quarta-feira, 10 de abril de 2013

"NARA" - 37 -

- Natalie Portman -
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COMENTÁRIOS
À noite, Eurípedes estava na residência de Nara a gargalhar sem tréguas pelas vibrantes matérias divulgadas na manhã-tarde daquele dia nos jornais da Cidade. Os jornais passavam de uma mãe e outra do médico e do seu Sisenando enquanto Nara ficou a balançar a criança em seu berço e a olhar bem para os dois homens sem querer dizer coisa alguma. Eurípedes nem se importava com o piano. Afinal, o instrumento era propriedade de Nara. Logo o médico lembrou um caso ocorrido em seu expediente daquele dia. Caso muito delicado e não se podia adiantar por nada. E o médico relatou:
Eurípedes:
--- Se a Imprensa soubesse de um caso delicado que está havendo no hospital?! – falou por alto o médico.
Sisenando:
--- Qual? Qual? Qual? – indagou inquieto o outro homem.
Eurípedes:
--- Eu vou te contar. Mas fica aqui. Não quero nem saber. Pois bem. Hoje, nós operamos um homem com três anus. Três! Ouviu bem? Três! – declarou o médico.
Sisenando:
--- Mas três cus? Como é pode? Três? – indagou perplexo sem saber o que dizer.
Eurípedes:
--- Três. Nós lacramos dois. Ele evacuava pelos três. – comentou o médico a olhar Nara que se manteve calada.
Nara:
--- Vocês já estão conversando besteira!. Vou embora!. Fiquem! – respondeu com voz altiva.
O pai da virgem ficou surpreso com a atitude de Nara e olhou para o vulto a sair da sala a toda pressa e pegar o corredor até o seu quarto de dormir. E falou um tanto preocupado:
Sisenando;
--- Mais tá! Nós estamos conversando sobre ciência e ela sai com disparate! Ora! Pois vá! – discutiu o seu pai um tanto aborrecido.
E os dois homens ficaram a conversar sobre desastres, acidentes, recuperação de defeitos e negócios ainda nem tanto conversados. Um exemplo foi dado pelo médico de um rapaz. Esse rapaz de mais ou menos vinte anos caiu de uma serra do interior do Estado ficando todo quebrado, apenas se salvando o crâneo. Ele foi levado para o Hospital e submetido às várias cirurgias. A demora foi por conta do tratamento prolongado. Pernas, braços, tórax, joelho e tudo que se pudesse imaginar. Apenas o crânio ficou intacto. Também o acidente com a queda vertiginosa de mais de cinta metros não afetou a visão,  fala e musculatura dos ouvidos.
Eurípedes:
--- Foram cinco meses de cirurgias e observação até quando tudo estava perfeito. O rapaz ainda assim puxa por uma perna. Mas está vivo. – sorriu contente o médico.
Deram-se as horas e o doutor Eurípedes observou já está tarde e era preferível partir, pois no dia seguinte, talvez não pudesse vir, uma vez haver aula para os novos estudantes e ele fôra escalado para ministrar palestra. E de imediato, o jovem retornou ao quarto de Nara, e esse estava fechado à chave. Eurípedes tocou duas vezes à porta e Nara não respondeu. Ele logo entendeu e disse apenas estar a sair. Tentou ouvir resposta e Nara não respondeu. De vagar, ele foi embora passando outra vez pelo seu futuro sogro e esse fez algo ter o rapaz entendido. A moça estava menstruada – naqueles dias – o velho apontou a barriga para ver se o rapaz entendera. Eurípedes sorriu e dialogou algo sem muita importância. Logo saiu.
Ao chegar a sua residência Eurípedes ouviu algo deveras singular. Rócia, sua irmã, estava a tocar acorde violino. Ele sorriu e bateu palmas para a donzela. Em seguida começou ao piano a acompanhar Rócia até o momento de executar um choro intitulado “Apanhei-te Cavaquinho”, composição feita para piano por Ernesto Nazaréth, em 1930. A jovem moça acompanhava ao violino e ele executava ao piano. Foi um verdadeiro êxito aquela apresentação. Logo após, ambos aplaudiram a si mesmos. Ou um ao outro por sua vez. E o desafio continuou por horas a fio com cada qual fazendo a sua vez. Eles jogaram músicas ao vento, pois o sol não tardaria a despontar. Na verdade, os sabiás cantavam nos pés de laranja e as andorinhas faziam a caça das suas sementes aos primeiros eventos do dia seguinte. A moça sorria. O rapaz chorava. Era o desafio patente entre os dois mestres da música. Os galhos da mangueira pareciam sentir todo aquele refugio de prazer. As cortinas de veludo da sala abriam de par a par para os derradeiros afetos dos belos músicos. Na rua, o padeiro passou:
Padeiro:
--- Pão! Olha o pão! Pão! – falava o padeiro em surdina.
Dona Nazaré já acordara e nessa instante punha o que tinha de ser feito na mesa ornada. O padeiro encostou-se ao muro da casa de seu Amaro Borba  e ficou a espera da doméstica para despachar os pães. Outras domésticas sacudiam milho às galinhas ou apanhavam roupas no varal. Nesse ponto, Eurípedes notou ser o tempo bastante tarde para ele e a sua irmã estarem acordados e resolveram encostar seus instrumentos e procurarem o banheiro. O velho Borba já estava desperto e entrou primeiro no banheiro a reclamar ter que ir naquela manhã a fazenda, pois Tomaz telefonara da cidade de Santa Cruz a chama-lo com urgência.
Euripedes:
--- E o que é que está havendo? – indagou o filho.
Borba:
--- Vaca morta! Sei lá! Eu disse só poder ir no sábado. O vaqueiro disse que o caso é grave! Bosta! Lá vou eu! – falou meio perturbado.
Eurípedes:
--- E ele não resolve? – indagou o rapaz um pouco atento.
Borba:
--- Tem caso que não! – respondeu o velho meio desconfiado.
Eurípedes:
--- E eu tenho de estar bem cedo no Hospital. A turma de jovens. Eu tenho de fazer palestra. – disse o rapaz meio acanhado.
Borba:
--- E você vai hoje? E o Consultório? – indagou o velho.
Eurípedes:
--- Trancado! Trancado! Não tenho tempo! – respondeu.
Na residência de Nara, a sua mãe não dormira a noite toda. A moça estava incomodada por ser tudo naqueles dias e não dormira um só instante. Dona Ceci preparou chá, mesmo assim nada resolveu. Quando amanheceu, o pai de Nara recomendou levar a filha a um médico. Nara dizia não ser preciso,  pois já sentira esse incomodo de outras vezes.
Sisenando:
--- Mas é preciso sim! E o seu noivo não é médico? – indagou vexado
Nara:
--- Nem ponha ele no costume! Eu não vou! Isso passa! – discutiu a moça ao sentir de momento fortes dores.
Sisenando:
--- Ora não ponha? Então vá a doutor José Ivo! Ele é tiro e queda! – argumentou o pai.
Nara;
--- Não vou a nenhum! Isso passa! – reclamou a moça.
Ceci:
--- Eu já disse: É melhor ir a um médico. Ele sabe! Estudou! Sabe! – falou irritada.
A essa altura Ceci vinha no aposento da filha e saia com seu corpo forte até a cozinha para ver se o chá fervera
Nara:
--- Ora mãe! A senhora entende disso! - respondia a moça se torcendo em dores.
Ceci:
--- No meu tempo era diferente!. Um chazinho e pronto!. Agora como tudo! E preveni! Não coma goiaba! Isso é ruim! Mas não ouve! Come o que der na telha! – reclamou a mulher
Nara:
--- Que goiaba? Eu lá comi goiaba? – dizia a moça se contorcendo em dor.
Sisenando:
--- Goiaba? É um purgante! – respondeu o velho.
 

terça-feira, 9 de abril de 2013

"NARA" - 36 -

- Sally Field -
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ÓCTUPLOS
Na noite daquele dia, o médico Eurípedes chegou logo cedo à residência de Nara parecendo ter visto um fantasma. Sem sossego um minuto, ele foi logo dizendo está possesso, pois foi um dia de fato de ter feito um parto de oito irmãos. Sendo quatro meninos e quatro meninas, essas crianças vieram ao mundo graças a uma mulher de pouca ou nenhuma posse. Os médicos ficaram alarmados com esse caso único na história de Natal. Um, dois, três até que poderia ser normal. Porém oito meninos, isso já era demais. Foi à expressão alucinada do médico ginecologista obstetra.
Eurípedes:
--- Eu fiz parto de mulher pobre mesmo. Essa mulher deu à luz a três meninos. Uma era fêmea. Tudo bem. Sempre faço parto. Dois meninos. É o comum. Mas veja bem: Oito? Isso é demais! E não foi esse caso o único. A mulher já tem seis moleques. Todos eles paupérrimos. Nunca foi a um médico! Teve a Deus querer! – falou quase enlouquecido.
Sisenando:
--- Oito meninos? Mas é possível uma coisa dessas? – indagou extasiado.
Nara:
--- Você está brincando! Mas oito? – foi à vez da moça bem alarmada com a mão na boca.
Ceci:
--- Mas oito? Isso não pode ser? – falou a mulher apavorada.
E a conversa girou nesse tema com o rapaz enlouquecido com tamanha forma de uma mulher ter oito filhos e ser de mais uma camada de gêmeos.  Então se formaria quatorze filhos de duas vezes. Eurípedes falou mais ser a mulher de certa forma bem magra, como as mulheres do campo, em sua maioria. No estado de coisas a parturiente veio de um cercado para além do município de São José onde um médico atente na sede do órgão a tantas e quantas pessoas, velhos e meninos, mulheres, moças, rapazes, todas de qualquer forma. Mas, com relação a mulher de oito rebentos, essa não foi nem uma vez ao doutor da cidade. E teve as crianças como se tem brinquedos. Os meninos, sendo quatro do sexo masculino e quatro do feminino, estavam passando bem, de certa forma posta em uma incubadora para tomar peso.  A mulher ficaria no hospital por cerca de duas semanas, período em que se poderiam verificar as suas condições de continuar a ser mãe. Havia certo temor da parte médica em ter de fazer uma histerectomia subtotal ou total mesmo, caso esse a estar em discussão durante os próximos dias. A noite parecia curta para tanta conversa e alguns exemplos foram dados de mulheres a ter seis filhos de uma tacada. Esse caso foi estranho para a classe médica.  E bem não passa a era, vem à mulher com oito rebentos. E nessa parte ficou o comentário. Eurípedes pouco se lembrou do piano, pois naquele instante era só cansaço, fadiga, lamentos.
Sisenando;
--- Nós tínhamos uma conhecida da minha mãe chamada de Brandolina.  Ora mais que nome! Mas a mulher chegou a falar de uma criada de sua mãe. Essa mulher era “escrava” da família Brandolina. Pra mim era a avó da mulher. Ou coisa assim. Bem! Essa mulher, a avó ou bisavó de Brandolina tinha uma negra. Escrava, portanto. E certa vez essa criada deu à luz a sete meninos, todos eles homens. Foi um verdadeiro clamor para as pessoas da casa. As moças, essas nem se fala. – cotou o homem a gargalhar.
Ceci:
--- Vocês estão com a vida feita e eu vou dormir. Já é tarde. Com pouco amanhece. – falou a mulher se deslocando para o seu quarto.
Eurípedes:
--- E eu vou já, já, pois ainda tem o toque de recolher. – explicou o rapaz olhando a hora.
Nara:
--- Espere! Está faltando alguma coisa: - reclamou a moça.
Eurípedes:
--- Ah. O beijo. Este não falta nunca. – falou o rapaz a beijar a moça.
Sisenando:
--- Homem! Você está com a vida feita e eu vou ver se a minha velha ainda quer um beijo. – gargalhou o velho ao se levantar da poltrona.
No dia seguinte os jornais da Capital estampavam em largas manchetes o fato da mulher. Um dos jornais, por curiosidade do seu fotógrafo, publicou a foto das crianças em incubadora. E na continuação fez um amplo relato da mulher, moradora no interior do Estado. As crianças tinham vida. Na reportagem,  matéria colheu informes com a direção do Hospital sobre as condições da parturiente. Tudo foi feito de uma forma natural e a direção da Casa não se negou em prestar ajuda a mulher, caso viesse a necessitar. Em outra reportagem, o jornal retratou ter de buscar maiores informações onde a parturiente residia, caso para depois. O certo foi esta matéria de ampla circulação ter despertado a curiosidade da população e, de imediato, apareceu ajuda de gente propensa a cuidar das crianças, porque já existiam mais filhos da mesma mãe. Por tal motivo começou a vir ajuda de boa parte da comunidade, principalmente leite em pó. Um comerciante abriu uma conta em uma instituição para se depositar qualquer quantia para ser doada a mãe das oito crianças.  A mulher era de 25 anos de idade tinha o nome de Zuleide da Silva. Era casada com um homem da lavoura e se sustentava com tudo a Deus dará. Uma mulher franzina e aparentava mais idade. Os seis meninos já crescidos eram de quatro anos de idade. E naquele momento a família crescia com mais oito crianças. Políticos fizeram discursos demostrando preocupação com a saúde da mulher e teve alguém a dizer ter sido culpa do Governo.
Político:
--- Este Governo que está aí é o culpado disso tudo! Não olha nem para as mães de família do nosso interior! Isso não pode acontecer no meio do século vinte! – esbravejava o político da oposição Tribuna da Assembleia Legislativa,
Outro:
--- Lá vem bosta! Agora aguente! – falou de modo baixo outro político batendo com um lápis no birô.
Terceiro:
--- E a avó dele que teve vinte e dois filhos? – sorriu outro político.
E nas residências das pessoas soberbas o assunto girava em torno das oito crianças. Eram quatro meninos do sexo masculino e outras quatro do sexo feminino. As donas de  casas, sentadas a trocar conversas até declaravam ser aquilo o fim do mundo.
Senhora:
--- É no que dá! Essas mulheres têm pencas de moleques! Veja se não é descendente de escravas! Veja?! – relatava uma orgulhosa.
Outra:
--- Eu, pra mim, nem me importa. Minha avó teve penca de meninos! – relatava outra a fazer croché
Terceira;
--- Hoje é que a mulher não tem mais de dois filhos! – respondia uma terceira.
Quarta:
--- Minha mãe teve cinco! – retorquiu a quarta mulher gorda.
E o gazeteiro passou oferecendo o jornal da hora com maiores informes sobre a mulher de quatorze filhos, sendo oito naquele momento. E oferecia aos berros; “Olha a história da mulher das catorze crianças”. E misturava com outro palpitante assunto: “Olha a mulher que comia chumbo derretido”; “Olha a história da mulher que bebia gás”, e assim por diante. As matronas apenas escutavam e comentava em murmúrio:
Primeira:
--- Louco! Só pode ser um louco mesmo! – reportava a matrona.
Segunda:
--- Deixa! Ele está oferecendo o que pensa! –sorriu a segunda mulher.
Filha:
--- Ô mãe? Onde foi que a mulher colocou as minhas roupas de baixo? – indagou aborrecida a filha da primeira mulher a se sustentar na porta do casarão.
E tudo se acalmou por um instante. A primeira matrona foi buscar as roupinhas de baixo da filha aborrecida e deixou seu pacote de croché disposto em sua cadeira de vime. O carro do lixo passava em frente à casa colocando inhaca por tudo que era lado. As demais matronas enveredaram casa adentro cuspindo para tudo que era lado. E declaravam:
Segunda:
--- Hoje está podre! – falava com pressa em entrar a outra matrona.
Terceira:
--- Chega! Chega! Chega! – pedia com pressa a outra ao entrar no casarão.
Assim correu o restante da tarde onde todos os habitantes da Capital comentavam o sucedido da mulher de oito filhos. E nada mais. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"NARA" - 35 -

- Britney Spears -
- 35 -
SORRISOS
A menina moça se pôs a sorrir com a cabeça arqueada devido à posição da mesma. Pernas encolhidas, saia comprida cobrindo tudo. Era a donzela a sorrir. O rapaz ficou com bastante ira e a mandou descer de imediato. Ela fez que não apenas com o dedo indicador e sorrindo ainda mais. Salvador desligou o carro e abriu a porta do veiculo para a jovem descer. Ela se fez de mouca com o absurdo do homem. Após alguns segundo Margarida reforçou a sua manhã estirando o braço e pegando a chave dizendo:
Margarida:
--- Ou o senhor me leva ou não sai daqui. Pronto. E eu solto alarme. Todos vêm ver por que. Eu digo que o senhor me deflorou. – respondeu com malícia.
O homem se aborreceu e procurou descer do caminhão. Nesse mesmo instante se lembrou da chave de ignição e reclamou:
Salvador:
--- Passe a chave. Bora! – reclamou com aspereza.
Margarida, então, pôs a chave de partida do carro por dentro do vestido e sorriu de veras. Após colocar a chave a moça disse ao homem:
Margarida;
--- Vem tirar, vem! Duvido! Está escondido em um cantinho! Vem! Vem! – falou o sorriu como que.
O motorista se desesperou e passou alguns minutos da mesma forma. Insensato. Calado. Pensando em alguma forma de buscar a chave. Ele recuou de sair do caminhão e ficou apenas a olhar a moça. Sentado no banco do carro, Salvador abaixou a cabeça escorando na roda da direção e a olhar a garota. E essa estirou as pernas sem parar de sorrir. Os dois ficaram nessa forma por um bom período. O caminhão de recolher ossada de vaca começara a sair. Salvador cumprimentou seu motorista sem ao menos falar. Ele apenas fez um sinal com a mão. Um vaqueiro tangia um garote para dentro do curral e a mulher chegou à porta da frente da casa grande. Ela observou cismado o caminhão de Salvador, porém nada falou, porquanto o carro estava distante. Pássaros voavam de galho em galhos das árvores existentes do sítio. O vento morno não movia folha alguma. O silencio era comum naquela hora, já por volta das dez horas da fazenda. Um cachorro despertou de sua preguiça e latiu a esmo. E depois saiu para outro local a se deitar a contento. A mulher da porta, tinha já entrado sem nada falar. Um garoto veio à casa grande e penetrou correndo. Uma menina saiu de dentro da casa. Ela estava a sorrir talvez por alguma traquinagem. O vaqueiro Tomaz se aproximou do caminhão tanque e perguntou ao motorista:
Tomaz:
--- Algo errado? – indagou com cara enfarruscada.
O motorista despertou de sua inércia e respondeu ao vaqueiro estar tudo certo. Ele estaria fazendo hora para chegar a sua casa onde talvez almoçasse. Água só buscaria à tarde, pois era distante o local. O vaqueiro agradeceu e saiu sem deixar de olhar a frente do carro. Os pneus, com certeza. Um dos pneus já estava “careca”. E o vaqueiro olhou bem para esse pneu. Com certeza dizendo algo de veras.
Tomaz:
--- Murcho. – pensou nisso e de imediato saiu para o curral.
Bodes pinoteavam ao longe em um penhasco existente. E, por fim, Salvador resolveu falar. A moça de pernas estiradas ouviu a conversa mantida com o motorista. E ficou tensa e calada. O motorista falou para Margarida:
Salvador:
--- Eu vou partir. Vamos. Para onde, não sei. Mas vamos. – disse o motorista bastante zangado.
A mocinha ficou a olhar Salvador e de repente retirou do vestido o molho de chaves. Em seguida entregou o molho e se acautelou no recanto escondida. O motorista fez cara feia. E com certo cuidado pegou as chaves e colocou na ignição. Ele deu partida e saiu sem mais nada a falar. Depois de se largar de cercado da fazenda, Margarida, se moendo por conta dos solavancos do caminhão se sentou no banco distante do motorista. Esse olhava à moça e nada falava. E o caminhão seguiu estrada a fora por uma hora ou mais. Destino: Macaíba. No meio do caminho o motorista parou o carro para comprar iguarias e verificar o pneu careca. No pneu, ele deu um chute. E procurou verificar onde havia um quiosque de troca e venda de pneus já em desuso. Salvador indagou de um rapaz qual seria o local.
Rapaz;
--- Bem alí. O senhor não tem erro. – respondeu sem que nem mais.
O homem agradeceu e se pôs a pagar os pacotes de broa e solda. Em seguida, o sertanejo foi a pé até mais a frente para verificar o endereço dado. De onde estava observou a garagem de troca de pneus. De então o rapaz retrocedeu para pegar o seu caminhão e seguir viagem para o local destinado. Ao entrar na cabine procurou à donzela e nem um tico encontrou. Ele voltou a descer do caminhão e foi indagar do rapaz das broas.
Salvador:
--- O senhor viu uma moça que estava no caminhão? – indagou apreensivo.
Rapaz:
--- Foi na casa da dona desse quiosque. – respondeu o rapaz sem se preocupar.
Salvador agradeceu e, com o pacote de broas foi para dentro da cabine a esperar a donzela. Com um pouco mais a moça retornou e entrou na cabine. Ela se sentou e não disse nada. Salvador a olhou como fosse algo estranho, porém nada indagou. Passou marca e o carro saiu até a borracharia. Antes de sair da boleia do caminhão, ele olhou para a donzela sem nada a declarar. Então procurou o homem dos pneus para fazer um trato. E articulou para se por um pneu menos velho no lugar do outro. Era um pneu acanhado. O homem refez de certa forma os sulcos do pneu e trouxe de imediato para colocar no local do velho pneu. Isso demorou uma meia hora. O calor era abafado. Mesmo assim, no local tinham uns pés de árvore. E essas árvores davam um pouco de tranquilidade ao motorista. E ele foi até a cabine e depositou para a moça um pacote de broa.
Salvador:
--- Coma! – disse abusado o homem.
Margarida:
--- O que é isso? – indagou a moça a olhar as broas.
Salvador:
--- É bosta! Coma! – disse com raiva o motorista.
Margarida fez cara feia e tomou de conta o pacote de broa. Depois de cheirar de leve as proas, agarrou de uma e passou a comer com certa cisma. Com o passar dos segundos se acostumou a delícia e passou a comer a vontade. O carro não tinha água de beber e ela, depressa, desceu e pediu um gole na barraca. O rapaz trouxe uma caneca e Margarida agradeceu. Após sorver, entregou a caneca e voltou para a boleia. E Margarida observou o rapaz a fazer troca do pneu do mesmo lado no qual estava sendo na frente do veículo. Todo suado, o mecânico trocou o estepe com rapidez incrível. Depois Margarida notou os dois homens a conversar e deram volta no caminhão. O dono da borracharia mostrou o estrago sofrido por outro pneu de trás. Sandoval concordou e responde ter na volta de trocar esse por outro em melhor forma. Findo o trato, o homem seguiu direto para o setor onde buscaria água para levar a seu destino.
Uma hora da tarde. Foi quando o carro estacionou no local onde brotava água de beber. O rapaz saltou do caminhão e a moça correu para um matagal onde, por certo, teria a cumprir as suas necessidades. O rapaz notou a saída da moça, porém nada declarou. Ele buscou um velho. Esse homem era quem ordenava a por água nos tanques dos caminhões. O velho morava em uma cabana junto com dois filhos. Sandoval queria apenas abastecer o tanque do caminhão. O velho se comprometeu em encher e mando os dois filhos executarem o serviço. Enquanto isso Salvador conversou um tanto com o velho sobre o manifestado nos últimos meses da cidade do Natal, onde até ficou sem água e luz elétrica. O velho disse saber por ouvir dizer a falta de água da capital. Ele mesmo não saiu do seu canto.
Velho:
--- Os rapazes contam histórias da falta de água na Capital. Porém, isso foi apenas uns três dias ou coisa assim. Pra mim, nada significou. Eu até pergunto aos motoristas como andam os negócios da Cidade. E eles me informam que, a despeito de exigir documento para quem vai e para quem volta, anda tudo normal. – falou de monta.
Salvador:
--- Eu fui até a capital buscar água. Mesmo assim não entrei. Fiquei preso na Corrente do outro lado. O pior é que eu mostrei minha carteira de motorista e os militares levaram e não mais trouxeram. Foi uma confusão dos diabos. Eu só vim receber meus documentos quatro dias após de ter sido detido na passagem. – explicou com preocupação.
Velho:
--- É... Mas aqui não veio ninguém pra me perturbar. E viesse, o que poderiam levar eram essas tralhas onde eu durmo. Eu não tenho dinheiro, não tenho saber. E o que me falta agora é uma mulher pra me coçar os dedos dos pés. – e gargalhou o velho
Depois de tanta conversa, Salvador notou a presença de Margarida. A garota voltou assim que pode e ficou sentada em um toco ao lado de Salvador apenas a escutar a história da cidade. Com a mão no queixo, a mocinha também sorria quando o velho contava as suas doidices.

domingo, 7 de abril de 2013

"NARA" - 34 -

- Zooey Deschanel -
- 34 -
CHUVA
Após um mês sem chuva o gado se alimentava com ração. Água, apenas as dos reservatórios. Com os tremores de terra havidos na capital, o caminhão ficou sem poder abastecer como o prometido. Nesse ponto a água estava acabando de vez. Em certas ocasiões o motorista se dirigia ao reservatório de Acari, onde homens estavam a trabalhar na construção de um açude o qual o povo chamava de “Garganta” ou “Gargalheiras”. Salvador jamais procurou saber a razão dessa história. Para o motorista apenas bastava conseguir a água colhida na vertente do açude vindo desde a Paraíba. De outras oportunidades o motorista seguia para mais distante onde um alguém falara haver água abundante. Se conseguisse ele chegar àquele malvado interior encontrava apenas umas cacimbas e o rio seco, apenas servindo para se tirar areia para a construção. O motorista coçava a cabeça, pois nada havia a fazer. Então voltava com o seu caminhão a praguejar bastante.
Salvador:
--- Bosta! Aquele sacana! – era o comentário feito.
Mulher, mocinha, meninos. Uma corriola e tanto a seguir estrada afora. Bem mais para frente seguia o tropeiro. Foice na mão, matulão no ombro, chapéu de vaqueiro à cabeça. Roupa suja de fazer dó. Era a inclemente sina do sertanejo. E o tropeiro seguia distante de sua mulher e de seus maltratados filhos. Para bem dizer: “a filharada”, como profetizava o homem do campo, matuto de coração. Sábio por natureza. De uma leva, oito ou dez. Talvez doze filhos. O matuto não falava. E nem ao menos com o filho mais velho. O mais velho usava uma peixeira a conduzir, disfarçada, embutida em sua cintura. Atrás do primeiro vinha o segundo com um facheiro à mão. E depois desse vinha o restante:  mulher e filhos do tropeiro. A mulher ainda com um rebento ao colo a dar de mamar. Sina maldita a enfrentar o sol e a serra. E Salvador apenas olhava como se nada tivesse a dar aos filhos da Terra. Seu caminhão sem carga d’água era o demais importante. E o motorista seguia célere amaldiçoando o bendito informante.
Vaqueiro:
--- “Lá na aba da serra tem água de fartura” – era disso que lembrava Salvador.
Quando chegava ao posto de combustível da cidade de Santa Cruz, Salvador abastecia o seu veículo. Pagamento só depois de resolver certos problemas da carga. Meia hora: e Salvador estava no destino: a fazenda “Boqueirão” do “doutor” Amaro Borba, homem forte e experiente no labor de sempre. Nesse instante, o “doutor” não estava na fazenda. Apenas os vaqueiros. E Salvador saltou do carro. Em seguida procurou saber onde “andava” o vaqueiro Tomaz. Logo ficou sabendo:
Informante:
--- Ali – dizia o vaqueiro esticando o beiço de baixo.
A virgem Margarida estava à porta de trás da casa grande como sempre a sorrir ao motorista. Esse, por sua vez fez um sinal de “olá”  nada mais. E assim  perambulou a procura de Tomaz. Esse vaqueiro era o que entendia de tudo ou mais e estava a dar ordens aos outros aprendizes de vaqueiro. Sol azedo e causticante. Uma semana antes, o tempo se preparou e choveu grosso. Mesmo assim foi chuva de pouco tempo. Relâmpagos e trovões não assustaram o gado restante. Carcaça de vaca se via a granel. Outro caminhão estava pronto para se recolher todo entulho e conduzir para um local deveras não sabido. Apenas o segundo motorista conhecia para onde caminhava.
Caminhoneiro:
--- Fazer comida para o gado. – era o que informava.
O motorista Salvador com o olhar descrente apenas comentou a situação da capital onde havia a exigência de se mostrar documentos indo e voltando. Era a lei impiedosa a vigorar depois do tremor. Com isso, o homem ficou certa vez no bloqueio da “Corrente” um posto aduaneiro existente da região por quase uma semana. Ele entregou os documentos de motorista e os Militares levaram e, com certeza, se esqueceram de devolver. E eram muitos os motoristas de estrada a ficarem retidos na entrada da “Corrente”. Os de fora faziam comida para todos. Salvador não tinha comida. E também se satisfazia com o pouco de alimento a ser dado pelo caminheiro viajante. Mercadorias a granel. As frutas se estragavam de muito. O tremor de terra deixara os motoristas apavorados com tal situação. Alguns motoristas se escondiam por baixo das suas carretas se podiam ser chamadas assim, por seu tamanho bem acima do normal. O caminhão a óleo cru era o gigante da fila. O carro trafegava devagar na sua saída e pegava velocidade na sua continuação. O veículo era um “monstro” e levava em cima da carreta um trator também gigante. Salvador procurou ver de perto o “colosso” da estrada para contar de fato aos demais companheiros ausentes. De dia ou de noite eram jogadas conversas a toa. Negócios da Cidade, principalmente. Uma parede de uma residência ruiu colhendo três mocinhas, sendo uma ainda pequena. Isso, no tempo dos sismos. Foi deveras o que mais o impressionou. Outros acidentes ocorridos também deixaram vitimas, algumas com defeitos permanentes. Com o jogo das conversas Salvador foi se inteirando do havido naqueles dias sombrios na Capital do Estado. Não foi sem espanto aquilo tudo o dito por um motorista:
Motorista:
--- O rapaz ficou apenas com metade do seu corpo. Pernas ficaram com defeitos permanentes. É um caso horroroso. Ele anda com os quartos para cima. E só anda de quatro pés. Se pode chamar aquilo de pé. – dizia o motorista cheio de agonia.
O rapaz ouvia tudo o que se contava a respeito do fabuloso estrondo. Essa história durou mais de quatro dias quando então Salvador pegou a rota de voltar para o seu destino de saída. O comentário de aleijo do garoto foi impressionante para o motorista. Não raro, a noite, quando dormia, ele acordava de repente parecendo ver o rapaz a andar com suas pernas aleijadas. E nesse ponto Salvador não conseguia dormir nem um pouco. E nesse estado de coisas o comentário mudou de aspecto quando ele teve de perguntar ao vaqueiro.
Tomaz:
--- O patrão esteve na fazenda durante dois dias. – comentou.
Salvador:
--- É pra trazer água? – perguntou.
Tomaz:
--- Homem! Seu menino! O caso é que não tem mais água no reservatório. – coçou a cabeça e a cara se encheu de rugas.
Salvador:
--- Tenho de apanhar em uma lagoa perto da cidade de Macaíba. Longe pra seiscentos diabos. – reclamou de monta.
Tomaz:
--- Eu não conheço nada para aquelas bandas! É longe assim? – indagou com cisma.
Salvador:
--- Mas. Ora se. Nem estrada tem. Só caminho. Agora, tem água de monta. O negócio é puxar para dentro do tanque. -  lamentou.
Tomaz:
--- E tem quem puxe? – indagou.
Salvador:
--- Tem uns “bonecos” que enchem. – declarou.
Tomaz:
--- Então vá! – respondeu.
Salvador:
--- E as merrecas? – quis saber.
Tomaz:
--- Custa muito? – perguntou.
Salvador:
--- Pouco mais! – deu de fé.
Tomaz:
--- Muito mesmo? – inquietou-se.
Salvador:
--- Pra quem tem? – sorriu sem querer.
Após tanta conversa Salvador pegou o rumo. Quando o homem ligava o motor do caminhão notou a presença de modo acocorado da mocinha Margarida. Nesse ponto o rapaz se recolheu e foi à pergunta bastante assombrado:
Salvador:
--- Que estás fazendo aqui acocorada? – indagou com bastante temor.
Margarida:
--- Vou também. – sorriu a menina moça encolhida em baixo da boleia.
Salvador:
--- Aqui? – indagou espantado.

sábado, 6 de abril de 2013

"NARA" - 33 -

- Letícia Spiller -
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FOGO
O fogo irrompeu solene tomando conta dos antigos prédios do bairro da Ribeira onde havia o maior movimento de importação de artigos para firmas locais. Bebidas, comidas, vestuário, perfumaria, livros e tantos mais eram destruídos pelo fogo. A cidade não tinha Corpo de Bombeiros e foi preciso solicitar à Base Aérea de Parnamirim e à Marinha. Esses grupos tinham seus equipamentos contra incêndio, inclusive a Marinha podia ceder às fragatas cujo domínio para o fogo era bem maior do que os caminhões tanques da Base Aérea e não era preciso o seu reabastecimento, pois o tremor de terra deu lugar a um maior volume de água vindo do largo Oceano a se encontrar em pleno rio Potengí. A  calamidade tomou conta da cidade com pessoas a se dividir entre as suas casas e as firmas estabelecidas naquele bairro. Não se podia sequer adivinhar como poder resolver alguma causa existente. Ainda mais era o fogo a irromper contra tudo e todos. Fogo. Monstruoso fogo. Inominável fogo. Tudo isso era o formidável caos. Quem morasse no alto de Petrópolis poderia ver a catástrofe cruel do romper das chamas. Porém, nem esses moradores poderiam atentar para o crucial fenômeno. Isso porque a terra tremia a todo o momento. E esse povo corria em desordem a buscar ajuda de alguém. Alguém que não havia então. E todo isso era a desordem eterna. Águas e chamas ardentes por demais cantos da cidade.
Criança:
--- MÃE! – gritava de horror uma criança.
Mãe:
--- Meu filho! Meu filho! – era o pedido de socorro de uma mãe.
E tudo acontecia a um só tempo. Fogo e água. Terra a tremer revoltosa. Só havia a tempestade da morte iminente. Os médicos desapareceram da cidade de um jeito horrendo, salvo um deles: o doutor Eurípedes. A sua noiva, Nara, era uma enfermeira de improviso a cuidar de centenas de doentes na Igreja de Santo Antônio. E por outros lados, nos bairros mais afastados era o povo a procura de abrigo em qualquer local existente.
Indigente:
--- Socorro! É a morte! – era o grito a se ouvir de um desesperado.
A correria era tamanha a qual ninguém mais se entendia. Enquanto o morro estrondava o povo corria ao desespero. Muita gente. Toda a gente. Não havia alarme a poder soar. A luz faltou naquele instante. E ninguém sabia a razão. A manhã de terror era impressionante. A plena tragédia do acaso. E isso era só o sabido em uma cidade ainda pequena.
Alguém:
--- A luz! A luz! – gritavam as pessoas a um só tempo.
E com tudo isso não se podia ter nem a noção do acontecido. A formidável desordem a se alastrar tão de repente era a tormenta inglória. Já não havia governo ou desgoverno. Havia apenas o caos.  Uns pisando os outros ao cair ao solo. A morte inglória. Era tudo isso a razão do sismo cruel. O terror do inferno. Tudo era o último instante da verdade eterna. Nada restava para acalmar o sentido da razão inominável. Todas as cortinas derribavam-se de uma derradeira tragédia. O caos. O iminente caos do dorido drama.  
Os ratos do amanhecer roubavam o encontrado nas prateleiras dos mercados. Tudo os ratos queriam para si. Nada restava nos entulhos formados depois de se assaltar as partes onde estavam as comidas. Tudo os ratos consumiam. Era uma inominável e vertiginosa crueldade diante do acontecido. Vibrava o solo e por cima de tudo os ratos cruéis devoravam o restante. Pandemônio total. Cruel desespero. Entre gente mortalmente caída ao solo, os ratos corriam céleres vomitando risadas diante da calamidade bárbara. Não havia policiamento capaz de empatar a ação dos marginais ratos cruéis. O espanto audaz era a melhor ferramenta para os truculentos ratos. Entre a mistura de cães e gatos estava então os ratos. Cruéis e imbatíveis ratos de ocorrências terríveis. Rocas ou Quintas. Tirol ou Cidade. Em qualquer parte do mundo de Natal era tomada pelos sauiás a correr vertiginosos a busca toda sorte de alimentos ou de outras qualquer ocorrências. Eles eram os cruéis torós de uma cidade devastada.  E sem norte nem meios estava o povo a mendigar ajuda. Era mesmo o povo de poder aquisitivo. Os magros indigentes, desses nem se havia noticia. Eles eram os escanelados carentes.
Em um dado instante apareceu à lei. Pelotões de soldados armados de fuzis e metralhadoras abriram fogo a todo custo contra as ratazanas dos mercados de Natal. Era a tropa de Choque da Aeronáutica de dos Quarteis do Exército. E em cada esquina onde podiam estar os Pelotões de Choque a tropa abriu fogo contra os horríveis guabirus sedentos por saquear alimentos. E quem estivesse contra as Tropas, esse também era aniquilado sem dó nem piedade. A questão era:
Comando:
--- Acabem com os ratos. E quem for contra a ação da Tropa, essa deve acabar também. Eles são um bando de cachorros. – declarou enfurecido o comandante da Força Aérea.
Com o passar das horas, o fogo que se alastrou no bairro da Ribeira foi sufocado com a ajuda de uma corveta da Marinha levando a água do rio em tubos gigantes até os pontos destinados. E a ajuda aconteceu com efetivos da Aeronáutica com apoio da Polícia Militar sob o comando de um general do Exercito. A calma voltou a reinar do Hospital Miguel Couto depois de cinco dias de terror. O doutor Eurípedes estava exausto de tanto operar crianças e adultos com a ajuda de uma enfermeira da cidade e mais a ação de Nara, a sua noiva. Os abalos cessaram por completo e as águas do mar voltaram ao seu normal. Apenas se registava danos e prejuízos provocados pelo terremoto do inicio da semana. À volta a casa de Nara, o médico com a cabeça ainda em pânico pode verificar a extinção dos danos provocados. Uma noticia com atraso: o toque de recolher foi decretado no terceiro dia do Terremoto. O Comando Geral do Exército determinou estado de emergência na Capital e os postos de saída de caminhões e carros passaram a ser inspecionado por patrulhas do Exército. O Comando Geral designou a Polícia Militar do Estado a verificar todas as pessoas com mais de 18 anos e menos de 60 anos de idade para conferir de onde vinham a para onde iam a qualquer hora do dia ou da noite. De modo geral o estado de emergência era mais um “estado de sítio” em Natal. Um veículo foi aprisionado quando os seus ocupantes dirigiam de forma suspeita. Além desse, outros veículos tiveram a mesma sorte e seus ocupantes foram mandados para um dos Quarteis da Capital onde ficaram detidos até segunda ordem. As pessoas humildes pediam “licença” ao cruzar com um militar de qualquer farda. Em um arruado da chamada Rua do Motor, em Petrópolis havia um veículo descaracterizado a postar guarda para quem quisesse passar no local. Houve falta de água e as torneiras ficaram apenas fazendo um barulho comum  em todas as residências desabastecidas. A luz elétrica voltou a ter fornecimento três dias após o terremoto da segunda-feira. Não houve explicação a respeito da falta de energia. Os incêndios das casas de comércio do bairro da Ribeira, cinco dias após o sismo ainda estavam sendo postos em rescaldos. O Forte dos Reis Magos foi posto em ruínas. A praia da Redinha era apenas uma trágica memoria. Nessa altura dos acontecimentos as praias de Areia Preta e Ponta Negra não sofreram coisa nenhuma com cheia do mar revolto ficando apenas o sismo instigante.
Um mês depois ainda se contava o prejuízo causado à cidade. Na residência de Nara, um pedreiro e seus dois ajudantes procuravam refazer à frente da casa. O veículo de Eurípedes continuava em uma oficina para o conserto das avarias. Outros veículos também estavam em igual situação. As palafitas sobre o rio Potengi, essas foram arrastada do local desde a primeira maré alta. O Teatro “Carlos Gomes” entrou em processo de reforma geral. Não era prevista nenhuma data para se entregar o serviço concluído. O maior Hotel de Natal, o Grande Hotel, tornou-se o magnífico império do desprezo. Casas de tecidos, joalherias, sapatarias, bebidas e maquinarias cuidavam de repor seus estoques em ordem um mês depois da tragédia vinda do solo. Não houve loja de menos nem mais sacrificada. Todas as firmas do bairro sofreram por igual, salvo as que foram destruídas por incêndios. Essas perderam tudo e ficaram apenas os esqueletos das trágicas lembranças de um passado.
O médico Eurípedes Castro estava no seu trabalho todas as tardes. Na parte da manhã, sempre se encontrava em casa de Nara, sua noiva. À noite, quando não tinha serviço, o jovem estava com Nara a discutir os preparos para as suas núpcias ou para trocar ideias sobre música. Às vezes se ouvia o rapaz teclar ao piano, isso depois de ser consertada a parede frontal da residência. O professor França já estava a lecionar aos dois enamorados depois parar por algum tempo. O pai de Nara voltou às atividades normais quando foram feitos os reparos nas maquinarias. À noite, quando não estava a dormir, o senhor Sisenando se punha a conversar com o rapaz sobre os efeitos do abalo sísmico. Com o passar dos dias se chegou aos informes ter sido o fenômeno de 7,8 graus sendo o mais forte por atingir em uma região a menos de 180 quilômetros onde havia placas tectônicas.
Sisenando:
--- Nós estamos em uma zona de perigo. – comentou o homem com bastante tensão.
Eurípedes:
--- Eu admito. Pouco após o mar ter se arrastado, depois veio com enorme fúria devastando grande parte da orla da capital. - arrematou por cima o médico.
Cecí:
--- Café? Está quente! – ofereceu a mulher.
Nara:
--- Até que é bom. Só assim se fala menos na tragédia – replicou a moça.
E por então a questão silenciou de tudo. O rapaz retirou a manta que cobria as teclas o piano e entoou uma leve melodia. Uma valsa por nome de “Cortina de Veludo”, magnífica desses tempos. O velho ouviu bem a melodia para no fim confabular algo:
Sisenando:
--- Essa melodia é muito forte. – comentou o homem.
Eurípedes;
--- Como assim? – indagou o moço.