça das lamentações do mecânico ou frentista, ou seja, lá o que fosse. Ao chegar já às nove horas da manhã, ele buzinou e após isso desceu do carro para saber como estava passando a sua noiva após o desconforto do dia anterior. Dona Lindalva surgiu a porta e o mandou entrar dizendo ter Racilva uma tarde e noite tranquilas e nada mais a incomodava. O homem sorriu feliz e convidou a moça para ir até a fazenda. Racilva concordou e não demorou um minuto para se ajeitar, penteando os cabelos encaracolados. Seu Jonas, pai de Racilva passou com umas galinhas para fazer entrega e relatou a Glauco:
--- É luta! Dia e noite sem parar! – proferiu o homem e caminhou puxando por uma perna.
Glauco sorriu e logo em seguida relatou:
--- Deixe essa vida! Va dormir ou ouvir música! – disse a sorrir o homem Glauco.
E o homem nada respondeu saindo de porta a fora caminhando com as suas preciosas aves para entregar aos demais consumidores.
No caminho para a fazenda Glauco Rodrigues fez ver a Racilva o feito naquela manhã e disse ter o mecânico condenado o motor do seu carro. Ele estava a pensar em tal fato e, por certo, teria de ir a frente vendendo o Cadillac e poderia comprar um Dodge. Esse era um carro novo e Glauco não teria obrigação em refazer motor algum.
--- Ô Aero Wilys! – respondeu Racilva.
--- É. Aero Wilys. Você falou de um carro muito bom. – lembrou Glauco a sua noiva.
--- Santos e Companhia tem para vender. Eu vi o automóvel na exposição. – falou Racilva.
--- Podemos verificar esse veiculo. Esse aqui tem que fazer o motor. Sei lá. - relatou bastante entristecido o homem.
--- E está já bastante usado! – sorriu Racilva a olhar os bancos do automóvel.
--- E mijado! – sorriu Glauco lembrando a vez que Racilva teve que urinar no banco do carro.
A moça não comentou o assunto e olhou desviado para o seu noivo talvez querendo esganá-lo a todo custo. Com o passar das horas o carro já estava entrando no terreno da fazendo onde Glauco pode ver um vaqueiro Damião Lustosa a tanger o gado. Glauco não se conteve e chamou o homem por meio de um assobio:
--- Onde está o barbatão? – indagou Glauco ao vaqueiro.
--- Amarrado. Na fazenda! – respondeu o vaqueiro tocando a manada de gado.
--- Só tinha um? – perguntou aos gritos o homem dono do gado.
--- E três vacas. Uma amojada e outra de bezerro novo. – cuspiu fumo para um lado Damião.

domingo, 21 de agosto de 2011

VENUS ESCARLATE - 28 -

- SOSSEGO -
- 28 -
No mesmo sábado à noite, Glauco Rodrigues tinha retornado para o quarto de Hotel a ficar pensativo no que aconteceu pela manhã quando da visita à elegante casa recém-adquirida de um escritório de vendas de imóveis. Ele pensava na noiva e como teria visto a velhinha em forma de uma sigla “C’ como chegou mesmo a declarar Racilva”. Uma anciã como moribunda, quase 90 anos ou se não mais a arrastar os pés calçados de chinelos de couro. Uma anciã uma vez rica, de verdadeira posse, ter morrido e apenas aparecer a uma médium como pessoa pobre de Jó. Esse susto atormentava Glauco a todo instante. Ele passou o dia na companhia de sua amada noiva. Eles almoçaram em casa de dona Lindalva, mãe de Racilva e eles ficaram o tempo todo a conversar asneira sobre visão e antevisão com a moça a explicar a Glauco o motivo de ter feito tratamento em tempos remotos com o médium “Tupinambá”. O médio não clinicava. Apenas dava passes nas pessoas.
--- Tupinambá é um médium de fé. Hoje, está velho. Tem mais de sessenta anos. O povo ainda vai para as consultas com ele. – disse em sua conversa a jovem Racilva quando falava sobre o caso da anciã com o seu amado noivo.
--- E ele dá remédios? – indagou Glauco naquelas horas.
--- Não. Só dá passes e com isso a pessoa se cura. – falava Racilva tentando explicar a Glauco.
--- Passes? Que são passes? – indagava Glauco estranhado o que lhe dia a noiva.
--- Passes são passes! Ele coloca as mãos em nossas cabeças e fluidificam o nosso corpo. – relatava com sinceridade.
--- É. Pode ser! E a pessoa fica curada? – perguntava Glauco estranhado os passes.
--- Eu vi várias pessoas chegarem ao centro como mortas. E ele curava! – dizia Racilva ao falar sobre a mediunidade.
O homem conversou a tarde inteira sobre o método de tratamento do médium “Tupinambá” e então ele se lembrou de um homem chamado “Tenente”. Glauco não sabia o nome da pessoa. Apenas conhecia por “Tenente”. O homem refletiu bastante sobre as causas de Racilva Arantes ter visto a anciã àquela hora do dia. E comentou no seu quarto de hotel:
--- Será possível? – fez em monólogo o homem.
E pensou mais no fato de Racilva ter visto o quadro de Adélia Agar e ser tomada de pranto.
--- Tome conta dele! – refletiu Glauco de um temor de Racilva ao sonhar com a sua ex-esposa Adélia Agar em uma noite/manhã no quarto onde estava a dormir na companhia de tantas outras moças em um silencio reinante em todo o aposento. Ele se lembrou do caso por ter lhe feito saber a sua querida sobrinha Walquiria certa manhã, daquele dia onde Racilva Arantes se levantou assustada e amplamente molhada de suor.
No momento em que Glauco refletia no caso, alguém bateu de leve, em surdina, a porta do quarto de Hotel como a lhe chamar a atenção. Ele teve um medo horrível por causa de sua noiva ter visto a anciã Mariquinha horas antes do dia. Glauco deu um tempo para se levantar da cama onde ele estava acordado olhando para o teto com as mãos encruzadas sob a cabeça. E disse apenas:
--- Quem é? – perguntou com temor o homem.
--- Abra. – disse uma voz. De imediato ele reconheceu a voz de Bete.
Sem maior tempo Glauco se levantou da cama e foi até a porta tendo aberto e visto por fora a jovem Bete. Sem saber o que dizer ele apenas perguntou:
---Que estás fazendo aqui? – indagou Glauco a jovem Bete.
--- Vim te ver, apenas. – sorriu a jovem e procurou entrar no quarto de hotel.
--- Estou cansado, hoje. Não tenho meios de fazer nada! – relatou Glauco a jovem.
--- Está bem. Eu respeito o senhor, doutor Glauco. Não é assim que se diz? – sorriu a jovem ao perguntar a Glauco as forma de se expressar.
--- É. Pode ser. Sei lá. O que queres? – indagou mais uma vez Glauco a jovem Bete.
--- Como disse: eu vim ver você. Apenas isso! – sorriu a moça e procurou se acomodar na cama, pisando no tapete vermelho enxugando os seus pés de qualquer resíduo. O homem olhou bem o tapete vermelho e fez cara de quem não gostava daquele visitante a pisar na sua alcatifa rubra. E então ele relatou:
--- Limpe bem os pés! – expos Glauco a sua dama.
---Estão limpos. Olhe! – e Bete levantou o pé para o homem. Esse estava de pé só a olhar meio de banda com a cara enfarruscada.
--- Eu hoje estou morto. – relatou o homem ao se espreguiçar com as mãos para cima para sair de sua tensão.
--- Imagino! Vocês fizeram? – indagou sorrindo a dama já deitada e com a cabeça apoiada no travesseiro feito de algodão.
--- Fizeram o que? Ela quem? Não fizemos nada! Ora! – disse Glauco prenunciado ter a moça sabido do seu romance com Racilva. E um tanto abusado e com sono ele se sentou na cama pelo outro lado.
--- Só perguntei. Não precisa ter raiva. Afinal ela é livre assim como eu. – falou Bete com um leve sorriso.
--- Pois sim. Chega prá lá que eu vou dormir! – articulou Glauco abrindo a boca com bastante sono.
--- Quer que eu vá embora? – perguntou Bete sorrindo.
--- Pra mim tanto faz! – discorreu o homem como quem estava a dormir.
--- Bruto! Estupido! Cavalo! Jegue! Pois não saiu só de ruim. – articulou Bete com raiva.
Nesse mesmo tempo o homem soltou gases malcheirosos e a moça se levantou às pressas e declarou com a maior ignomínia da vida.
--- Tá vendo o que ele faz?! Puto! Burro! Quadrado! – relatou a moça cheia de fúria.
O homem então sorriu e disse:
--- Cheiroooosos! – e Glauco sem temor caiu na risada com a moça de um salto se fez colada à parede com os braços encruzados, a cara amarada e os lábios presos entre os dentes.
A manhã surgiu tépida com as horas bem avançadas. Glauco olhou o seu relógio e faltava pouco para as oito horas. Ele procurou Bete a seu lado e essa já estava na cozinha do Hotel, era bem provável. O homem correu para o armário e examinou na bolsa o seu dinheiro. Nada faltava naquele momento. Ele voltou para cama e logo pensou em Racilva.
--- São oito horas meu Deus! – disse isso e se levantou correndo para o banheiro onde cumpriu as suas necessidades habituais da manhã. Então, depois de se barbear e tomar banho Glauco voltou ao seu quarto onde cuidou de se preparar para sair. Naquela hora ele pensou:
--- Hoje é domingo! Que besteira! Eu pensava ser segunda. – comentou consigo mesmo o homem.
Na mesa de refeição os outros senhores estavam a falar coisas triviais. Glauco chegou e cumprimentou os circunstantes e se sentou em uma cadeira a espera da refeição matinal. Ele teve o cuidado de verificar se Bete estava e conseguiu ver a moça lavando a louça da manhã. Enquanto isso, na sala de refeição alguém dizia:
--- Ela foi morta por um assaltante. Seu nome parece ser Maria dos Prazeres. O bandido tentou carregar o dinheiro da mulher e essa escondeu toda a grana. Então ela foi atingida por um tiro na cabeça. – relatou o homem assustado com o fato.
--- Que foi o bandido? – indagou outro homem.
--- Não sei o nome, Mas parece ser Badu ou coisa assim. Parece!. – relatou o homem sabedor do fato.
--- Incrível! Mas foi aonde que isso se deu? – perguntou amedrontado o homem inquisidor.
--- Lá pras bandas do forno. Forno do lixo. É. – disse mais o homem que sabia tudo.
Glauco ouviu a estória e nada comentou. Quando dona Dalila apareceu ele pediu um café e um pouco de mungunzá. Dona Dalila foi num pé e voltou no outro.
--- Pronto doutor. O que vai querer mais? – sorriu a mulher a olhar para a cozinha querendo saber se Bete esteve com ele. Ele fez com a cabeça que “sim” e nada mais pediu para o café.
Em instantes, Bete apareceu na mesa grande do hotel e falou baixo a Glauco.
--- Esteva bom ontem? – e sorriu como uma safada.
Glauco nada respondeu.

sábado, 20 de agosto de 2011

VENUS ESCARLATE - 27 -

- SORRIR -
- 27 -

E Glauco foi até a mercearia apontada pela doméstica enquanto a sua noiva chegava à esquina, pasmada a indagar do noivo onde estava a anciã. Glauco respondeu não saber e estava indo naquele momento a uma bodega o outro lado, já na outra esquina de outra rua logo atrás da sua para saber se o bodegueiro conhecia a anciã.  Foi isso o que ele disse apenas e a sua noiva correu e pegou o noivo pelo braço, ainda a tremer de medo a dizer:
--- Eu vou também – relatou a noiva com muito medo pelo o ocorrido com ela.
--- Está bem. Vamos lá. Vamos ver se o bodegueiro conhece a pobre velha senhora. – disse Glauco com temor.
E dois saíram, juntinhos, até a bodega do seu Tenório, como se chamava o homem dono do estabelecimento comercial. Na bodega tinham várias pessoas e o homem fazendo entrega dos pedidos feitos a alguém. Moscas em profusão devido ao açúcar em saco aberto para todos e também na farinha, açúcar bruto e em outros artigos de venda do seu Tenório. Glauco soube do nome por causa de uma placa existente na frente à bodega na qual dizia:
--- “Bodega do seu Tenório” – retratava a placa do estabelecimento.
Após angustiantes momentos, Glauco teve a vez de ser atendido. E era muito pouco ou quase nada o seu pedido. Apenas Glauco indagou do seu Tenório sobre uma velha senhora, vestida de roupa simples cobrindo até os pés, com uma bengala de madeira, cabelos em desalinhos, todos brancos, caídos para os peitos e falando um pouco baixo ou quase rouca. O homem Tenório ouviu toda a narrativa e ao fim começou a tremer de pavor.
--- Dona Mariquinha! Ai meu Deus! Em pleno dia! E o que ela fez? – perguntou assombrado seu Tenório.
E a moça Racilva contou toda a estória de quando a anciã procurou contar. A casa onde ela estava era uma residência de um senhor de nome Eugenio. Ele morrera queimado no quarto de dormir. Foi tudo o relato da anciã. Então, o homem, seu Tenório, exclamou:
--- Ai meu Deus! Ela vem de dia também! – descreveu seu Tenório apavorado.
--- Foi isso o que ela disse! – destacou a moça toda constrangida pelo temor.
O homem Tenório, aperreado e tendo as pessoas para despachar e alguma pobre mulher a se chegar para ouvir a conversa declarou por fim, a despeito de um menino pedir um pirolito naquela ocasião.
--- Dona Mariquinha já morreu há muito tempo. Ela sempre aparece. Foi uma pessoa nobre e muito rica. O marido Eugenio morreu em sua cama de dormir todo queimado por conta de um cachimbo e uma luz de vela. – concluiu o homem ao senhor Glauco.
--- Morreu?!!! – indagou alarmado o homem Glauco.
--- Ai meu Deus! Vou desmaiar! – proferiu a moça Racilva já revirando os olhos.
Uma porção de gente acorreu para acudir a moça desmaiada. O seu noivo chegou com a moça nos braços para sentar em uma cadeira de palha. Uma mulher pediu de o povo se retirasse, pois precisava de “vento” para poder a moça respirar. Todo mundo por perto e noivo também. Seu Tenório a abanar a moça e Glauco a fazer respiração boca-a-boca.
--- Esfregue álcool nos braços! – gritou alguém para a mulher que fazia a fricção a seco.
--- Álcool! Tragam o álcool – pediu clamando o noivo da moça.
--- Agua nos pés. Água quente! – relatou alguém a pedir para a dona da bodega.  
Essa, mais que depressa, acudiu a moça sentada na cadeira de palha totalmente sem sentidos. Uma chaleira de água quente veio mais que depressa da cozinha da casa da bodega e a mulher pôs nos pés de Racilva retirando a sandália e pondo em uma tigela de ágata. Foram imensos dez minutos de desespero até Racilva recobrar os sentidos. O namorado apenas dizia:
--- Pela segunda vez meu Deus! – e caía no pranto incontido e amargo.
Era passada meia hora e Glauco ofereceu ao seu Tenório um pouco de vermute. Ele bebeu também e rezou para Racilva se recuperar de vez e tudo passasse em instantes. Nesse ponto a moça estava já em plena forma. Ela foi levada para o interior da casa da bodega e a mulher apenas:
---Está se sentindo bem? – perguntava a mulher de Tenório toda curvada para ver o rosto da moça ainda um pouco pálido.
--- Estou. Estou. Apenas as minhas pernas que tremem. - respondeu à moça a dona da casa.
--- É angustiante a pessoa que é vidente! – declarou a mulher em tom baixo.
Em seguida entrou Glauco na sala onde estava Racilva e voltou a indagar se ela podia esperar por ele. O carro estava encostado na sua casa e ele teve3 de ir buscar. A moça concordou e disse apenas isso:
--- Não vou morar mais naquela casa! – chorou Racilva ao dizer isso ao noivo.
Naquele dia Glauco desistiu de ir a Fazenda Maxixe. Ele e a noiva chegaram em casa de Racilva onde a moça ainda pálida confessava ao noivo não querer voltar a casa do Tirol. Podia-se procurar outra. Foi oque Racilva pontuou.
--- É. Na verdade, tem tempo. Você não precisa se vexar. – propôs o homem à sua noiva.
A sua mãe, mais que depressa veio ao encontro da filha. A moça se encontrava sentada na varanda da casa olhando para o além e sua mãe veio nervosa indagar o que estava a ocorrer. A moça respondeu.
--- Nada demais. – disse a moça.
--- A casa é boa? – perguntou dona Lindalva.
--- Ótima. Excelente. Mas eu não gostei muito da vizinhança. – reportou a moça.
--- Ora. Isso é o de menos. Você gostando é o que importa. – proferiu Lindalva sem saber o verdadeiro motivo.
--- Vamos ver. Vamos ver. – relatou Racilva descontente com a casa.
--- Eu também confesso que não gostei da vizinhança. – discursou Glauco querendo estar de acordo com a noiva.
--- E por não fica na casa velha? – indagou Lindalva.
--- Ela está vendida, praticamente. – relatou Glauco de cabeça baixa.
--- Assim procura outra. – disse a mulher.
O velho Jonas ía passando quando ouviu a conversa e indagou a razão da vizinhança.
--- É um povo “antigo”. Só isso. – reportou Glauco um pouco frio.
--- Pois se é antigo arranja gente nova. – sorriu o velho ao entrar em sua casa.
E passou algum tempo quando Racilva procurou saber de sua mãe de ela se lembrava de um senhor conhecido pelo nome de “Tupinambá”. E a mulher respondeu:
--- Ele mora nas Rocas. – fez ver a mulher.
--- Rocas? Tenho que ir falar com ele! – relatou a moça a seu noivo.
--- “Tupinambá”! Por que esse nome? – perguntou Glauco.
--- Não sei. Só sei que ele se chama “Tupinambá” – relatou Racilva descontente.
--- Estranho! O que ele faz? – indagou Glauco um pouco cismado.
--- Ele é do Centro Espirita “Tupinambá”. Eu tinha coisa de sete anos quando fui a ele depois de passar por outros Centros. E me tratei com ele. Depois, quando estava com 15 anos, estive outra vez com Tupinambá. E mais tarde, quando eu já estava com vintes anos, voltei a me consultar com o médium. Eu sei que tem outros Centros em Natal. Tem o Victor Hugo e outros tantos. O Centro da Maternidade. É um ótimo centro. Mas eu me acostumei com Tupinambá e quando cismo de algo me consulto a ele. É só. – falou a moça explicando a sua situação ao noivo.
--- Está bem. Eu não acredito muito no espiritismo. Mas, tem casos que eu fico a imaginar se na verdade aquilo é um fato de verdade. E se você pretende ir ao Centro, estou as suas ordens. Discorreu Glauco a sua noiva.
--- Eu agradeço bastante. Às segundas e quartas feiras tem trabalho no Centro. E às vezes tem trabalho também às sextas feiras. Eu tenho primeiro que ver como se prende os trabalhos para mim. Não sei. O caso de hoje foi um aviso. – concluiu a moça.
O homem olhou firme para Racilva e não disse mais coisa alguma a respeito do temor. Apenas pensou ser ela verdadeiramente um médium.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

VENUS ESCARLATE - 26 -

- VAQUEIROS -
- 26 -

No sábado daquela mesma semana, Glauco Rodrigues foi à residência de sua noiva, Racilva Arantes por volta das 9 horas da manhã para ir com a moça a nova casa que o homem tinha adquirido no barro do Tirol, em Natal. A casa era moderna e ampla. O terreno media vinte metros de frente por cinquenta de fundo. Um casarão por assim dizer. O terreno era murado por todos os quatro cantos, tendo na frente um muro baixo com portão simples de entrada e ao lado um segundo portão mais largo para permitir a entrada de carros. No fim do terreno tinha a garagem de guardar o automóvel. A casa, propriamente dita, ficava a uns dez metros do portão do muro. Era larga, ampla e havia uma varanda onde pessoas podiam ficar noite e dia a conversar o que viesse na mente. Para um lado depois da entrada, era a sala de visita e depois, a sala de estar e ainda mais outro compartimento chamado sala de jantar. De um lado havia três quartos sendo um para os donos do imóvel e em seguida os dois quartos para os filhos de quem morasse na casa. Havia banheiros com chuveiro elétrico, aparelhos, bidés e ao lado esquerdo da casa, uma salinha e logo depois a cozinha da residência. Ao fundo, do lado de fora da casa, estava um quarto para os criados e depois um pequeno recinto servindo de banheiro e aparelho também para a criadagem. Outro aspecto da residência era o plantio de fruteiras tanto na frente com atrás do casarão. A garagem ficava ao lado, na parte esquerda da casa grande. De cor amarelada, pintada a ocre, ali era um esmero para quem morasse. E os novos proprietários foram ver essa moradia totalmente desocupada para ter a certeza de terem adquirido uma admirável residência.
Ao adentrar a morada Racilva não teve como prender o seu gosto ao dizer simplesmente:
--- Que luxo! – disse a moça de olhar deslumbrado.
--- É linda, não é? – indagou Glauco ligeiramente a sorrir.
--- Quem diria? O dono desse imóvel devia ter boa posse. – relatou a moça.
--- Com certeza. – proferiu por sua vez o homem.
O imóvel era todo estucado com madeira de pinho Riga. Um trabalho muito bem acabado para ninguém por defeito. Lustres e candelabros eram o fino do imóvel onde por toda a residência se espalhavam como um todo. Na moradia não havia nenhum tipo de móvel. Era tudo vazio. Nem uma folha de jornal cobria o chão. As janelas corrediças estavam fechadas. No primeiro quarto de dormir havia três portas, sendo uma para o lado da sala de visitas, outra para uma segunda sala e a terceira se comunicava com os cômodos das crianças, moças ou rapazes. Para o lado de fora havia janelas corrediças também. E uma porta de madeira ypê apenas na sala de jantar dando para o oitão. Na verdade, os portais da casa eram todos feitos em ypê. Bem como as janelas também corrediças eram também em madeira de ypê. Havia três janelas na parte direita da casa, com vidros opacos. Uma porta na parte de trás da casa podia entrar ou sair quem estivesse trabalhando na casa. Tudo era magnífico onde Racilva de Glauco estavam na manhã daquele sábado. E após andar a solta pela parte interior da moradia, a discutir o mais provável a ser posto em algum local, Racilva foi até o lado de fora a examinar todo o local para ver se nada mais faltava. O cheiro forte de ocre denunciava ter sido a casa repintada há pouco tempo. O noivo partiu para a garagem para ver se abria o portão da entrada do carro.
Enquanto a noiva estava a olhar a parte externa do imóvel, uma anciã caminhava a passos lentos pela calçada e a certo ponto ela parou e olhou para a moça Racilva. Encurvada pela idade mais parecendo uma letra “C”, passos curtos e vagarosos, cabelos em desalinhos caídos para a frente, quase compridos, a anciã observava a senhorita Racilva a examinar toda a casa grande. Após alguns minutos a anciã chamou Racilva e esta nem deu conta pelo convite. Porém a anciã em sua pequenez e encurvada, de chinelas quase cobertas pela saia comprida até ao chão continuou a chamar a moça com sua voz pequena e quase rouca.
--- Psiu! Moça! Venha cá! – chamou a anciã com sua voz acanhada.
Já havia alguns minutos que a anciã chamava Racilva e em certo tempo a moça escutou o chamado e ainda perguntou:
--- É esmola minha mãe? – indagou a moça a anciã toda acanhada.
--- Não. Venha cá! – vez vera anciã com a sua voz sumida.
Então, com certo temor, Racilva foi até o muro baixo da frente da casa e se prontificou, a saber, o que a anciã queria. E a velhinha disse afinal:
--- Minha filha! Você vai morar aqui? – perguntou a anciã a moça com sua voz tênue.
--- Sim. Meu noivo comprou a casa. Nós vamos morar aqui! – sorriu Racilva ao dizer a anciã.
--- Você conheceu o doutor Eugenio? – quis saber a velhinha com sua voz tênue.
--- Eugenio? Não que eu me lembre! – sorriu a moça um pouco pensativa.
--- Ele morreu! Morreu! Foi! Queimado! – respondeu a velha a sua ouvinte.
--- Nossa! Onde? – quis saber amedrontada a moça de boca aberta.
---Nessa casa! No quarto dele! Foi! Faz tempo! Ele morreu queimado! – disse a anciã e se afastou lentamente do lugar onde estava e caminhou apoiada em uma bengala de pau.
Aterrorizada com a noticia da anciã, a moça correu desenfreada para chamar o seu noivo no fundo do terreno e pedir para ele chamar a velhinha e lhe contar toda a estória. Arquejando pelo medo e pela corrida Racilva chegou onde estava Glauco e cheia de medo conseguiu dizer ao noivo.
--- Vá lá! Vá lá! Vá lá! A anciã. Logo! - -falou a moça assustada por tudo que ouvira da velha.
--- Vá lá o que menina? Estou vendo se abro esse cadeado! – respondeu o homem a sua noiva.
--- Não! Vá lá. Vá lá! Ela vai perto daqui! Vamos! Vamos! – chamou amedrontada a moça.
--- Espere! Vamos com calma! Vá lá aonde! Quem eu vou perguntar? E o que? – respondeu o homem já um tanto nervoso.
--- A mulher! A mulher! Eugenio! Eugenio! – respondeu Racilva amedrontada com o que ouvira a velha mulher falar.
--- Quem é Eugenio? – perguntou atrapalhado o doutor Glauco andando empurrado pela moça querendo olhar a cara de Racilva e sem poder pelo fato de correr para frente.
--- Eugenio! Eugenio! Pergunte à anciã! Ele morreu! – relatou a moça por certo com receio.
--- E eu sei quem é Eugenio? Todos morrem um dia! – proferiu Glauco atrapalhado com os empurrões de Racilva.
--- Não! Ela sabe! Ela sabe! – relutou a moça ao dizer o que ouvira.
--- Ela sabe o que minha filha? – indagou Glauco já chegando ao muro baixo.
--- Quem foi Eugenio! Chame-a! Logo! Depressa! Vai bem ai! – relatou a moça suando frio.
Por fim Glauco se agarrou na parede do baixo muro, olhou para um lado e para outro não encontrando ninguém a não ser um vendedor de caranguejo ao passar na rua pelo outro lado:
--- Caranguejo! Olha o caranguejo! Caranguejo! – dizia o vendedor de caranguejo.
De modo ele não vu a tal mulher anciã a caminhar vagarosa pela rua. Então o homem já um tanto nervoso quis saber o que havia dito a velha senhora. A moça já um tanto emocionada apenas soube dizer o dito pela anciã.
--- O homem morreu queimado em seu quarto! Foi o que ela disse! – relatou Racilva um tanto nervosa de medo e agonia.
E o homem Glauco voltou a indagar da sua noiva.
--- Que mulher era essa? – quis saber de imediato a indagar a sua noiva.
--- Uma mulher! Eu não sei quem é! Apenas uma velhinha. – contou Racilva a Glauco.
Passado alguns minutos e Glauco resolveu sair e procurar a tal anciã que assustou bastante a sua noiva naquela hora da manhã.
--- Espere aqui. Não vá sair! – proferiu Glauco a Racilva.
E largou a correr pela calçada até chegar a esquina da rua e nada viu. Ninguém ali para contar a estória a não ser o vendedor de caranguejo a oferecer o seu crustáceo. Uma doméstica varria a calçada na rua da esquina e ele então resolveu perguntar a moça se ela conhecia uma anciã naquela ou em outras ruas.
--- Não. Não conheço não senhor. Que velha? – perguntou a doméstica estranhado o fato.
--- Eu não sei. A minha noiva estava em casa quando essa anciã veio e disse para ela ser aquela casa onde morreu o doutor Eugenio. – fez ver Glauco a moça pobre.
--- (Eu) não sei. Faz poucos dias que eu estou morando aqui. O senhor pode saber no homem da bodega na outra esquina! – relatou a moça apontando para a mercearia ao longe.
--- Está bem. Obrigado. – falou Glauco a doméstica.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

VENUS ESCARLATE - 25 -

- TERNURA -
- 25 -
O telefone tocou e Glauco atendeu de imediato na manhã daquele dia de quarta-feira. Era Walquiria quem ligava. Ela, de imediato indagou se a casa grande de Petrópolis já havia sido vendida. De imediato, Glauco respondeu que não. Estava à venda. Walquiria voltou a dizer ter passado na frente da casa e visto um homem a examinar o casarão. Ela não perguntou coisa alguma ao homem. Depois de tudo isso, Walquiria passou no local e soube do vigia se tratar de alguém do Recife. Ela ainda indagou sobre o que o homem estava interessado e ouviu:
--- Ele perguntou quem era o dono. Só isso. – falou o caseiro palitando os dentes.
--- Indagou o preço? – perguntou Walquiria um pouco curiosa.
--- Não! Só quem era o dono da casa! – relatou o caseiro e cuspiu para um lado.
Então a moça Walquiria resolveu ligar para o seu tio contando o havido. E ainda falou:
--- Espere! Ele deve aparecer! – relatou a moça apreensiva.
--- Nem se vexe. Eu coloquei à venda. E a casa do Tirol, só falta receber os papeis. – fez ver Glauco sorrindo.
--- Onde está Racilva? – indagou a moça querendo conversar com a outra moça.
--- Racilva é para ti. – falou Glauco a sua noiva.
E ela prontamente atendeu ao telefone ouvindo Glauco dizer quem, afinal, estava no fone. Com um sorriso discreto, a moça pegou no respectivo aparelho e passou a conversar miolo de quartinha com Walquiria a lhe chamar para ir à praia de Pirangy, na quinta feira outra, pois seria feriado religioso e toda a repartição estaria a fechar. Racilva concordou apesar de ter uma preferencia por conhecer a praia da Redinha.
--- Redinha é bem ali. – ressalvou Walquiria a sorrir.
--- Eu sei. Mas não conheço a praia. – sorriu Racilva querendo dizer “não”.
--- Olha boba! A praia de Pirangy é muito mais distante. Chama teu noivo e nós vamos. Eu levo você em meu carro. E tu também. Ouviu? E com o meu tio. Aproveita o feriado! Tchau. – despediu-se Walquiria sorrindo.
Logo a seguir Glauco indagou da sua noiva se ficou certo em ir para a praia de Pirangy ou a praia da Redinha. Racilva então sorriu como se estivesse envergonhada ou coisa desse modo e apenas disse:
--- Ela quer ir mesmo para Pirangy. – sorriu com a cabeça de lado a noiva de Glauco.
--- E o carro? – quis saber Glauco enquanto anotava e em um livro de algo que ele estava a fazer.
--- O dela. Ela, você e eu. Não sei se tem mais gente! – explicou Racilva a trabalhar.
Na hora do almoço o casal de noivos estava a apetitar a comida feita no famoso Grande Hotel. A música suave de um piano acudia aos ouvidos dos participantes do almoço. Era gente nobre a tagarelar sobre assuntos de política, comércio, indústria entre outros assuntos. Alguns dos presentes ao almoço estavam com as suas matronas bem ornamentadas e cheirando a água de toalete bem comum naqueles tempos.
--- Que cheiro horrível! – reclamou baixinho à noiva ao seu noivo.
--- É a alta sociedade! – declarou com um sorriso o seu namorado Glauco Rodrigues.
--- Nossa! – vez ver a moça com um ar repugnante.
--- É bem comum esse cheiro. As matronas gostam muito. – aduziu Glauco como a segredar a sua noiva bem atraente e modesta.
--- Eu queria ver essas mulheres a lavar roupa no riacho das Quintas! – respondeu Racilva arrebatada de aversão olhando as matronas cheias de brincos, colares e pulseiras vestindo um traje de matinê.
Após um ligeiro instante o garçom chegou à mesa dos habituais consumidores do Hotel com uma travessa de prata onde se podia ver um ensopado de lagosta à moda da casa. Era um delicioso e enigmático prato capaz de extasiar a quem nunca provou a famosa lagosta. Não raro se degustava o camarão gigante como sendo uma lagosta pequena. Contudo, no Grande Hotel era servida, também, a lagosta propriamente dita apanhada na costa do Rio Grande do Norte quando a espécie estava a migar para o norte até o Ceará. E Racilva ficou surpresa com tamanha lagosta ora então servida.
--- Uma lagosta? – perguntou de forma surpresa a jovem moça a sorrir.
--- São pratos da casa! – respondeu o garçom ligeiramente arqueado em sua cintura.
--- Deve estar bastante gostosa. – sorriu o noivo entusiasmado.
--- Vinho ao gosto do cliente. – respondeu o garçom ligeiramente sorrindo.
--- É preferível um vinho verde branco de Portugal. Tem bom aroma a frutos tropicais. – relatou Glauco sem sorriso e procurando olhar o rosto de Racilva.
A moça fez um acanhado gesto e sorriu como quem estava aprendendo mais. O garçom olhou para a face da moça e pronunciou então:
--- Muito bem. Vinho verde branco. – e saiu do local procurando o bar onde pode trazer o chamado vinho português.
Fora do restaurante do Hotel, os garotos ficavam a admirar com atenção os consumidores a tomar seus preciosos vinhos, cervejas, vermutes e entre outros, a cachaça. Uma menina dos seus dez anos ficava sempre presa ao gradil de ferro de olhares atentos os consumidores que estavam no interior da sala do restaurante. Outros garotos menores brincavam com sementes de oiti, árvore abundante na pracinha ao lado direito do restaurante. A jovem Racilva ainda olhou para a garota e sentiu angústia de tal situação.   
À noite, quando Glauco deixou Racilva em sua casa e teve que voltar ao seu quarto de hotel onde ainda morava, ele se deparou com espanto a figura de Bete exuberante e bela no seu trajar estampado de um vestido novo. O homem já estava destrancando a porta do seu quarto quando a moça se encostou a ele. O temor se fez presente com o vulto de majestosa dona a sua volta. De espanto ele ficou.
--- Que susto, menina! – descreveu o homem ao ver aquela ninfa estranha.
E Bete sem temor, sorriu. E chamou a atenção para a sua veste própria de uma dama da noite em busca de seu grande amor. E depois de um curto e pequeníssimo espaço de tempo Bete indagou a sorrir relutante.
--- Que tal meu traje? – quis saber a moça com seus olhos piscando.
--- Nossa! Onde você arranjou tanto dinheiro para comprar esse traje? – perguntou Glauco ainda amedrontado pelo susto que tivera.
--- Advinha! – sorriu a moça a indagar de Glauco.
--- Sei lá! Nos bereus da vida! – comentou o homem já dentro do quarto de dormir.
A ninfa também adentrou no quarto e se sentou na cama onde o homem começou a tirar o seu traje de trabalho e ficou apenas de cueca e camiseta de algodão.
--- Nos bereus! É danado! Mas, não tem importância! Eu sou uma puta e viver nos bereus deve ser meu costume. – assinalou Bete a olhar o homem por inteiro.
--- Perdão! Não foi por querer! Algo saído sem pensar! – relatou o homem a fim de procurar acariciar a moça com bastante afeto.
--- Ah. Não tem importância! Deve ter sido em um bereu mesmo! Afinal eu sou uma puta! – disse a moça a se deitar de lado na cama do hotel.
--- Não foi por mau. São negócios que a gente diz querer e nem sabe por que! – relatou Glauco prontamente arrependido do pronunciado antes.
--- Tá bom. Não é nada, não. Eu vou embora para os meus bereus da vida. E não tenhas mais remorsos. – pronunciou pensativa a mulher.
--- Espere! Espere! Não vá agora! Eu quero te pedir perdão de verdade. É a minha incauta cabeça destroçada pela bebida. – respondeu assustado o homem.
A moça se levantou da cama, olhou bem o homem, fez uma cara de deboche e disse então para Glauco com o ar triste e compungido.
--- Veja bem o que o senhor vai dizer. Esse traje foi você quem me deu! Aqueles trocados de ontem, está lembrado? Pois foi! – relatou a moça!,  Ela abriu e trancou a porta saindo de vez.
--- Menina! Espere! – chamou em vão o doutor Glauber Rodrigues.