Mostrando postagens com marcador ANA LUNA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ANA LUNA. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de outubro de 2011

ANA LUNA - 02 -

- ANA LUNA -
- 02 -
A terra do coronel Ezequiel Torres era um mundo. Com seus 200 hectares, ela era cultivada com as mais variedades de frutas e legumes. Porém, o coronel Ezequiel se importava principalmente com a criação de gado de corte e leiteiro além de ter sua enorme coleção de cavalos puro sangue. A senzala da fazenda abrigava duzentos escravos, nesse tempo sem liberdade. As mulheres-escravas eram principalmente acolhidas nos serviços domésticos. Os homens-escravos eram tratados como animais. Valiam o tanto que pesavam. Para o Coronel Ezequiel Torres, devia haver uma reunião a cada quinze dias para se por em ordem o que havia acontecido no sertão da vila do Riacho das Pedras onde o sacerdote, Monsenhor Bento, era a maior autoridade da Igreja Católica na região. Em tais reuniões, Monsenhor Bento estava presente a despeito de sua posição com outros latifundiários de maior distancia quando o padre tinha que ir rezar missa ou encomendar corpos dos seus filhos na fé. Nesse dia, o coronel Ezequiel Torres marcara reunião com os seus principais aliados como seja: Major Pontes de Mesquita, Capitão Zenóbio Manso, o Promotor Publico Zaqueu Martins, o Delegado Euclides e demais autoridades além da presença de um Juiz de Direito que se encontrava presente e o coronel desconhecia quem era.
O Coronel abriu a reunião feita a portas fechadas, como se dizia, era um verdadeiro Conclave. Depois de anunciar as presenças de todos, ele ficou devendo a do Juiz de Direito cujo nome perguntou na mesma ocasião.
--- Nome, por favor! – perguntou o coronel Euclides.
--- Doutor Mardoqueu Ramos. – respondeu o Juiz com cara trancada.
Em seguida o Coronel falou em tom forte sob o silencio de todos os presentes.
--- Pois bem. O que se tratar aqui, somente aqui é tratado. Ninguém passa a frente o que se tratou, a não ser com outro companheiro, vendo se ninguém ouve a conversa. Entendido? Muito bem. Nesses últimos dias três escravos fugiram da Fazenda “Lavrador” do Major Pontes de Mesquita. Os Capitães-do-mato souberam que eles foram acolhidos na Fazenda do Barão de Itabira, homem rude e detestado por todos os que o conhecem. Ele recebeu os escravos na sua fazenda sob a promessa de que seriam livres em pouco tempo. É mentira desse Barão, pois se sabe que ele está a serviço do Imperador. Desse modo, tudo o que ele diz é mentira. Nós sabemos o que esse Barão quer. Só mata e come. Um ladrão do mais baixo calão e que só se importa com o dinheiro que recebe do Imperador.
E o Coronel se pôs a dizer todas as infâmias que havia cometido o Barão de Itabira sem temer coisa alguma porque estava entre amigos. E discorreu sobre outras denuncias com relação aos Pereira cuja posição não se sabia qual era. Apenas de que os capangas dos Pereira faziam arruaças em praça publica a mando de seu patrão, Nicácio Pereira, no meio da multidão quando havia feira livre na Vila Riacho das Pedras. Contra os capangas nem o delegado Euclides podia fazer nada, pois, da última vez que estiveram na feira deflagraram tiros contra a própria delegacia de polícia. Eram cerca de vinte capangas para um efetivo de cinco policiais. Os “Pereira” eram homens valentes e tinham apoio do Barão de Itabira. A divisão do alto sertão nessa época era feita desta forma: Brigas, contendas, fugas e assassinatos.
Após três horas de diálogos e debates o Conclave foi dado por encerrado naquele dia sendo outro convocado para dentro de quinze dias, ou antes, mesmo se a confusão continuasse do jeito que se sucedia. Com isso, os participantes, após tomarem um cálice de xerez se despediram de forma cordial, cada um se abraçando com o outro e assim foram embora para seus afazeres com exceção do Monsenhor Bento que o Coronel Ezequiel pediu para ficar. Depois de alguns minutos, quando todos já tinham ido para as suas fazendas e escritórios, o Coronel Ezequiel se juntou no seu escritório com o Monsenhor Bento a quem perguntou:
--- Quem é aquele sujeito baixinho? – perguntou o Coronel de forma baixa.
--- Aquele gordo? Não sei. Mas ele se diz Juiz de Direito. Deve ser. Pois o promotor está sempre com ele. Eu mesmo não sei. Ele não vai nem à Missa. Como eu vou saber? – respondeu o monsenhor Bento de modo mais baixo que o próprio coronel.
--- Ele disse que seu nome é Mardoqueu Ramos. Foi o que ele me disse ao perguntá-lo. Só isso. Eu também não fiz mais perguntas. – falou o Coronel um tanto desconfiado.
--- Pois é. É o que todos sabem. É só isso. – retrucou o sacerdote.
--- Temo que ele seja um espião do Barão. – relatou o Coronel de modo prudente.
--- Pois. Pode sim. Mas nessa gente a gente confia e desconfia. – replicou o pároco de modo inquieto.
--- Escute bem. O senhor é quem pode descobrir tudo a esse respeito. E diga-lhe que a lei aqui quem manda é o mais forte. Ele só faça algo depois que conferir entre nós. Nós é que somos a lei. Eu, o Major e o Capitão. Ouviu bem? – indagou o Coronel.
--- Pois não. Pois não. Eu digo a ele no próximo encontro que eu tiver com esse tal de Mardoqueu, se bem me lembro do nome. – replicou o Monsenhor Bento com extremo cuidado.
--- Pois bem. Era só isso. Agora vá para não dar na vista de que ficou aqui. - falou o Coronel.
--- Isso não tem importância. Eu digo que fui ouvir os pecados das moças. É só isso. – respondeu o sacerdote.
--- Ah bom. As três mocinhas. Minhas filhas. É isso. – respondeu alegre o coronel Ezequiel, cheio de orgulho.
Desse modo, a reunião terminou entre o Monsenhor Bento e o Coronel Ezequiel Torres já no final daquela tarde. O sacerdote ainda pediu um pouco de xerez, pois estava com a garganta saca e ainda tinha que ouvir as confissões das três moças. O coronel Ezequiel acedeu e mandou entrar a criada nova com uma bandeja de xerez.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ANA LUNA - 01 -

- ANA LUNA -
- 01 -
Era manhã de meio de semana. No alto sertão do nordeste brasileiro se ouvia o canto dos pássaros no meio do matagal existente na região coberta por árvores como a jurema, a algaroba, o juazeiro, a castanhola, o umbuzeiro e o pé de turco além de vários outros cuja existência ia para além do que se podia imaginar. Por entre o mato rasteiro de cima de uma colina estava ali olhando com cuidado o homem Manoel Jacó, vaqueiro da Fazenda Maxixe do Coronel Ezequiel Luna Torres, a casa em baixo, tapera feita de taipa pintada de branco com uma porta e uma janela de frente e nada mais. Ele esperava a saída da casa de Maria Rosa, mãe da mocinha Ana Luna para poder chegar diante da porta feita em duas bandas serrada no meio e fazer a empreitada que queria inventar. Na manhã daquele dia eram cerca de sete horas e ele havia chegado à colina meia hora antes. O sol parecia ser escaldante no restar daquele penoso dia, pois naquela hora já era sentida a sua força com as moscas voando ao redor do homem que as espantava de qualquer jeito apesar de sua roupa que lhe protegia de tudo o que era de mau. Manoel Jacó vestia roupa de vaqueiro como sendo gibão de couro, perneiras, guarda-peito, calçando um sapato com perneiras e esporas, pondo na cabeça um chapéu também de couro. Era enfim uma roupa completa de vaqueiro tendo por baixo a sua roupa comum. Os marimbondos azucrinavam o homem que ele não parava de espantar com o seu chapéu. Até mesmo o besouro “cavalo do cão” ele sacudia o chapéu para espantá-lo para mais longe. O seu cavalo, Manoel deixara amarrado há uns cinquenta metros de distancia em baixo de um juazeiro onde ninguém podia vê-lo, pois ao redor tinha pés de linhaça dentre outros mais. Aquela cobiça o homem já fizera dias antes e naquela hora tinha a certeza de que não falharia outra vez. Com o passar das horas, Manoel Jacó viu a fumaça saindo por uma chaminé de fogão a lenha que Maria Rosa fizera para cozinhar em uma panela de barro com certeza o feijão de corda que a mulher havia posto de molho na noite do dia anterior. Então Manoel Jacó sorriu de contente, pois há sua hora estava prestes a chegar. Na cabeça do homem ainda pairava um pouco da ressaca da bebida que havia tomado na noite do dia anterior. Um travo na boca lhe fazia faltar até mesmo o cuspe apesar de estar a mascar um naco de fumo de corda.
E quando menos ele esperava, a mulher abriu a porta de baixo, puxando pela mão o seu filho mais novo de uns oito anos e dando recomendações à filha mais velha, Ana Luna, de seus catorze anos. Qualquer coisa que ele não ouvira e nem queria saber a razão do que a mãe, Maria Rosa, dizia. Para Manoel Jacó só interessava a mocinha Ana Luna, bela e jeitosa para o seu tempo capaz de alucinar qualquer outro homem. Ele deixou a mulher se distanciar, com eu menino a tira colo e a trouxa de roupa na cabeça que ela levava para lavar nas ribanceiras do Riacho das Pedras, logo abaixo da casa onde ela morava com seus dois filhos, um casal por sinal. A mulher Maria Rosa não tinha homem e servia ao gosto do viúvo Coronel Ezequiel. Disso, Manoel Jacó estava inteirado como sabia também que Ana Luna era filha do coronel, tida de um parto quando a mulher do seu patrão já havia morrido há cerca de quinze anos. Apesar de saber da historia de Luna, o vaqueiro não conhecera a mulher do fazendeiro, dono de boa parte da terra que se estendia de um estado a outro naquele sertão bruto em cerca de duzentos hectares bem medidos e costumeiramente produtivos.
Quando a mulher já havia sumido na terra plana, então Manoel Jacó se levantou de onde estava estendendo os músculos, pois de tanto agachado já então lhe fazia um pouco de lassidão, ouvindo estalar todos os ossos do corpo. Em seguida, apanhou uma trocha de roupa que trazia consigo e desceu a colina até a casa de Maria Rosa. Em La chegando verificou se havia gente por perto e por longe, não a observar ninguém. Ele bateu palmas na porta para chamar, com certeza, Ana Luna. A mocinha veio atender, ficando escorada no portal da sala, com um pé cruzado. Manoel Jacó perguntou por sua mãe, porém já sabendo que Maria Rosa havia saído.
--- Ela foi pro rio lavar roupa. – respondeu a moça palitando os dentes com a unha.
--- Ô com os diabos. Mas, não tem importância. Eu tenho umas roupas para ela lavar. Estão aqui. Olhe. – suspendeu o homem a trocha de roupas.
--- Pode deixar que eu entrego a ela. Me dê a roupa! – falou Ana Luna com certa prudência.
A mocinha conhecera o homem como o vaqueiro Manoel, da Fazenda Maxixe, pertencente ao seu pai, o coronel Ezequiel. De modo que nem por isso ela guardou medo de uma ação inesperada. Ela veio e apanhou a trouxa de roupa e guardou no canto da sala, um espaço pequeno onde havia três cadeiras e um tamborete. Uma rede estava embrulhada no punho da sala. Nada havia ali de riqueza, apesar da mulher ter um romance com o fazendeiro mais rico da região. E o vaqueiro ficou a olhar com tamanha esperteza o corpo da menina-moça, pura e virgem sem que alguém tivesse tocado naquele delicado corpo juvenil. E então Jacó falou outra vez.
--- Moça! Você pode me arrumar um caneco d’água? É pra matar a sede que eu tenho depois de muito caminhar! – falou Manoel Jacó de forma alheia como se quisesse apenas aquilo que pedira.
--- Pois não. Vou buscar lá dentro, na cozinha. – respondeu Luna saindo para a cozinha.
Nesse instante, Manoel Jacó abriu a porta de baixo e entrou depressa pegando a jovem pela garganta, com a outra mão fechando a sua boca e dizendo que ela não fizesse nada e nem gritasse pois ele somente queria fazer sexo e nada mais empurrando Luna para cima da cama desarrumada de solteiro, com uma lâmina de punhal encostada na garganta da bela moça, que se mostrava de plena amedrontada levantando-lhe o vestido simples de algodãozinho e retirando a sua veste de baixo, fazendo com ela a primeira cópula que a bela jovem já fizera. Então se debatendo por todos os seus meios apesar do punhal em sua garganta a jovem não teve a certeza de que aquilo era uma sedução. Ao terminar o ato, o homem cuspiu na cara a moça que ainda assim lhe arrancou o botão do seu guarda-peito de tão enervada que estava tremendo de horror e sofrendo pelas dores cruéis que o homem lhe afrontou naquele extremo ato libidinoso. O vaqueiro saiu do quarto advertindo que a jovem não dissesse nada a ninguém, pois se ela falasse a mataria. Isso com todo o requinte cruel de perversidade. Ana Luna nem ouviu tais advertências, pois as dores que sentia eram por demais terríveis. O homem, quando ainda estava na porta do quarto a chamou:
--- PUTA!!! - falou Manoel Vaqueiro para a pobre moça que se contorcia de dores.
E saiu logo em seguida apanhando a sua trouxa de que Luna tinha posto na sala de entrada encostada a parede do quarto. A jovem moça ficou deitada em sua cama, contorcendo-se de dor por ter sido seviciada inoportunamente pelo vaqueiro Jacó. O sangue que jorrava do seu organismo, ela nem notara. O feijão ferveu na panela que chegou a tostar. De nada a bela Luna se importava, pois ficou durante muito tempo encolhida, como um caracol, no seu feio e estranho cômodo onde havia mais que tudo um camiseiro caindo aos pedaços e uma cadeira que não prestaria para coisa alguma. Aquele foi o dia pior de sua existência com os poucos anos por ela vividos. Ao chegar o meio-dia, Luna se levantou da cama, viu o estrago que sofrera e, no quintal, vomitou tudo o que tinha ou não tinha ingerido durante toda aquela manhã. A dor do punhal em sua garganta forçada pelo vaqueiro Jacó lhe doía ainda mais, mesmo sem ter feito qualquer ferimento. Era, então, a sensação do medo e do terror que se fazia presente. Após ter vomitado até o próprio sangue que vinha da parte de sua garganta, Luna foi ao banheiro improvisado da sua casa onde, em meio da comoção e do choro por ter sido deflorada a contragosto, tomou um banho frio, limpando de sua pele por todo canto a lembrança que lhe tinha imposto o vaqueiro Jacó naquela terrível manhã de sol escaldante