sábado, 23 de março de 2013

"NARA" - 25 -

- Emma Watson -
- 25 -
COMOÇÃO
Às nove horas do sábado chegou à residência de Nara o médico Eurípedes junto com o professor França numa brutal coincidência. O rapaz ainda estava “tonto” de sono, pois não dormira hora alguma na noite/madrugada da sexta e sábado. Eurípedes cumprimentou o professor dizendo ainda estar “morrendo” de sono. E falou sobre o acidente com a população de Areia Preta e Praia do Meio e não falando sobre os casos havidos de Redinha e Ponta Negra pois eram fatos do mesmo gênero e ele nem sabia de tudo.
Eurípedes;
--- Foi uma comoção terrível o sucedido. Ainda hoje estão chegando vítimas do desastre. – comento o médico sobre o desastre de Areia Preta.
França:
--- Na verdade foi coisa muito triste. Eu não quis nem ir ao local. Aqui mesmo no rio tem fatos semelhantes. – ressaltou o professor.
O homem médico ficou surpreso com o informe e quis saber de qual rio o professor falava e apontou com seu dedo polegar a franzir a testa.
Eurípedes:
--- Rio? – indagou o médico franzindo a testa.
França:
--- Sim. Nesse rio Potengi. As Palafitas foram tragadas pela maré e até mesmo os batelões foram atirados do rio sobre os trilhos do trem. Por isso não há passagem alguma de trem. E tem mais: houve maré alta na Redinha, Aldeia Velha e se fala também de onda gigante em Ponta Negra. Eu não sei. ....Mas isso é o fim....- falou o professor de modo angustiado.
Eurípedes:
--- Na verdade, é uma angustiante comoção. Eu fiquei a noite toda no Hospital e não tive a oportunidade de saber quem era qual. Eu só fazia era atender. Apenas gente moradora da rua de baixo é que eu soube. – falou com leve amargura o médico ao se referir a Rua do Motor.
Ao chegar a porta da residência de Nara, o médico já a encontrou com o leve sorriso na face e a tensão de estar muito preocupada com o acontecido  na noite passada. Após cumprimentar o professor França e dar um beijo no rosto do rapaz Eurípedes, a moça foi logo a afirmar ter um dia triste para quem teria de saber algo tão peculiar como era a música. Afinal, todos estavam comovidos com a triste situação conflitante a afetar a cidade naquela manhã de sol tão forte. Ao ser a moça indagada pela presença do homem da casa, o senhor Sisenando, o professor ficou sabendo ter o mesmo saído, com certeza para ver de perto o havido na Praia de Areia Preta, o ponto de maior alcance do maremoto.
Nara:
--- Eu acho que meu pai foi ver de perto o que houve em Areia Preta. – relatou a moça um pouco recolhida em suas emoções.
Nesse momento, o médico procurou ver o restante da casa como quem desejava saber da presença de dona Ceci e a moça percebeu. Em seguida relatou a seu amigo ter dona Ceci saído para a Igreja para assistir  a Santa Missa. . E o rapaz agradeceu a dizer ter a necessidade de ir ao banheiro. A moça ofereceu o local e indagou se o jovem queria trocar de roupa. Eurípedes sorriu e disse já ter passado em sua casa e fez o apropriado. De passagem o médico apenas olhou para o berço e lá estava a brincar com ele mesmo o menino Neto a fazer gestos no rosto já demonstrando traquinagem de infância. Euripedes retribuiu a afeição fazendo o mesmo em troca.
De volta do banheiro, onde Eurípedes foi passar água no rosto para ver se retirava um pouco do sono da noite. Ele encontrou o professor França já a verificar Nara com o seu violão. Ela argumentava já saber tocar de muito tempo e, com certeza, lia os acordes com maestria, pois nas revistas de música estavam as notas em cifras. E Nara podia entender muito bem. Com relação ao piano, Nara reportou por fim ter sido ensinada de há muito pelo seu avô, o também professor Melquíades, o qual mantinha um piano em sua casa de residência.  Então de vez o professor França falou ter sido aluno do professor Melquíades já há muito tempo. E sorrio.
França:
--- A senhora é neta do professor Melquíades? Pois o professor foi meu Mestre. – sorriu França
Nara:
--- Ele lecionou há muita gente. Eu não sei a quem porque eu era ainda pequenina. – sorriu com certo temor.
Eurípedes:
--- Nara havia me falado do seu avô. Ela é quem merece estudar o piano, pois saber, ela já sabe e não custa nada em saber mais. – destacou o médico
França:
--- É preciso saber o seu estilo de música também. – falou o professor se dirigindo ao médico
Eurípedes:
--- Eu não venho ao caso. Nove anos. Eu já teria quase quarenta anos para me diplomar. Agora, ela merece aprender. Mesmo que não seja em uma escola. – sorriu o rapaz a enxugar a face com um lenço. E espirrou em seguida.
França:
--- Sim. Mas como vocês (dois) pretendem tocarem juntos eu preciso saber o seu grau de aprendizado. – sorriu o professor.
Eurípedes:
--- Eu toco de “ouvido”. Qualquer música. Em tenho agora. .... Há algum tempo. ... Algo composto por  George Gershwin: Rapsódia em Blue. ...São dezesseis minutos. Gostaria de ouvi-la? – indagou o médico.
França:
--- Seria bom. Comece. – sorriu o professor.
Na verdade, a composição musical datava de 1924, escrita para piano por George Gershwin com adaptação para jazz. Era uma combinação de música clássica com influencia do jazz. E com precisão o músico de “ouvido” começou a tocar ao piano a Rapsódia em Blue, música divinal para todos os seus expectadores no tempo não muito raro onde o piano era verdadeira magia de esmero. E começou Eurípedes a desempenhar a melodia em um tom virtuoso sem meios para por orquestras e outros mecanismos de influencia. O jazz era um momento de retoque quando tudo silenciava então. Mas o exímio mestre não precisava de algo mais, nem mesmo uma habilidosa orquestra sinfônica. O mundo passava lento pela mente do eminente poeta do teclado a cada passo a se incidir. Tudo soava como pássaros canoros gorjeando com virtuosa majestade. Não raro o toque ao piano se assemelhava a dileta combinação de um maravilhoso senhor de uma filarmônica. Em seu local de ouvinte, o professor França nada fazia deixando o rapaz a executar com precisão a melodia imortal até soar o seu final. E quanto o executor concluiu a sua excelente e virtuosa melodia Nara chorou de todo o contentamento. França apenas disse:
França:
--- Ótimo meu senhor. Ótimo. – profetizou o professor
Nara:
--- Dê-me um abraço forte –(de enfeitiçar minh’alma) – relatou a moça com os braços abertos.
Esse termo ela pensou, mas não falou de veras. O rapaz ficou acabrunhado com tal pedido e o admirar do ilustre professor. Eurípedes sabia com esmero tocar piano. No entanto nunca ele teceu comentário a esse respeito. Apenas, ele se recolhia em seu piano quando podia e tinha tempo e experimentava os acordes delirantes de melodias antigas ou não, clássicas talvez. Quase sempre a família o ouvia tocar com momento de maestria. Euripedes se escondia desse mundo a ouvir certa canção e sempre mantinha com salutar ensejo o melhor do seu empenho. Rapsódia em Blue o médico escutou a tal melodia  e decorou seus sublimes acordes. Em seguida começou Eurípedes a ensaiar esses momentos de muita ternura. A Rapsódia era fusão da música afro-americana com música clássica. Disso o médico bem sabia até demais. Mesmo assim, para Eurípedes não se importava nos estudos da música nem ao menos se envolvia em saber ler a grafia sonora da caligrafia musical.  Nesse momento, ainda aturdido por ter feito uma bela melodia ele nem mesmo observou o pedido da sua amiga e foi até ela e se abraçou como se nada acontecesse. Apenas a música soava em seus ouvidos. O homem abraçou a moça como fazia a qualquer um e nem mesmo sentiu a esperança de algo mais. Por sua vez, o professor França veio também a se abraçar com o médico afirmando ter o mesmo o ensino musical dentro do seu espirito. Aquilo que lhe faltava era um simples diploma e nada mais. Foi o que disse o mestre França.
França:
--- Meu amigo você é um exímio instrumentista ao piano. Na verdade um diploma é um simples documento do que alguém faz ou aprende. Seria importante você ter em mente as notas musicais, pois assim seria mais fácil de recitar as peças. Eu lembro demais de tantos alunos que eu tive e ensinei. Mesmo assim, hoje eu vejo largados pela rua a declamar poesia sem saber o que fazem. Meus parabéns meu amigo. Parabéns e um forte abraço. - confessou o mestre Carlos França.
Nara ainda estava agarrada à mão do rapaz a olhar o professor e a sorrir sobremaneira para Eurípedes sem saber ao certo a razão de seus sorrisos. Nara apenas sorria cheia de comoção.
 

sexta-feira, 22 de março de 2013

"NARA" - 24 -

- Nicole Kidman -
- 24 -
PATÉTICO
De igual forma, o caso de Areia Preta era patético. Os técnicos já estavam no local da tragédia desde o começo da noite da sexta feira alocando todo empenho para ter a possibilidade de salvar alguém, mesmo sendo uma criança ou um ancião. O efetivo da Aeronáutica já desistira de encontrar os destroços do avião de carga acidentado no local mais para dentro do mar. O Exército mantinha proteção às casas ainda existentes. Outro repórter chegara ao local do episódio procurando saber as novidades de se encontrar algum sobrevivente. E foi o repórter mais além onde estava sentada na areia do morro, a chorar desesperada, uma mulher ainda moça e a indagar serena:
Mulher;
--- Por que meu Deus? Por quê? Eu não te disse amor? – lamentava a mulher a chorar com suas mãos a encobrir seu rosto.
O repórter se acocorou próximo à mulher e não pode indagar por quem a pobre senhora chorava tanto, pois o homem percebeu ser por alguém querido. A manhã era de calma com vento morno a correr a vasta amplitude do local em uma manhã logo cedo. Dezenas de pessoas vindas de vários bairros da cidade se aglomeravam para ver os estragos provocados pelo maremoto. Cada um comentava quanta tragédia ocorria a um só instante em um lugar como Natal e arrabaldes. A Polícia já estava mobilizada para obstruir a passagem de gente enquanto os engenheiros em meio a tantos caos vasculhavam os escombros dos casebres de taipa. A cada instante era um momento de desvanecimento para os técnicos. Apesar das urgentes ordens os trabalhadores nada encontravam com vida a não ser um cachorrinho preso entre as armações de madeiras de um dos casebres. Do casebre já não existia coisa alguma. Apenas varas e telhas amontoadas pelo chão molhado.  Um fotógrafo de jornal se ambientou por dentro do mar tranquilo e fez as suas fotos antes de ser impedido pela Policia no lugar. O repórter já estava a vasculhar por entre a gente a procura de informações precisas. E o fotografo veio a lhe dizer estar o Bonde ainda encalhado no seu ponto final.
Fotógrafo:
--- Você viu o Bonde? Está lá em cima como sendo atolado. Foi falta de energia. Os eletricistas estão a buscar meios de soerguerem os postes. Veja! – apontou o fotografo para o repórter.
Canindé era o seu nome. O repórter era conhecido apenas por Vicente. E ambos trocaram informações obtidas. Uma alpargata foi encontrada no local do desastre além de outras vestimentas de crianças e adultos. Panelas de ágata eram achadas em meio a caos de potes de barro. Um guarda louça, uma estante de se guardar víveres; uma mesa de cozinha feita aos pedaços; bancos, tamboretes, baldes e mesmo utensílios domésticos. Era um mundo todo a ser recolhido pelas equipes de resgate O fotógrafo Canindé se esgueirando entre escombros de forma lenta como lhe foi possível fez as fotos de objetos de casa e até mesmo de um cão a grunhir como se estivesse morrendo de frio. Esse cão foi bem aceito por um policial o levando para a sua casa, provavelmente. Depois de insistentes apelos feitos pela reportagem, foi obtida autorização de se fazer matéria de mais próximas dos escombros  dos outrora casebres caídos.       Homens buscavam encontrar por entre pedras do mar algum vestígio de pessoas mortas pela onda gigante. Sabia-se de antemão ser possível se encontrar os corpos dos indigentes mortos apenas com três dias depois de afogamento. Mesmo assim, não se poupou esforços de poder se encontrar as vítimas. O número era devastador: dezesseis pessoas pereceram por toda a redondeza do ataque mortal da onda gigante.
Gente de fora também ajudou no empenho de se encontrar corpos de mortos. A ajuda era imperativa para aquela indigesta situação. Houve vítimas nas praias de Ponta Negra, Redinha, nas Palafitas do rio Potengi e, principalmente na Praia de Areia Preta onde o mar em tudo mais foi mais bravo. Os depoimentos colhidos de parte da população moradora no alto do morro davam em conta ter o acontecido com uma seca vertiginosa da maré onde se podia chegar a chão aberto mesmo a pé. Em poucos instantes houve a reversão e uma gigante onda se formou, vindo de repente e se abateu sobre as casas de taipa dos moradores. Foi tudo tão rápido que não se pode nem mesmo sentir o estado da tragédia. Ao tempo em que se consertava a posteação de energia elétrica, o qual levaria bom tempo a mais, os técnicos e operadores  seguiam no conserto das linhas de transmissão.  Na Rua do Motor, onde a situação era bem séria, outras equipes trabalhavam com afinco a desobstruir a rua e procurar vítimas nas partes mais baixas da artéria. No local por igual havia casas de palha e de taipa. Esses casebres foram destruídos por completo e os seus moradores igualmente foram mortos pela onda do mar. Naquele local ainda de poucas moradias à frente do Oceano, foi fácil se invadir as taperas, pois o mar carregado se introduzia pela parte de trás das taperas. Na Redinha não foi tão grave assim. Porém, nas Palafitas a ficarem próximas da Feira do Paço da Pátria a situação era grave uma vez ter o rio destruído todas  as moradias à sua margem. A linha férrea nesse trecho ficou bloqueada por conta das moradias derrubadas. Na parte final da Estrada de Ferro era muito mais grave a situação. Batelões foram sacudidos na linha do trem como brinquedo de crianças.
Transeunte:
--- É um horror uma coisa dessas! Não tem quem tome providencias? – gritava do alto da rua um morador.
Outro:
--- Tem jeito não! Só Deus é que pode! – argumentou uma anciã ao passar na rua de cima.
Outro-2
--- Não é tempo de eleição! – argumentou um moço a sorrir.
No Tirol e na Cidade Alta podiam-se ver as pessoas mais afortunadas a recolher donativos para prestar socorro às vítimas do maremoto. Houve campanha acirrada por parte de mulheres influentes e escolheram até mesmo a Casa do Governador, na Praça Pedro Velho para fazer a entrega do arrecadado por parte de pessoas  mais simples. Isso aconteceu no primeiro dia da tragédia. Havia um reboliço enorme de gente a colher as doações em víveres e não faltava algum político a discursar para o povo em torno do clamor das vítimas das águas. Um rapaz declarou na ocasião:
Rapaz:
--- Vai trabalhar vagabundo! – falou o rapaz alto e bom som.
Logo cedo do dia quando todos ainda estavam por chegar à trágica invasão do mar foi o tema a ser discutido entre o pessoal do Mercado Público da Cidade. Cada um dizia a sua história. E foi simplesmente um caos. Na freguesia do café alguém falava.
Freguês:
--- Menino! Estou por ver! Uma onda gigante veio de mar a fora e comeu tudo pela frente! – comentou um freguês.
Outro:
--- Eu estava em casa quando minha filha gritou: “Pai! Olha o mar”! E foi aquele desastre! – enfatizou outro.
Mais:
--- Eu estava dormindo na hora. Acordei com o barulho todo! – relatou outro mais.
E Mais;
--- E não teve jeito? – indagou assombrado o indagador.
O Bonde de Petrópolis começou a transitar às primeiras horas da tarde quando os eletricistas terminaram o trabalho na altura da Avenida Atlântica. No restante a posteação a levar a praia o serviço continuavam por mais horas. Carros de todas as espécies se deslocaram à praia e os locais mais afetados pela onda gigante. E cada qual se admirava com a tragédia ocorrida na noite de sexta feira. Um homem de maiores posses olhou em volta do morro e aventurou dizer ser aquele local propício para uma bela construção.
Homem:
--- Eu vou até falar com um engenheiro meu amigo. – disse o homem na aventura de fazer um sobrado no local onde não havia casas por sinal.
O local era o alto do morro aonde maré não chegaria tão cedo. A sua mulher  estava com ele e se aborreceu sobremaneira.
Mulher:
--- Você veio ver a tragédia ou ver as terras devolutas daqui? – indagou de modo malcriado a mulher.
Meninos vendiam sorvete àquela hora da manhã passando ao alto a oferecer sua delícia. Outro rapaz oferecia puxa-puxa. Alguém mais era mais prudente carregando em seu caçuá peixes grandes pescados há bem pouco tempo. Uma mulher tirou o oficio da bolsa e começou a rezar para as vítimas. Em baixo, nos locais onde a onda avançou estavam os homens a trabalhar como se nada de mais  existisse para ser feito. Apenas se ouvia os gritos de pessoas a lamentar o acontecido. Um senhor admitia ter o Bonde feito o seu trajeto até o ponto onde ainda estava o resto do seu local de virar a lança.
Professor:
--- Foi mesmo alí que o bonde virava a lança. - argumentou o velho professor.
Ouvinte:
--- E por que saiu de lá? – indagou o curioso.
Professor:
--- Bem!. O tempo se encarregou de levar o Bonde até o trecho lá em cima, pois havia maior tranquilidade. – relatou o homem apontando para o novo trecho do Bonde.
 

quinta-feira, 21 de março de 2013

"NARA" - 23 -

- Katie Holmes -
- 23 -
SANTA CRUZ
Ainda na tarde de sexta-feira seu Amaro Borba, depois do almoço, foi com os três criadores de gado mais o vaqueiro José Tomaz até a cidade de Santa Cruz procurar um caminhão para levar água para as fazendas. Seu Amaro suava por todos os poros apesar de o seu carro desenvolver boa marcha nos aceiros da estrada a caminho do município. O vaqueiro foi no banco da frente e os três cavaleiros logo atrás. Nenhum dos que estavam no carro chegou nem mesmo a puxar conversa. O sol escaldante dava vontade a seu Amaro de meter um pau no seu automóvel, pois o homem estava irado com todas as coisas a se passar. Vaqueiros transitavam pelo caminho para um lado e para outro. Uma mulher com uma trocha na cabeça e uma corriola de filhos a reboque. Se bem podia olhar, o homem, pai das crianças seguia na frente com uma foice do ombro segurada no cabo. Na ponta do cabo havia outra pequena trocha de alguma coisa qualquer talvez comida  - rapadura e farinha – ou coisa assim. Um facheiro servia à noite para alumiar o caminho. E o homem levava suspenso pela mão direita. Uma tosse rouca deixava a impressão de ter o homem cerca de 40 anos de idade.  Mas a fisionomia era de mais de 50 anos. Ninguém, no carro notava esse bebeu do deserto  não ser o outro vaqueiro que seguia ao lado de seu Amaro Borba. E ele até pensou no homem:
Tomaz:
--- “Lá vai Zé do Patrocínio e sua corriola”. – pensou José Tomar ao ver o grupo de pessoas.
No seu caminhar de veículo, José Tomaz estava repleto de dúvidas. Era ele sozinho, enquanto seus amigos e companheiros caminhavam desconsolados por causa da seca no sertão. No interior do veículo onde Tomaz viajava estavam os três criadores de gado e nada diziam a respeito do homem do sertão a caminhar a pé. Enfim, essa era a sina do sertanejo: ou capanga ou mendigo. Um caminhão rumava para o sul do país lotado de “retirantes” onde procurariam nova vida para se sustentar e a sua família alí  presente. Tomaz viu ainda uma menina sob a cobertura de lona do caminhão a dar adeus para os que ficaram para trás.  Era a sina dos derradeiros mendigos do sertão nordestino a procura de um novo progresso a estar ao Deus dará em terras distantes. E o automóvel rumava sereno para a pequena cidade de Santa Cruz aonde progresso não chegara. Mato seco de pobreza e  gente miúda a correr pelo encosto da estrada de barro. Na cidade grande os garotos podiam se safar a vender arroz doce e pirulito para manter a casa e seus irmãos. Para a garotada, o estudo não existia. Apenas carregadores de mercadorias das casas de gente nobre. Os homens ilustres se preocupavam com a vida do gado. Esse negócio deixava totalmente aturdido José Tomaz onde o desgosto incomodava de sobremaneira. A pobreza atacava mais de um milhão de seres humanos em todo o nordeste. E Tomaz, acostumado às agruras da vida de morte sentiu comoção e chorou com toda aquela desgraça.
O carro estacionou na praça onde havia alguns “retirantes” ainda a espera de um chamado de alguém. Do veículo saltaram os cinco homens e logo Amaro Borba indagou de um motorista a arrastar seu pé por cima a areia escaldante;
Amaro:
--- Como se consegue água boa da cidade para levar a uma fazenda? – indagou o homem após os cumprimentos iniciais.
O motorista segurou m seu caminhão de transporte de água e indagou de quantas viagens precisava seu Amaro.
Motorista:
--- De quantas viagens o patrão precisa? – indagou o caminheiro a palitar os dentes.
Amaro:
--- Aqui você tem quatro criadores. Se bem eu penso, tantas carradas diárias para contentar o gado que ainda resta. – falou com muito vagar o homem.
Motorista:
--- Quatro criadores? Isso vai precisar de mais carros. Aqui eu tenho dois. Tenho que arranjar outros mais. -  falou o motorista.
Amaro:
--- Pois arranje. E tenho um dos maiores cercados dessas cercanias. E conheço o doutor Major Theodorico, homem forte desse mundo. – falou com ênfase o homem.
Motorista:
--- Muito bem. Se o senhor conhece o doutor paga menos então. Quantos carros? Quatro? – indagou o motorista olhando ao seu redor outros motoristas a se acercar.
Amaro:
--- Duas ou três vezes por semana apenas para minha fazenda. E tem as dos companheiros. – ele mostrou os outros três.
Motorista:
--- Tudo na vossa conta? – indagou o motorista.
Amaro:
--- De jeito algum. Cada qual paga o seu! – e olhou para os demais criadores.
E os criadores estiveram reunidos por cerca de uma hora acertando os detalhes de como levar cada carga de água e despejar nos reservatórios dos cercados. Água para abastecer o gado, posto nos reservatórios de cada fazenda. Após tanta conversa os fazendeiros e o vaqueiro pegou o caminho de volta contentes da vida, uma vez está protegido o gado contra a seca a flagelar o sertão. Aquela era umas das piores secas abatidas sobre toda a região nordestina da Bahia ao Maranhão. O  homem sertanejo discutia a comida do pobre no sertão.
Amaro:
--- Até rato! Até rato! Ora veja só! – falava alto o sertanejo.
À noite veio e os criadores já estavam em suas propriedades a contar o esforço imenso do senhor Amaro Borba de qualquer forma ter de conseguir caminhões capazes de trazer água da capital para as fazendas e garantir a sobrevivência das poucas reses ainda restante. O vaqueiro José Tomaz ficou sozinho em sua humilde casa a pensar se não era mais provável ser uma obrigação do Prefeito da cidade em adquirir carros-pipa para buscar água para os animais. E da conversa  de seu Amaro Borba em conhecer bem de perto o Major Theodorico podia até ser verdade. Mesmo assim, o vaqueiro nunca ouvira histórias contadas por seu Amaro se ligando ao Major. Mesmo assim o homem, na dúvida, adormeceu;
Vaqueiro
--- Conversa! – disse consigo o vaqueiro e agarrou no sono.  
No sábado o caminhão solicitado por seu Amaro Borba estava cedinho da manhã despejando água nos depósitos ditos pelo homem. Esse, orgulhoso, não cabia em si com tanta presteza do caminhoneiro. Esse homem, o motorista, já estava a conhecer o fazendeiro e pegou conversa entre chuvas e secas. Na metade da história o motorista lembrou-se de falar em uma notícia de alarme trazida a conhecer em toda a capital do estado.
Motorista:
--- Eu estava na adutora da Companhia de Água quando eu soube da história. – falou o motorista mastigando a boca.
Amaro;
--- Na cidade? Como é que pode? Morreu gente? – indagou alarmado o fazendeiro
Motorista;
--- Pelo que se disse, pra mais de dez. Talvez vinte ou mais. Os casebres da praia foram todos arrastados pela onda gigante. E ainda houve tormenta no arrabalde das Rocas.  Também até na praia do Meio. Incrível seu homem! – frisou o homem.
Amaro:
--- Como é que pode? Arrastou tudo? – perguntou alarmado o criador de gado.
Motorista:
--- Não ficou nada de pé. – relatou com perfeição o motorista.
Amaro:
--- Isso é incrível mesmo! – fez ver o senhor das terras.
Motorista:
--- E os técnicos estavam ainda contando o numero de mortos, pois se tem cisma de muitas casas derrubadas em outras regiões da capital, até mesmo Ponta Negra. – falou o homem cheio de  remorso com medo dos mortos.
Na verdade, pela contagem das vítimas essas estavam em dezesseis mortos em redondeza por onde a maré atingiu em seu volume as casas mais fracas da cidade. Houve desabamento em Ponta Negra, Areia Preta, Rua do Motor, Praia do Meio, Redinha, Palafitas do rio Potengi, Canto do Mangue, Rocas e Aldeia Velha. Os mais sacrificados eram até então os moradores de Areia Preta. Em Ponta Negra e na Redinha houve desastre de igual monta. Mesmo assim, nessas outras partes da capital a maré esteve a uma altura de três metros na área ribeirinha. Houve ainda deslizamento de terras na área de Areia Preta. Um técnico chegou a declarar de ter percebido sinais sonoros alertando sobre o avanço da maré já às cinco horas da tarde da sexta feira.

segunda-feira, 18 de março de 2013

"NARA" - 22 -

- KIKO PEGORARO -
- 22 -
VIOLINO
Naquele momento Nara se lembrou de qualquer coisa. Uma: foi a de perguntar se a irmã de Eurípedes sabia tocar algum outro instrumento, fora o piano. O rapaz estava entretido por mais uma vez em rebuscar a ideia a procura de uma melodia mais ou menos antiga e ouviu o acerto de Nara, porém não entendeu muito bem. E a moça perguntou por mais uma vez se Rócia tinha algum outro órgão que lhe fizesse tanto afeto. Nesse instante Eurípedes atentou para a questão e relatou:
Eurípedes:
--- Violino. Ela sempre toca violino. – respondeu o rapaz enquanto percorria o teclado.
Nara:
--- Violino?! Você tem ciência que toca violino? – indagou perplexa a moça.
Entre uma resposta e outra da conversa ele sempre a dedilhar o piano e sem tirar a vista do teclado respondeu;
Eurípedes:
--- Sim. Na escola ensinam toda sorte de instrumento. O aluno é quem escolhe o que dá certo com ele. Ela escolheu o piano, mas toca violino. – argumentou o rapaz pesquisando as notas.
Nara;
--- Você não está percebendo o que eu falo. Droga! – respondeu a moça com a boca trombuda.
Em dado instante um rapaz bateu à porta da casa de Nara e ela se deslocou até o ponto. O rapaz era uma espécie de enfermeiro ou ajudante de enfermeiro. Ele estava com pressa. E foi somente Nara chegar à porta e o rapaz indagar com o máximo vexame:
Moço:
--- O doutor Eurípedes está? – perguntou o moço muito vexado.
Nara:
--- Sim. Um momento. Eu vou chamá-lo. - responde Nara.
E caminhou para encontrar Eurípedes quando esse estava entretido ao piano. Mesmo assim de qualquer modo, Nara chamou Eurípedes e logo foi dizendo ter um moço aparentemente do hospital a chamá-lo. Eurípedes reclamou qualquer coisa e voltou para Nara. E perguntou;
Eurípedes.
--- Que ele quer? – indagou o médico sem saber mais que notas faltavam.
Nara:
--- Não perguntei. Vi apenas que era alguém da enfermaria do hospital. – relatou sem mais conversa.
Euripedes:
--- Droga! – e se levantou da cadeira de veludo e rumou sem presa para a porta da casa.
Ao chegar à porta percebeu Eurípedes se tratar de um auxiliar de enfermagem do Hospital “Miguel Couto”. Por isso, já admitindo ser um caso grave, o médico indagou qual seria o fato. O auxiliar, vindo em uma ambulância disse apenas ter o mar avançado na praia e atingindo várias casas de pescadores e gente nobre. A direção do hospital estava chamando todos os médicos com a máxima urgência para prestar auxilio às vitimas do mar revolto. Foi algo de impressionar. O oceano atingiu uma altura de cinco metros arrastando todas as casas em sua margem. Foi o que pode dizer o auxiliar já estando a morrer de pavor.
Eurípedes:
--- Como você adivinhou que eu estava aqui? -  indagou abusado o médico.
Moço;
--- Eu estive na casa do senhor e uma moça me informou. – disse o rapaz com toda pressa.
Eurípedes:
--- Espere um pouco! Ou melhor! Pode ir que eu sigo em meu veículo! – respondeu meio sem graça o médico.
Não foi nem preciso dizer a Nara e dona Ceci, pois essas estavam próximo à entrada da casa e ouviram muito bem o estado de calamidade pública a qual se abatia na parte da orla marítima da cidade. E Eurípedes observou a moça e fez um gesto de apenas suspender os ombros. Ele se despediu das pessoas e foi a dizer ter naquele momento o sacrifício de sua semana.
Eurípedes:
--- Se houve o que estou a imaginar, vai ser osso duro de roer! – relatou o rapaz e de imediato se despediu de todos.
Quando o veículo de Euripedes se deslocava para o hospital, o seu motorista ouviu a sirene de um carro de bombeiro a passar com toda urgência percorrendo a Avenida Rio Branco e ingressando na Rua João Pessoa com a máxima pressa. E Eurípedes percorreu o caminho no mesmo sentido do carro de bombeiros. Na  sua mente ele recitava ter sido um volume de água sem precedentes, pois assim era chamado com a máxima urgência o Pronto Socorro. Para o médico era melhor se destinar ao hospital. Então em seu serviço tomaria instruções de o que poderia ser feito. Com muita urgência Eurípedes nem chegou a notar a falta de luz elétrica na posteação da Rua Nilo Peçanha por onde ele prosseguia até o ponto de estacionar em frente ao Hospital. Gente muita em frente aquela casa de saúde, umas chorando, outras em desmaio sem contar com o número de gente vinda das encostas do morro da Rua do Motor, logo abaixo do Hospital, pelo lado esquerdo de quem vem. Parecia um mercado público o movimento de pessoas àquela hora ainda cedo da noite. Outro de Bombeiros seguia as pressas a entrar da Avenida Atlântica formando uma zoada infernal com outros veículos vindo ou indo e as misteriosas ambulâncias a chegar à entrada da casa de saúde com seu contingente de gente ferida ou em desmaio. Tudo isso o médico percebeu no instante em que estacionou o seu carro e entrar no Hospital “Miguel Couto”.
No local onde houve o estrondoso maremoto o pessoal era uma verdadeira confusão para se entender com certa dificuldade. O terrível holocausto aconteceu em um verdadeiro instante de maneira surpreendente. Um repórter estava presente aquele cenário de angustia e dor. Choros e lamentos eram ouvidos por todos os lados. O Padre do lugarejo conseguiu chegar de forma apressada em meio aos homens da saúde e as equipes de socorro. Veículos do Exercito e da Aeronáutica se fazia presente em derradeiro instante com o auxilio da Polícia Militar. Homens desses efetivos corriam para todos os lados a movimentar os restos de casebres tragados pela onda imensa do mar. Após muitas perguntas, o repórter conseguiu apurar de uma garota dos seus 15 anos o que na verdade ocorreu. Com muito vexame, a garota fez saber ao repórter ter o mar secado cerca de cem metros e de poder se locomover somente a pé. Ela acrescentou ter visto tudo do alto da colina onde estava. De repente, o mar encheu e uma onda gigantesca veio como se fosse um espanto e tragou as casas simples ao redor da praia de Areia Preta.
Garota:
--- Era um monstro! Era um monstro meu senhor! Um monstro! – dizia a pequena moça de forma alarmante.
Repórter:
--- E o pessoal? Como escapou? – indagou o repórter quase alarmado.
Garota;
--- Ninguém escapou! Ninguém! Todos foram tragados pela imensa e infernal onda de mais de cinco metros de tamanho! Ninguém! Mas ninguém mesmo! – relatou a moça a chorar e a clamar a Deus pelas almas das pobres criaturas.
O pessoal da Aeronáutica procurava informações de um avião transporte caído naquela praia há algum tempo. Com a queda da aeronave se salvou a tripulação e nada mais. Nesse instante o avião de carga pode ser visto caído há alguns metros da beira mar. O Exército fazia apenas o bloqueio da faixa onde ainda moravam poucas pessoas. A praia de Areia Preta era um sossegado recanto onde havia pescaria por jangadas. Tais jangadas foram tragadas pelo mar mesmo estando em uma encosta do morro ainda existente após a estrada de areia por onde transitavam os burros de carga com areia e barro. A praia tinha outra subida bem ampla de cerca de trinta metros. O mar revolto tragou as moradias em baixo onde havia o comércio de bebidas e de alimentos para os pescadores e suas famílias. Poucas casas de alvenaria havia ao longo da Rua Sem Nome e quem morava nessas casas diziam apenas residir de Areia Preta. O desastre sem precedentes tomou conta da noite e madrugada inteiras com os técnicos de engenharia e operários a rebuscar os escombros dos casebres vendo se existia alguma vítima. O mar carrancudo avançou cerca de cinco metros por ampla imensidão, atingindo casas da Rua do Motor, Redinha e por extensão o rio Potengi destruindo moradias de palafitas armadas à beira do rio. Nesse trecho, a onda foi menor, mas conseguiu atrair o Canto do Mangue e parte de arrabalde das Rocas em sua parte mais baixa. Os moradores das Rocas tiveram tempo de sair de suas habitações  e busca de lugares mais seguros no alto da cercania. O mesmo não ocorreu com a Redinha onde os moradores tiveram tempo apenas de recolher a roupa do couro. A notícia do maremoto se espalhou de repente por toda a cidade com muito temor. Ninguém sabia ao certo a informar o acontecido.
Alguém:
--- Foi uma avalanche? – indagou a mulher sem saber ao certo.
Outro:
--- Parece que derrubaram o mar. – respondia outro com bastante cisma.
Terceiro:
--- Onde foi essa coisa? –

domingo, 17 de março de 2013

"NARA" - 21 -

- Jennifer Lawrence -
- 21 -
À NOITE
Eram oito horas da noite quando Eurípedes chegou à residência de Nara e cansado por demais. Ele teve uma tarde estafante de atendimentos de um e de outro. Cirurgias de emergências, atendimento de urgência e tudo quanto um médico faz e não pode evitar. Nara estava consultando os livros de notas musicais e nem chegou levantar a cabeça para dizer “olá”. Mesmo assim, a moça fez um aceno como se estivesse olhando o rapaz há muito tempo. Com certeza era por conta da procura das notas musicais tão precisas e preciosas. O rapaz veio com calma e olhou para o bebê e sorriu. Depois, baixinho, disse;
Euripedes:
--- Dormindo. – e sorriu calmo.
Nara a procura das notas não retirou a cabeça do que estava a ler e perguntou. Eurípedes caminhou devagar se ausentando do berço:
--- Que horas? – indagou a moça.
Euripedes;
--- Pouco mais de oito. Terminou a Voz do Brasil ainda há pouco. – respondeu o médico.
Nara:
--- (Tu) estavas no hospital? – perguntou a jovem colhendo as notas.
Eurípedes:
--- (Eu) sai às sete horas ou mais um pouco. Hoje foi serviço de cão. Partos, braços quebrados, mulher com um braço quase partido por conta de um espelho. Horrível! – relatou com pensar.
Nara:
--- Virgem! – disse a moça se arrepiando toda.
Eurípedes;
--- Sim. ... Mas nós nos acostumamos. Não é um caso por dia. É a cantiga de sempre. – revelou o homem.
--- É... Assim mesmo. .... – relatou a moça como se Eurípedes não tivesse ouvido.
A perambular pela sala Eurípedes chegou até o piano, devagar, e levantou a tampa do teclado e retirou um manto a cobrir as teclas. A moça continuava na sua descuidada procura das notas do violão. O rapaz com se num descuido, bateu numa tecla de “Dó” e deixou soar. De imediato a moça olhou para o piano e sorriu para Eurípedes de se estivesse dormindo até àquela hora. E falou ter seu pai conversado com França e esse ficou acertado de vir pela manhã do sábado. Ele perguntou apontando seu relógio de pulso.
Eurípedes:
--- Horas? – sorriu o rapaz.
Nara;
--- Sei lá.  Depois das oito. – respondeu a moça a voltar a vasculhar os cadernos de música.
Daí então Eurípedes sentou no banco do piano e dedilhou algumas notas como para testar. E com o tempo entoou uma melodia mais ou menos antiga, por assim dizer, mesmo sendo um chorinho do maestro Ernesto Nazareth. E tocou com precisão tão bela melodia cujo nome era “Ameno Resedá”, polka por assim dizer. Nesse ponto a moça ternamente abismada parou de vez a vasculhar os seus cadernos e ficou a ouvir tão doce e quieta melodia. Algo tão sublime e tranquilizante onde até mesmo as andorinhas não consentiam em dormir. Uma prova de tal fato foi quando se ouviu a patativa de alguma casa qualquer daquela rua entoar seu canto. Parecia até harmonizar em plena noite os encantos daquela polka. E o homem sem ligar ao som da patativa foi tocando até o seu final a deslumbrante música até ouvir as palmas abençoadas de Nara. A mãe da moça dona Ceci foi outra a chegar à sala despertada por inigualável sonoridade de meiga atração. Após então do longo e profundo devaneio Euripedes acordou do sono da letargia. E as palmas de Nara e dona Ceci ecoaram como algo tão de repente onde o rapaz nem se deu pelo sentido. Após alguns segundo ele percebeu  sua lucidez e como todo envergonhado disse apenas:
Eurípedes:
--- É uma composição de Ernesto Nazareth. – falou envergonhado o exímio pianista.
Nara:
--- Bravo! Bravo! Bravo! – dizia a moça contente e a aplaudir o jovem mancebo.
Ceci.
--- Não sei como se faz uma majestosa composição como essa. Orgulho-me de tê-lo em minha
 Casa. Nara! – e olhou para a filha como dizendo “se pegue com o exímio pianista”.
Nara se aproximou de Eurípedes e deu-lhe um beijo na face acariciando em seguida os seus ternos cabelos. Com isso, Eurípedes ficou muito mais encabulado e nem pode tecer o mérito da questão. E o tempo passou em alguns segundo quando o jovem indagou se havia novidades sobre o caso do piano. A moça respondeu:
Nara:
--- Ah! Meu falou com o senhor França e esse ficou de vir aqui amanhã de manhã. – sorriu Nara afagando a cabeleira do jovem.
Com todo o carinho a lhe ser depositado, Eurípedes pegou a mão de Nara e por efeito com ternura a beijou serenamente. A mãe de Nara sorriu e se ausentou da sala alertando a filha.
Ceci:
--- Toma cuidado! – e sorriu.
A moça sorriu e com seu deleito chamou a sua mãe a atenção de forma carinhosa.
Nara:
--- Ô mãezinha! – e sorriu com bastante alegria.
Desse momento em diante, com a conversa a ser mantida no dia seguinte com o professor França, Eurípedes procurou manter a plena calma até porque seu Sisenando estava para chegar a qualquer instante e o rapaz jamais queria ser flagrado em carícias com a moça. E para não dizer aos outros que eles estavam nada a fazer, Eurípedes aproveitou a oportunidade para recitar piano com a ajuda de Nara ao violão. E então fizeram um duo. Por vez, os dois amigos buscaram obras muito conhecidas do popular e acertaram um concerto. Numero Um, Maria, Ao Luar, Orgulho e entre outros êxitos musicais eles vararam a noite enquanto seu Sisenando não abria a porta de entrada. Ao terminar essa, por assim dizer, introdução musical, Eurípedes falou ter sua irmã Rócia o prazer de tocar piano, pois a moça estava estudando música.
Nara:
--- Jura?! – indagou a moça de olhos bem arregalados.
Eurípedes:
--- Eu nem me lembrava de tal detalhe. Notadamente Rócia conhece tudo o que eu toco ao piano. Não raro ela chega a me dar aulas de uns acertos onde eu erro. – falou o jovem médico.
Nara:
--- Mas isso é coisa que você podia ter dito na primeira hora, homem! Você toca divinalmente o piano e ainda tem uma irmã que é pianista! Que vergonha! Ai meu Deus! – relatou a moça cheia de preocupação.
Eurípedes:
--- Eu devia ter pensado nisso. Mas nem pensei. Agora, com a vinda do professor foi que me deu na telha de dizer tudo isso. – resolveu dizer com vergonha o rapaz.
Nara:
--- E Rócia toparia a formar um conjunto com nós? – indagou nervosa a moça.
Eurípedes:
--- Não sei. Ela tem várias ocupações. E piano Rócia estuda na Escola. Em casa, de quando em vez. – relatou envergonhado o rapaz.
Nara ficou a pensar certo incomensurável tempo levando à mente as alturas. Ela se lembrou do convite formulado a ela pelo artífice da arte de formarem um duo para se apresentar no Teatro. Por sinal, naquele instante do convite, Nara torceu o rosto por entender ter ela pouco ou nenhum tempo pra o ensaio. Porém, veio nesse momento o nome de Rócia, pianista de alta classe. Nara enfim podia compor um trio ou um quarteto com a possível chegada de outro elemento, como seja Fred.  As nuvens paravam do ar com aquele enlace. Nara podia compor com o seu violão, apesar de saber piano. Eurípedes sabia tocar piano. Mas estava aí então o nó da questão. Como se reverteria tal nó da parte de Eurípedes? Era apenas uma questão a se resolver. E se podia muito bem armar uma forma de ter dois pianos. Saber como conseguir o segundo piano era o problema. E Fred comporia o quarteto?  Tudo isso era questão. E com tais problemas Nara conversou com Eurípedes.
Nara:
--- Além de piano qual instrumento você sabe manusear? – procurou deduzia a moça.
Eurípedes:
--- Nenhum! – sorriu o homem alertado com a questão.
 

sábado, 16 de março de 2013

"NARA" - 20 -

- Jennifer Aniston -
- 20 -
LAMPIÃO
O homem, seu Amaro, a montar o seu cavalo, pois estava com o animal desde a saída da fazenda, continuou a percorrer o vasto sertão do “Boqueirão” acompanhado de vaqueiro José Tomaz, homem astuto por natureza. O vaqueiro também montava um animal igual ao do seu Amaro Borba. Eram dos poucos animais a não morrer de sede fome, uma vez serem tratados com bastante cuidado pelo chapadeiro. Seu Amaro percorria o sertão um pouco calado e sisudo sendo que às vezes falava devagar principalmente quando um mosquito lhe ferroava o pescoço. Notadamente o homem falava das andanças do cangaceiro Lampião, homem feroz e morto em uma emboscada  no dia 28 de julho de 1938 pelo bando comandado do Tenente João Bezerra, na fazenda Angicos do sertão de Sergipe.
Amaro;
--- Lampião era capitão. E ao seu lado levava dois tenentes: Antônio Ferreira e Sabino Barbosa de Melo. – cuspiu o homem de lado.
Tomaz;
--- Meu pai conheceu o bando. Nesse tempo o velho estava em Jati, no Ceará. Ele viu os cangaceiros fugirem de uma emboscada da Polícia. – comentou o vaqueiro.
E os homens prosseguiram viagem percorrendo a vasta terra do “Boqueirão” atravessando mato seco e encontrando carcaças de animais. Já a meia hora de viagem quando o cavalo do seu Amaro refugou. O homem se sustentou na sela quando viu a serpente de tocaia a fazer um bote para atacar quem passava.  De imediato, o homem puxou a arma e fez disparo quando a serpente já tentava agarrar a pata do cavalo de seu Amaro. Foi disparo bem certeiro a cruzar a serpente de imediato pela boca. A cascavel se estrebuchou na sorte da morte a deixar os seus ovos a descoberta em um baixio de pedras. Seu Amaro cuspiu de lado o ordenou a José Tomaz com oque havia começado.
Tomaz:
--- É apenas ovos seu Amaro! – relatou alarmado o vaqueiro.
Amaro;
--- Queres levar para comer? Pois leve! – relatou apoquentado o homem.
Nesse ponto o vaqueiro Tomaz passou por cima dos ovos da cascavel destroçado tudo. A serpente ainda se movia no solo quente quando um segundo tiro a matou de vez. O cavalou relinchou e o homem vez a montaria se aquietar como devia fazer o homem. Tomaz arregalou os olhos vendo seu patrão com sua forma ameaçadora de um homem destemido para matar  ou morrer. Com alguns instantes, a mulher de seu Amaro se acercou cansada em sua montaria a indagar o sucedido. E foi alertada de uma serpente a estar morta pela sorte de tiros. Após a mulher Clotilde surgiram mais dois cavaleiros temendo tantas balas deflagradas. Vendo tudo consumido a mulher Clotilde informou ao esposo ter gente de fora a sua espera.
Amaro:
--- Quem são eles? – indagou o homem meio atarantado.
Clotilde:
--- Nepomuceno e outros mais. – disse a mulher meio esfogueada.
Amaro:
--- Nepomuceno! Que diabos ele quer? – indagou cismado.
Clotilde:
--- Sabe lá o que! Apenas conversar. – relatou sem graça a mulher.
De volta à casa-grande, seu Amaro Borba foi de imediato cumprimentado pelo cidadão João Nepomuceno, criador abastado. Em companhia da visita estavam dois outros criadores de gado, todos montados a cavalo e reclamando do intenso calor a fazer naquele instante. À convite de Amaro Borba os três visitantes o acompanharam para sentar nas cadeiras e então começou a conversa um tanto sem graça até o momento de se falar no assunto principal: o gado morto. Cada qual dissesse ter o sol causticante causado a morte de centenas de cabeça de gado de suas propriedades. E era chegado o momento de se tomar posição;
Nepomuceno:
--- Eu não vou mais criar vaca para o sol matar. – relatou o homem um tanto confuso.
Amaro;
--- Isso eu já disse. A morte levou mais de duzentas rezes da minha propriedade só este ano. – falou exaltado o homem
Nepomuceno:
--- E o que se poda fazer?  O senhor tem ainda um monte de gado. Eu também. Mas os outros pecuaristas estão na beira da falência! – respondeu exaltado o visitante.
E Amaro Borba falou por sua vez:
Amaro:
--- Eu digo o seguinte: ou se mata tudo ou se manda para a Paraíba ou Pernambuco. E é isso que eu vou fazer. Semana que vem não tem mais nenhuma cabeça aqui na minha propriedade. Nenhuma mesmo. E tenho dito. – falou Amaro com voz altiva.
Nepomuceno ficou inquieto talvez por que na Paraíba a situação era tão somente calamitosa. E em Pernambuco nem se fala. Havia falta de comida para o gado em todo o sertão nordestino e o homem do campo amargava a carestia dos alimentos a alcançar mais de cem por cento:
Nepomuceno falou ser desta vez uma seca braba e os carros-de-boi que transportava alguma quantidade de água, não podiam mais transitar, pois em nenhum lugar se encontrava o liquido para dar ao gado.
Amaro:
--- Nem ao povo. A gente só vê casa abandonada pelo meio do campo. Se não for possível buscar comida e água em Pernambuco, o melhor é se matar todo o rebanho. – falou ao desespero o pecuarista.
Nepomuceno de cabeça abaixada coçava o crâneo como se não soubesse como gerir uma solução definitiva para o sertanejo revoltado e sem assistência, sem renda e sem futuro. Ele também era um dos tais. Terra seca e sem sustento. E após instante Nepomuceno então falou
Nepomuceno;
--- O que falta no sertão do Nordeste é apenas água. Não queremos Governo. Nós buscamos água para matar nossa sede. Nossa e das reses. – falou com brio o agricultor.
Amaro:
--- O que o senhor falou é o que eu digo a todo instante para os meus vaqueiros. Ou se tem água nessa terra ou não se tem nada. Os políticos não fazem nada. Só abanam o rabo nas cadeiras estofadas. Eu, de minha parte, devo pra mais de um milhão e meio de cruzeiros nos Bancos. Se os Bancos quiserem, a fazenda está aí. Não vou pedir arrego. Quero ver qual é o filho da puta que vai sustentar uma fazenda sem um pingo de água. E o que eu vejo são sítios abandonados. Obras começadas e não terminadas. Mas a água eu não vejo em lugar algum. Essa terra é amaldiçoada. Quando o Coronel, meu pai velho quis vir para o Brasil, o Rei mandou trazer para o Nordeste, o celeiro de bom pasto. Está ai o bom pasto! Nem um tico de água. Os riachos servem apenas quando chove.  O Governo costuma a dizer que o sertão, um dia, vai virar mar. Venha virar, venha, seu bando de porcos! – falou o homem exaltado.
O silencio se aplacou por alguns instantes entre os criadores, pois nenhum apontava solução capaz de resolver a grave e eterna situação. O sol estava a pino no Céu azul onde não se via uma nuvem sequer. O boi “Manso” continuava em seu lugar, ofegante. O vaqueiro se dirigia até o ponto da Amargoza levando um pouco de comer traçado com o Sodoro para ver se o boi comia alguma porção.
Criador:
--- Deus é quem pode explicar essa seca. Eu rezo a meu padrinho padre Cicero que mande água para o sertão. Eu rezo todo dia. – falou descontente um criador.
Amaro:
--- Rezar a Deus?! Pois assim seja! Ele não vai mandar nunca! Se Ele mandasse, não deixaria morrer a míngua as suas vacas! – falou revoltado o homem do campo.
Saturnino;
--- Sei não. Um Santo disse que o sertão um dia vai virar mar. E o mar virá sertão. Eu acho que ele quis dizer foi outra coisa. O progresso vai chegar....Um dia....Isso vai! – comentou  desolado um dos três cavaleiros.
Amaro;
--- Eu vejo a coisa por outro lado. O progresso vem por vias do desenvolvimento. Quer no sertão, quer na capital. Mas isso vai levar muita teima. O Exército é a única solução dessa causa. Pois com o Exército nós temos o progresso. Quem já foi do Exercito que o diga! – falou o homem em desatino
Saturnino:
--- O senhor acha que os militares vão trazer progresso, meu senhor? – falou o homem de cabeça abaixada.