domingo, 31 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 16 -

- HAZEL BROOKS -
- 16 -
Logo em seguida os três companheiros de passeio – Glauco, Racilva e Walquiria – seguiram para as terras de Glauco onde encontraram perto de um riacho a casinha de um morador daquelas regiões. A tapera abrigava o senhor José Miúdo e a família. A mulher, dona Rosa estava em casa, porém no fogão de lenha. Glauco bateu palmas e José Miúdo surgiu depressa com seu acordeom pendurado no ombro e loque que viu, chamou a mulher, Rosa, para ver quem estava ali fora. Glauco sorriu e disse a ele que sua mulher devia estar ocupada àquela hora no preparo do almoço.
--- Que nada. Ela já vem do fogão. – respondeu José Miúdo a sorrir.
--- Com vai Ceiça? – indagou Glauco da filha do casal cujo nome era Conceição, ou melhor, Maria Conceição.
--- Tá com a pança por acola! – respondeu o homem a sorrir.
--- Eu sei. Ela estava na casa grande, ontem. Hoje deve estar. Eu saí cedo para outras funções e ao a vi. – relatou Glauco sorrindo.
--- Bom dia compadre. Como vai o senhor? – disse dona Rosa quando essa chegou às pressas de dentro da tapera.
--- Como Deus quer. ´- respondeu Glauco a mulher sempre sorrindo.
--- E essa moça é a noiva? – indagou dona Rosa escorada com o ombro na porta da tapera e uma das pernas encruzadas na outra.
--- É ela. Nós estamos passeando. Eu, a noiva de a sobrinha. Você se lembra de Walquiria? – perguntou Glauco a dona Rosa.
--- Ora se me lembro. A capeta da casa. – sorriu a mulher ao responder a pergunta.
--- Pois é. Tá um mulherão essa danada. – respondeu Glauco enquanto Walquiria sorria e cumprimentava dona Rosa. Racilva também cumprimentou a mulher.
E Glauco então falou sobre Otacílio, genro de José Miúdo. E quem respondeu foi dona Rosa.
--- Tá bêbado. É só o que ele pensa na vida. – disse dona Roda cuspindo ao lado.
--- Tá certo. Mas compadre por que não vai hoje para a festa? – perguntou Glauco a Miúdo
--- Eu fui ontem e sexta. Levei minha sanfona. Vi o seu carro. Agora, hoje tive que despachar dois rapazes para pegar um touro que alguém viu lá nos confins desse mundo. É um barbatão legitimo. Nunca viu ninguém na vida. Parece que tem umas vaquinhas com ele. Mas é longe, nas grutas da serra. Eu digo que é do senhor. – relatou Miúdo em pé na cerca.
--- É nosso. Tudo que é meu, ele é seu também. – respondeu Glauco a sorrir.
--- Olhe que o senhor tem pra mais de vinte mil cabeças. Eu tenho um pouquinho. – respondeu Miúdo ao compadre Glauco.
--- E tem tudo isso? – perguntou Glauco admirado da conta.
--- Homem, eu digo isso por que semana passada eu contei duas horas de cabeças passando pela porteira. E duas horas dá pra mais do que vinte mil. – disse isso Miúdo.
--- É. O negocio é vender antes que venha o verão brabo. – descreveu Glauco coçando a própria cabeça.
--- Tem um fazendeiro daqui que botou dinheiro nas cabeças. Mas eu acho que ele é um enrolam. – comentou Miúdo.
--- Eu prefiro fazer negocio com meu irmão, pai de Walquiria. -  resolveu Glauco.
--- É melhor. Fica tudo em família. Por que preço? – perguntou José Miúdo.
--- Vou pensar. Depois eu volto aqui. Certo? Lembrança a Otacílio. - reportou Glauco
Nesse ponto Walquiria e Racilva se apearam de suas montarias e foram para dentro da tapera jogar conversa fora com dona Rosa. A mulher teve a honra de conhecer Racilva e a cumprimento por a moça ter escolhido um grande homem, apesar da sua simplicidade e conversar como ninguém com a gente do campo. Rosa informou ter conhecimento de há muito com Glauco, quando ele era apenas um frangote, solteiro e pegador de touro brabo. Ela era também mocinha e tinha um “q” para o lado de José Miúdo, tocador de sanfona. E foi com José Miúdo com quem Rosa veio a se casar tempos depois. Eles estavam morando naquela hora na tapera por motivo de Miúdo ter mandado pegar um touro barbatão nas encostas do morro muito longe da casa onde Rosa e Miúdo estavam a morar, próximo da cidade. E Walquiria conversou mais um pouco tendo ao seu lado a amiga Racilva somente a ouvir e sorrir das peripécias da moça quando menina.
--- Não me esqueço do sabugo de milho que usei quando fui defecar (ela disse mesmo: cagar) no mato. --- respondeu Walquiria e quase morrer de sorrir.
E Rosa também achou demais da estória do sabugo e disse por que ela não se limpou com folha de carrapateira! A moça disse ter no instante um sabugo de milho. E voltou a sorrir, quase a desmaiar.
--- Passei o sabugo no fundo e pronto!. – gargalhou Walquiria sem parar.
Nesse momento Glauco gritou para as moças mesmo estando despreocupado.
--- Vamos embora gente. Depois nós voltamos para conversar melhor!! – sorriu Glauco ao chamar a sua sobrinha e a Racilva.
O chamado foi quase uma ordem e as moças correram para as suas montarias. Racilva, ainda meio sem jeito, não soube ainda subir na sela do cavalo. Walquiria foi quem a ajudou.
--- Levanta preguiçosa! – sorriu contente com o modo de Racilva montar na sela. Por isso mesmo teve que dizer.
--- Eu vi tudo! – articulou Walquiria a sorrir franco.
--- Mentira. Deixa de assanhamento! – respondeu Racilva a olhar suas pernas e a calcinha.
--- Ora se não! Até o buraco da calcinha! Veja se não tem! Não tem Rosa? – perguntou à moça aos gritos  a mulher de Miúdo.
--- Sei lá. Vocês são quem sabe por onde andaram! – sorriu Rosa de Miúdo com um dedo na boca tapando o sorriso.
Então, os três cavaleiros iniciaram viagem de volta percorrendo a margem do rio do Pião. Era um rio imenso apesar de estar o verão por chegar. Uns garotos a tomar banho, em estado natural – eles estavam nus -  enquanto outros meninotes e rapazolas a pescar na margem do ribeirão. Um deles pegou um peixe e olhou para os viandantes. Com isso, ele mostrou o peixe estirando o braço para cima a aduzir o tamanho do pescado.
--- É um Curimbatá. O rapaz está oferecendo o peixe a você, Racilva. – disse Walquiria a sua companheira.
--- E o que eu faço? – perguntou a moça amedrontada.
--- Vá lá pegar sinhá besta. – arguiu Walquiria.
Nesse momento, Glauco puxou da espingarda e fez mira em um bando de marrecos que passavam voando disparado em um e matando dois. A moça Racilva, já estando à beira d’água tomou um susto e perguntou com um bruto medo.
--- Que é isso? – perguntou Racilva completamente amedrontada.
--- Um presente. Você recebe um e dá outro ao rapaz! – sorriu Glauco entregando o marreco ao rapaz.
Com isso o rapaz pescador sorriu sem modos e agradeceu pelo presente dos marrecos.
--- Obrigado doutor. Nem precisava disso. – agradeceu o rapaz do pescado.
--- Precisava sim. Você dá um pescado e recebe uma caça. – sorriu e fechado a cara o homem
E assim terminou a manhã para aquele grupo de aventureiros, onde Racilva pode conhecer de perto mais algumas terras do meio do sertão,  pertencentes a Glauco Rodrigues entre outras pertencentes aos seus irmãos. Um tanto cansada da viagem longa ela resolveu tomar banho de cuia para se refrescar. A moça Walquiria foi para o seu quarto mudar de roupa. E Glauco ficou sentado na varanda a conversar com seu irmão. Foi assim a manhã daquele domingo onde o céu aparentava ser de estiagem. E na conversa Glauco indagou do seu irmão:
--- Quanto vale o meu rebanho? – indagou Glauco a Marcos.
--- Sei lá. Você é quem sabe! – respondeu Marcos.
--- Junta com o teu para nós fazemos negocio na cidade. – relatou Glauco.
--- Pois tá certo! – falou Marcos.

sábado, 30 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 15 -

- Susan Hayward -
- 15 -
E depois de mais umas aulas de montaria a moça findou por obedecer a Glauco e montou no cavalo passando a mão no seu rosto. Ela não viu nada de mais no rosto do cavalo para se passar a mão. Mesmo assim aceitou as ordens do mestre Glauco. E em seguida tentou montar no seu cavalo manso. E disse:
--- Consegui! – disse Racilva a Glauco.
--- Está vendo? Ele ficou no mesmo lugar. Olhe as orelhas dele! – apontou Glauco para Racilva
--- Que tem as orelhas? Uma pra frente e outra pra trás. – disse Racilva depois de olhar as orelhas do animal.
--- Ele, pois espera as suas ordens. Diga o que tem a fazer! – relatou Glauco.
--- E o que é que eu digo? – indagou assustada a moça.
--- É bastante fazer: “Eia Avançar”! Só isso. E ele começa a avançar. – comentou Glauco por vezes a sorrir.
--- E como é o nome dele? – indagou perplexa a moça.
--- “Avançar”! – sorriu Glauco ao explicar a Racilva.
--- Avançar? Que nome mais triste. – resolveu dizer Racilva.
--- Cuidado! Ele está prestando a atenção ao que você diz! – recomendou Glauco.
--- Nossa! Eu não sei dizer a ele: “Eia Avançar”. – relatou a moça e o cavalou seguiu em frente entre os gritos da moça alarmada.
--- Puxe as rédeas para ele brecar! – falou Glauco a Racilva.
--- Que é isso? Pare cavalo. Pare cavalo! – disse então tremendo de medo a moça.
Nesse ponto, Glauco caminhou no seu encalço e fez o cavalo estancar. E disse ao animal: “Eia, Eia Avançar” – fez o homem ao cavalo que se aquietou de vez.
--- Tá vendo o que eu disse. Ele obedece as suas ordens. Quando você deu o sinal, ele partiu. Agora vamos com calma. Muita calma. Faça o que eu faço. Assim! – descreveu Glauco.
--- Não. Eu não vou mais nesse jumento! – disse Racilva apoquentada.
--- Ah vai sim. Aprenda a adestrar a montaria. E não é jumento. É cavalo! Ele entende tudo o que você diz. É como eu. Eu entendo o que você diz. O cavalo também entende! – disse mais uma vez com severidade o namorado da moça.
A moça começou a chorar baixinho, mas obedeceu a ordem do seu mestre. Devagar, temendo novas repreensões de Glauco principalmente de como sair a caminhar a jovem moça seguiu os passos de quem ordenava. Ajeitou-se na sela, deu com os pés na barrica do cavalo, de forma mansa e disse o que era para ser dito quando o animal quisesse  obedecer.
--- Eia Avançar! – o cavalo se pôs a caminhar de forma vagarosa.
Racilva temeu na hora por dizer “cavalinho” ou “burro”, pois ela ficou sabendo não dever dizer outro nome a não ser o dele mesmo. Com certa firmeza, mesmo tendo balanço na sela, Racilva entendeu a sua voz e a marcha de “Avançar”. E desse modo seguiu tranquila o seu mestre e professor. Ele também não avançou como devia fazer. Em alguns instantes da travessia, Glauco mandou a moça brecar o cavalo. Racilva puxou as rédeas dizendo para o animal parar. Mais o animal não parrou. Glauco disse apenas ter ela que puxar a rédea e dizer. “Ih Avançar”, pois assim o animal parava. A moça obedeceu e o animal estancou.
--- É tanta coisa! – resolveu dizer a moça.
--- Não é nada! Agora você veja o que eu vou fazer. Não dê ordens ao cavalo. Apenas olhe o que eu faço. Agora! “Eia Cego”. – Glauco soltou a rédea e fez finca-pé no cavalo.
O cavalo disparou com toda a força, percorrendo longos trechos da fazenda onde só tinha caatinga. Ele fez uma longa volta em toda a correria do seu cavalo com a estranheza de Racilva apenas a perceber o fazer de Glauco em todo seu caminhar de longo percurso, arredondado até voltear ao ponto de partida junto a Racilva, sua namorada de então. E olhou para a moça a dizer ser a mesma coisa a fazer com a sua montaria e lhe dava o mesmo ímpeto para então não trotear tão devagar assim. A moça sorriu com o suor escorrendo pela face e perguntou ao seu namorado:
--- Ele faz isso? – indagou Racilva querendo correr como uma amazona.
--- Faz. Faz sim. Até assistir missa ele faz de forma ajoelhada. Quer ver? – perguntou Glauco a moça meio assombrada.
--- Não. Eu levo um tombo! – respondeu a moça querendo sorrir.
--- Leva nada. Veja! “Missa Avançar”! Missa! – e o cavalo se ajoelhou com as patas dianteiras para o temor da moça em cair da cela.
--- Nossa! Ele vai me por ao chão! – gritou alarmada a moça.
--- Levantar, Avançar. – deu a ordem em seguida o chamado treinador.
E o cavalo se soergue e se aprumou do jeito como estava antes.
--- Está vendo como se faz? Mandar beber água, você vai descer, ele descansar, e tudo mais o que você quiser. Mas agora não faça isso. Apenas vamos caminhar com mais pressa. Eu digo quando. -disse Glauco à nova namorada.
--- E ele não me morde? – indagou a moça com medo de o animal estranhar.
--- Morde nada. Esse daí manso que nem um carneiro. – explicou o homem sorrindo.
--- Tenho medo. Ele depois se enfeza! – relatou a moça com temeridade.
--- Vou mandar fazer uma cama para ele e você dormirem juntos. – sorriu Glauco à moça.
--- Nem invente! Nem invente! Dormir com um cavalo brabo! Não! – repreendeu Racilva amedrontada com a ideia de Glauco.
Nesse momento, Walquiria estancou com a sua montaria ao lado de Racilva orgulhosa por ver os dois unidos com dissera antes. E então perguntou aos dois:
--- Como vai o noivado? Já entraram em acordo? – perguntou Walquiria a sorrir.
--- Nós estamos aprendendo a caminhar a cavalo. Ela tem medo que o animal morda. – disse cheio de si o homem.
--- Morde nada. Esse aí não morde nem as moscas que lhe perturbam. – sorriu Walquiria respondendo a questão formulada por seu tio.
--- Racilva tem medo que ele morda! – gargalhou Glauco.
--- É. É. Pois o meu morde mesmo. Mas, vamos com calma. Para aonde vamos? – perguntou Walquiria aos dois namorados.
--- Andando mesmo pelo campo. Talvez eu chegue a Cabana do Pai Tomaz. – sorriu o homem
--- Apenas que na tua cabana já tem liberdade. – relatou a moça em cima do seu cavalo.
--- É. Eu disse isso como forma de falar. Aqui nem tem nada do que se encontrava na Cabana e nem vai ter mais. – aludiu o homem sem achar graça.
--- Eu penso como era dura a vida dos escravos, principalmente dos norte-americanos. Era uma onda de sacrifícios a varrer todo um país. Era um comércio de homens escravizados de forma brutal e selvagem. Aqui, no Brasil, também teve dessas coisas. E ainda tem. Mas escondidas.  Ah isso tem. O pobre só vive pobre. Não por que quer. Mas porque não tem a noção de sua valentia. O Império já acabou. Porem eles ainda vivem como se fossem escravos. O rico não como ao lado do pobre. Ademais, quando é tempo de eleição, o rico sabe pedir para que vote nele e eu vou ser deputada para acabar com essa nojenteza. Hoje se vê homens com armas. E o Governo nem toma tempo de fazer o desarme dessa gente. E é gente rica. Não é nada de pobreza. Não tem um rico que preste. A começar por mim. Desgraçados! – falou revoltada a moça nesse momento.
--- Calma. Calma. Ainda tem rico de presta. Olha teu avô. – revelou Glauco.
--- É. Pode ser. Mas eu vou ser deputada. – reclamou Walquiria em cima da bucha.
--- Eles não fazem nada. Conluiam-se com o Governo e pronto. - falou Glauco sem temor.
--- Quero ver se eu me conluio. Nessa festa na fazenda na fazenda não veio um representante do Governo para dizer que veio. Nem deputado, nem secretario e muito menos senador. Esses só pensam neles. Os outros que se lixem. Mas a coisa vai mudar. Ah se vai! E muito! Eu vou sair candidata à deputada queira ou não. Vou ver quem manda nessa porcaria daqui por diante e mesmo que meu avo não me dê à bênção – concluiu Walquiria o seu pronunciamento

sexta-feira, 29 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 14 -

- ACASO -
- 14 -
Logo após o café da manhã, onde havia coalhada, leite, pães,  frutas e, com certeza café, ambas as senhoritas Racilva e Walquiria estavam em baixo de um pé de tamarindo a trocar conversa sobre o namoro e, após isso, o noivado e o casamento. Walquiria conhecia muito bem o seu tio e pronunciou a Racilva não se importar com as estórias de carochinhas ter ouvido ou não falar. Ela estava então no patamar da anunciação de um futuro bem mais amplo  e maior do que ela teria a imaginar.
--- Olha menina! Vou te dizer uma coisa! Não vá se importar com riqueza, perfumes, carros e tantas coisas que as mulheres se interessam. O meu tio e um homem simples. Ele um amplo terreno, quase do tamanho desse aqui. Mas não se importa em ter. Veja bem. Ele mora em um quarto de hotel de pouca categoria. E nem está interessado em saber disso. Ele é Doutor formado. Porém nem se importa em dizer. Ele é maçom, sabia? – perguntou Walquiria.
--- Não. Não sabia. O que eu sei é que ele mora perto da repartição onde trabalha. Só isso. Espero. – respondeu Racilva.
--- Bem. Já é alguma coisa a se pensar. Ele morar em um quarto de Hotel, úmido e frio, baratas por tudo que é lados, ratos, poeira, insetos os mais nocivos. Tudo o que é ruim, tem nesse quarto de pensão. Nada de bom, eu acho. Comida feita as pressas. Nojeira total. E um homem como o meu tio morando entre tudo isso. Veja que situação para um advogado, homem letrado e, por fim, viúvo e diretor da maior repartição do Estado: a Recebedoria de Rendas. E isso é negocio para um homem como meu tio? Não. Não é. Apesar de tudo ele bem podia morar melhor, em uma casa grande, espaçosa, com a criadagem a fazer quitutes a toda hora. Mas ele não pensa assim. Casa? Ele tem. Um mundo de casa. Um casarão onde guarda esse bagulho de carro. Você entende o que eu digo? – quis saber Walquiria inquieta.
--- Não pensava assim. Para mim ele era um funcionário de uma repartição. E só. – relatou Racilva estranhando o fato de Glauco ser tão rico como disse antes o seu chefe da loja.
--- Tá aqui para funcionário, - respondeu Walquiria dando uma banana para os servidores do Estado. – Ele é o máximo. Todos lhe paparicam. Ele é o Diretor da Recebedoria de Rendas do Estado. Sai governo. Entra governo. E ele está no mesmo lugar. Ele é um homem apesar de ninguém acreditar nisso. Homem com H maiúsculo. – relatou por fim Walquiria acordando Racilva do seu torpor.
--- Você me deixa com medo. Eu imaginava ser Glauco um homem simples. Quando ele foi a minha casa, ontem, madrugadinha, para viajarmos à sua cidade – ele disse – eu pensava em ver umas casas de moradia entre outras de taipa. Mas, quando chegamos a certa altura, ele deixou a rodovia e enveredou por uma estrada de barro. E eu não pensei em nada até aí. Quando foi bem adiante, tinha uma porteira. Ele parou na porteira e chamou um homem. . ...
Dizia Racilva quando foi cortada em seu assunto por Walquiria.
--- Manoel Vaqueiro. – respondeu Walquiria.
--- Hum? Pois é! Esse homem. Ele estava dormindo em baixo de um de pé pau. – teve a narrativa interrompida nesse ponto por Walquiria.
--- Turco. Pé de Turco! – declarou Walquiria de modo sério
--- Hum? Pois é. Esse pau. Então eu estranhei pelo modo em que o vaqueiro tratou seu tio. O chamou de “patrão”. De volta Glauco me disse que era costume do povo da roça: chamar todo mundo de “patrão”. Eu deixei prá lá. E vim se guinda e me deu vontade de fazer xixi. Eu disse a Glauco. E ele me mandou fazer alí no mato. E eu recusei. Disse a Glauco que esperava até a casa grande. Foi aí que se deu o pior. Ele me disse que eu estava empregada como funcionária do Estado. E eu fiz xixi na roupa. Que vergonha! – contou Racilva amedrontada com o fato.
Walquiria caiu na gargalhada. Mas sorria muito. E por mais que quisesse não podia parar. Após alguns minutos de risos então Walquiria falou entrecortada de soluços.
--- Ou mulher besta. Você não viu ainda o amor que o meu tio tem por você! Ele está de calças arriadas por você. Deixa de ser tola. Vai em frente. Pega a fera. Faz dele um homem. Deixa de ser fraca. Pense alto. Mais alto do que você. É assim que se faz. Eu digo: Eu tenho meu curso, mas se meu avô pedir para eu ficar aqui, eu retorna a palavra. Com uma condição: ele vai patrocina para eu ser eleita Deputada ou Estadual ou Federal. É assim que se faz mulher: pensar alto. Mais do que eu. E você pense já. Não é “agora”. É já! – narrou Walquiria a Racilva
Nesse meio tempo se aproximou das duas moças, o homem Glauco Rodrigues. Ele veio sorrindo e então foi logo perguntando:
--- (Eu) vou atrapalhar a reunião de bancada? – sorriu Glauco para as duas moças.
--- Que nada. Pode se abancar também. Nós estávamos apenas conversando sobre a festa. – sorriu Walquiria para o seu tio.
--- Ah bom. Vou me abancar também. - e se sentou em um toco de pau perto de Racilva.
--- Ah. Já vai se sentando assim? Tomando a conversa dos outros? Pois eu vou-me embora. Chega de três. Apenas dois bastam. – reclamou a moça Walquiria e se levantou para ir até o casarão.
Glauco então disse a sorrir.
--- Espere ai mulher. Eu só me sentei. – disse Glauco a sorrir.
--- Pra mim, chega. – respondeu Walquiria dando uma rabissaca e saindo correndo.
--- Estas vendo como é tua comadre? – sorriu Glauco para Racilva.
--- Comadre? – estranhou Racilva com aquele pronunciado de Glauco.
--- É. Comadre, amiga. Isso tudo. É o linguajar da roça. Bem. Vamos ali. – sorriu Glauco
--- Alí onde? – quis saber de imediato Racilva pensado da Lagoa das Garças.
--- Alí. Conhecer mais terras. Só isso. – e se abraçou com Racilva saindo a perambular pelo campo sem fim.
E então ambos saíram a vagar pela ravina do campo exótico do sertão bravio. O sol já estava aquecendo a solidão dos aflitos peregrinos da manhã. Glauco caminhou sem pressa, sempre abraçado a sua acanhada garota pelos campos da fazenda “Maxixe” onde vaqueiro já ou ainda estava a carrear o gado de leite para  outro cercado de onde os bezerros podiam mamar. Glauco olhou para as cabeças de gado e disse apenas isso a Racilva.
--- Agora é a vez dos bezerros. – relatou Glauco.
--- Hum? – respondeu Racilva sem entender.
--- Bezerros. As vacas só prestam para extrair leito com um mês após de dado cria aos bezerros e depois disso ele (o vaqueiro) pode pegar as crias, juntar a vaca e extrair o leite. Após esse tempo, espera-se por nova barrigada. – explicou Glauco a sua namorada.
--- Não entendi patavina. – sorriu a moça se dirigindo a Glauco.
--- Mas vai entender. – sorriu Glauco à sua namorada.
E os dois caminharam mais ainda até topar com o celeiro onde estavam amarrados os cavalos andarilhos. O homem convidou a moça para entrar. Essa teve medo. Porém a confiança em Glauco lhe permitiu entrar sem maior constrangimento, Devagar, Glauco correu a cavalariça e bateu no rosto de um cavalo com todo o carinho e caminhou com ele para fora do estábulo mandando a moça segurar o animal após dizer:
--- Ele é manso. Não espante. – resolveu dizer o homem
E entrou novamente curral onde pegou outro cavalo e colocou as rédeas, trazendo o animal para fora se encostando ao cercado. Voltou até ao animal manso onde estava à moça Racilva, cobriu o animal, pôs a brida e os arreios, a cela e terminou o serviço passando a mao no rosto do cavalo dizendo apenas.
--- Eia Avançar! Calma. Ele vai treinar. – disse o homem ao cavalo.
--- Treinar? – perguntou a moça espantada com o animal.
--- É. Você tem que falar com o seu cavalo. Dizer que vai passear. É a primeira vez. Ele entende tudo o que você fala. Veja as orelhas dele! Ele entende o que eu falei. – sorriu Glauco ao dizer isso para a sua namorada.
--- E eu vou montar nesse bicho? - perguntou alarmada a moça com a situação.
--- Vai sim. E cuidado, pois o animal não gosta de ser tratado por “bicho”. – disse Glauco sorrindo.
--- Agora deu. Eu não sei me “ trepar” nele.- reclamou a moça envergonhada.
--- Trepar, não. Montar. – disse mais uma vez Glauco sorrindo baixinho.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 13 -

- AMIGA -
- 13 -

A amiga de Racilva perguntou então se ela estava acordada há algum tempo e Racilva disse não. Tinha acordado naquela hora e não fazia barulho para não despertar as demais moças do quarto de dormir. Walquiria se espreguiçou por completo e disse estar com vontade de ir ao sanitário, aproveitando as outras estarem a dormir. Racilva concordou e respondeu também estar com vontade de ir ao sanitário. O certo é que as duas amigas acomodadas em beliches em torno do quarto, cerca de dez se levantaram de mansinho, agasalhado os pés com suas chinelas, vestindo um chambre feito de morim dado na noite passada pela arrumadeira a mando de dona Nair. As duas se levantaram, uma ao lado da outra, e não fizeram barulho para não acordar as outras moças. No corredor da casa, Racilva viu o seu agasalho ser da mesma fazenda da sua amiga.
--- Somos iguais na roupa, - aventou Racilva a sorrir baixinho.
--- A minha é quem faz esses motivos. São de rica simbologia as peças. – relatou a moça.
--- E eu pensava que pelo nome era um trapo qualquer. – falou Racilva a sorrir baixinho.
Logo as duas entraram na sala de gabinetes sanitários e cada qual rumou para o seu local. Ouviu-se um protesto. Era Walquiria.
--- Bosta. Defecaram no bidé! Fela da puta. – relatou sem medo Walquiria.
---E no meu está todo vomitado. – alertou Racilva.
Depois de alguns asseios e peidos para que te quero as duas moças saíram afogueadas com o mau cheiro exalante dos sanitários. E reclamavam a todo vapor.
--- Isso é uma nojeira. – falou Walquiria toda agoniada com a catinga exalante.
Quando elas saiam vez que entrava outra moça, vexada para urinar também, encurvada para frente como se tivesse tremendo de frio.
--- Pera! Pera! Deixa-me passar! Estou me urinando toda! – falou a moça a entrar na sala.
No caminho para o quarto, Racilva aventou dizer de uma mulher. Ela passara por essa mulher no corredor do casarão e a mulher era toda a da foto. Adélia Agar.
--- É uma irmã. Ela é doida para casar com tio Glauco. Mas o tio não dá nem pra cheirar. – respondeu Walquiria com um pouco de frio e encurvado para frente.
--- Ah é? Irmã? Como é seu nome? – indagou por vez Racilva atormentada com a rival.
--- Odete. Odete Agar. Nunca casou. E nem quer. Diz ela que seu amor está incubado. – relatou Walquiria sorrindo.
--- Não. Isso é mentira! – argumentou sorrindo Racilva.
--- Verdade. Não estou dizendo! – fez ver Walquiria sorrindo.
--- Não acredito. Um amor enrustido? Que mulher! – proferiu Racilva a qualquer preço.
--- Meu tio teve umas arranhadas com uma prima dela. Zélia. Parece. A gente a chama de “Pecado”. – sorriu Walquiria ao entrar no quarto onde estão para dormir.
Racilva então tapou a boca para não soltar uma bruta gargalhada. E depois de alguns minutos a moça disse a sorrir.
--- PECADO? – indagou Racilva a Walquiria de olhos firmes.
--- É. Pecado. Mas vou trocar de roupa. Lá fora a gente não corre o risco de ser mortalmente ferida com as bufas dessas daí. – e apontou as que ainda estavam a dormir.
--- Você estuda? – perguntou Racilva querendo saber de mais casos.
--- Terminei História. Penso em continuar os meus estudos no Rio. – falou Walquiria colocando a roupa de sair.
--- Que pena. O tempo vai interromper uma amizade começada ontem. - relatou Racilva.
--- É assim. Mas depois a gente se vê. Não tem pressa. Talvez, quem sabe, você se case com o meu tio. Vá de cabeça. Pegue a água pelo rabo. Ele está só e sem compromissos. – recitou Walquiria baixinho e acabado de se vestir.
--- Ser lá. Eu nem sei se goste dele ou ere de mim. Bem! Pra frente é que se anda. – contou Racilva estando a vestir as suas roupas, E falando como quem almejava de fato namorar o homem.
Nesse ponto Walquiria emudeceu por completo. Apenas olhava a sua amiga com ar de quem não acreditava de Racilva não gostar do seu tio, Glauco. Apenas a olhava profundamente, talvez com justo infortúnio tão significativo em um embate de emoções de Racilva em não saber se ainda não gostava de Glauco. O pensamento de Walquiria voou longe e apesar do silencio ela indagou da amiga se tinha coragem de dar um pontapé nos fundilhos de Glauco.
---Quem? Eu? Estás louca? Nunca! – respondeu Racilva com bastante perplexidade.
--- Pois eu tenho! Queres ver? – indagou Walquiria e saiu do lugar apressada.
A moça chegou por trás de Glauco e assentou-lhe o pé nos fundilhos do tio. O homem se virou para ver que tinha coragem de dar aquele pontapé. E quando a figura de Walquiria abriu um largo sorriso e lhe perguntou depressa.
--- O que é menina? O que foi que eu fiz? – sorriu Glauco esfregando as nádegas.
--- O que foi? Pois vá ver sua mulher agora. Chato! – respondeu Walquiria com bastante ira e pronta para dar mais pontapés.
E Glauco não sabendo de nada e andando porque Walquiria lhe empurrava com toda força para frente alegando ter motivos suficientes para tal. O homem não parava de sorrir passando entre outras pessoas admiradas com a ação de empurrar da moça. O pai de Walquiria, o belo homem não excitava também em sorrir e dizer.
--- Só quero ver em que vai dar essa confusão. Essa Walquiria!. ... – e gargalhou à vontade o seu pai, Marcos Rodrigues, rico criador de zebu nelore de toda aquela redondeza.
E a moça Walquiria se acercou de Racilva empurrando o tio perante os que estavam presentes e chegando, relatou de vez:
--- Pronto! Não quero mais choro nem tem nem iene. Abraça tua futura esposa seu bobo. Não está vendo o que fizeste? Agora tudo está completo! – e deu meia volta sumindo na porta do casarão.
E Glauco sem saber o que estava sucedendo indagou apressado:
--- O que diabos ela fez com você? – perguntou Glauco a virgem moça Racilva.
--- Nada. É loucura dela. – se aquietou nos braços de Glauco como quis colocar Walquiria.
O homem, ainda aflito e inquieto também indagou com pressa e alarmado à jovem moça com quem ficara abraçado sem querer sob o ímpeto da ação de Walquiria. Ele ainda olhou em volta e viu quando a moça Walquiria, arrebitada cruzando a porta do casarão.
--- Mas o que ela quer? – fomentou em saber Glauco a Racilva.
E olhou os olhos marejados de Racilva pedindo um pouquinho de amor tão somente. Então Glauco se compadeceu de Racilva e entendeu o porquê de tanta emoção presente naquele instante nas horas estranha da manhã. Ele então a protegeu com suavidade e continuou a sua marcha para dentro do casarão acolhendo a bela namorada com bastante brandura. Ao passarem pela porta do quarto onde Racilva, Walquiria, Renata e outras tantas ninfas estavam a dormir, ele viu quando a porta de leve se abriu e por uma brecha pequena uma voz de dentro articulou sorridente:
--- Assim é que eu gosto. – fechou a porta em seguida a gargalhar.
Racilva entendeu ser aquela a ocasião de devotar o seu amor profundo a quem tanto amor não era mais possível de ter jamais. Ela se abraço pela cintura de Glauco e caminhou para o lado da cozinha do casaram. Enquanto isso, Marcos Rodrigues vinha correndo mais outros irmãos a entoar cantigas de roda. Com venturosa emoção Glauco rodou o pescoço e começou a sorrir para os outros seus irmãos.
--- Seus bestas! Não viram um homem ainda apaixonado? – disse feliz o homem Glauco.
E da porta do seu quarto, apareceu o senhor coronel Fabriciano a indagar surpreso:
--- O que é isso gente? Um casório? – fez a pergunta o coronel.
Por trás do coronel estava a sua esposa Maria do Rosário a resmungar.
--- Deixa os meninos seu besta! Não estas vendo que é um noivado! – falou baixinho Maria do Rosário e se agasalhou na rede de dormir.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 12 -

- SONHOS -~
- 12 -
Nessa ocasião Walquiria chamou o seu tio Glauco para ir também dançar na folia armada no salão ao lado onde todos brincavam. Porém, Glauco se desculpou dizendo estar com as pernas bambas e também começava a sentir cansaço. Ele pediu licença e se ausentou. A moça Racilva também estava muito cansada e estirou as pernas no solar de alpendre. Ela estava ao lado de dona Nair e do coronel Arthur que não parava de bater com as mãos e com os pés para acompanhar o folguedo logo abaixo no terreiro. Um pouco decepcionada com os seus parceiros de vagem, a donzela Walquiria resolveu entrar para o interior do casarão.
--- Para onde vocês foram mesmo? – indagou dona Nair como se fazia a alguém.
E Racilva respondeu enfadada da viagem.
--- Ao casarão da Lagoa das Garças. – respondeu Racilva toda rescindida da viagem.
--- Ah sim. Um belo lugar. Faz tempo que eu não vou aquela lagoa. – declarou a mulher sem entrar em detalhes.
Nair sabia do retrato suspenso com a foto de Adélia Agar e por isso resolveu não despertar demais a curiosidade da moça. E o tempo passou. Era quase hora antes da janta. Racilva pediu licença para ir até o banheiro tomar banho de cuia. Dona Nair concordou e a moça também entrou para tomar banho de cuia no banheiro da casa. De passagem, encontrou Walquiria e disse-lhe estar bastante cansada.
--- Vou tomar banho. – falou Racilva à sua amiga.
--- Eu já tomei o meu. – respondeu Walquiria a sorrir.
--- Tem água lá? – perguntou Racilva.
--- Tem. E a luz é do gerador. Ele funciona o dia todo. Ouça! – respondeu Walquiria.
--- Certo. Eu ouvi um barulho como de um gerador quando cheguei pela manhã. – falou Racilva
A amiga sacudiu Racilva pelos ombros, mordendo os lábios com os dentes e comentado de forma meiga.
--- Doida! Ele é teu! – comentou Walquiria se referendo ao tio Glauco.
Nesse pondo, Racilva ficou pensativa por momento e perguntou a moça Walquiria.
--- Ele quem? – indagou Racilva do modo absorto.
E Walquiria saiu olhando a moça e sorrindo como uma gazela.
--- Vá em frente, mulher! – falou ainda Walquiria. E assim pegou o rumo da porta do casarão
Nesse ponto Racilva ficou a pensar no homem Glauco, pois era ele o único em ter a vista. De um modo ou de outro, ela calou e entrou no quarto de dormir para apanhar sua toalha e alguns pertences próprios ao banho. No quarto não havia ninguém. E Racilva sentiu um leve arrepio com se alguém a observasse. Ela olhou em volta e nada pode verificar de pronto. Racilva apanhou os seus pertences e caminhou direto para o banheiro. De ida cruzou com três rapazes. Eles estavam vindo do banho de cuia também. Ela dessa forma somente olhou sem cumprimentar. Glauco não estava por perto. Racilva entrou no banheiro onde não havia mais ninguém. E ligou o interruptor de luz. Logo em seguida caminhou até a porta do banheiro e a trancou por dentro. Um frio enregelou a moça. Ela tremeu um pouco. Porém, não teve maiores conversas e tomou o seu banho de cuia. Água gelada pela força da ventania e até mesmo da hora noturna. Quando o banho tomou já ía a sair quando entrou outra moça no banheiro feminino. Era uma mulher semelhante a do retrato do casarão da Lagoa das Garças pendurado em tamanho natural. Ela desconfiou e sorriu para a mulher. Essa voltou um sorriso leve e entrou no banheiro. Tão logo se viu só, ela pensou em contar o fato a amiga Walquiria. Contudo Racilva se esqueceu do caso. Uma mulher passou depressa pelo corredor onde estava o quarto das moças. Racilva ouviu a mulher gritar:
--- O jantar está na mesa, gente! Venham! – gritou a mulher de fora do casarão.
O grito da mulher deixou espantada a moça Racilva. No momento seguinte alguém abriu a porta do quarto e entrou depressa. Era uma das sobrinhas de Glauco. A visitante disse apenas o seguinte:
--- Olá! – e sorriu. Em seguida se voltou a procurar o que estava perdido.
--- Olá! – respondeu Racilva na volta e sorriu também.
--- Meu sabonete, gente! – quis saberá moça a procurar na bolsa de viagem.
--- Se não achar o seu, eu tenho um aqui. Está na embalagem. – respondeu Racilva.
A moça se soergueu e olhou para o sabonete. Em seguida tomou de mão o oferecido entre o dizer com graça.
--- Vou pegar o teu. Eu não acho o meu! – e sorriu contente a nova amiga.
--- Seu nome? – perguntou Racilva.
--- Renata. – respondeu a moça a sair do quarto em correria.
--- A água está fria. – proferiu Racilva mesmo sabendo ter Renata não ouvido a mensagem.
Após alguns minutos todos estavam à mesa para abocanhar o suculento jantar e dane de bode, de cabra e de gado. Quase não fazia a menor diferença para Racilva aquelas comidas. Afinal a moça ainda sentia-se cheia do almoço o tomaria apenas café com biscoito. Glauco a observou e perguntou:
--- Você não come nada? – quis saber o seu protetor Glauco.
--- Estou cheia do almoço. Não quero comer muita coisa. – respondeu a moça trocando olhar repentino com Glauco.
Esse sorriu. No lado de lá da mesa estava sentada Walquiria. Esse não disse nada. Mas deixou antever ser àquela hora de Racilva de acercar mais do seu pretendente. E Racilva olhou e viu Walquiria e nada respondeu para a amiga.
A noite continuavam com o arrasta-pé no salão improvisado ao lado do casarão onde toda gente a dançar com os seus gritinhos de alegria no meio do toque das sanfonas triângulos, zabumbas entre demais instrumentos e ao espocar de fogos de artificio subindo alto ao céu arranjado pelas estrelas cintilantes. O coronel Fabriciano pediu a palavra para agradecer toda aquela azafama que era feita em honra a sua homenagem e se despedia para ir dormir, pois no dia seguinte ainda tinha o que fazer e já era tarde da noite. Enfim, o ancião se retirou para o interior do seu casarão onde foi se deitar para dormir o sono dos justos. Em um pouco mais Glauco pediu a vez para dançar com Racilva e Walquiria olhou de modo alegre a dizer:
--- Enfrenta a onça, mulher! – disse Walquiria a Racilva.
Racilva sorriu e foi para o salão de baile dançar com Glauco. Afinal ela não estava tão cansada assim. E Walquiria foi atropelada por Renata a lhe fazer a pergunta triunfal.
--- Eles estão de namoro? – perguntou Renata atrevidamente.
--- Nada. É apenas namorico. Nem sei bem. Deixa pra lá. – respondeu Walquiria se afastando do local da parte alta do alpendre.
Na madrugada do dia seguinte, domingo, por volta das cinco horas da manhã, Racilva acordou sobressaltada com forte arritmia cardíaca talvez por um sonho como se ela tivesse caído de um precipício e fosse até ao chão. O suor lhe descia por todo o corpo. Um zumbido na cabeça lhe mais angustiada. Racilva olhou para o relógio de pulso e viu as horas. E olhou para as outras camas onde dormiam sossegadas as demais senhorinhas. Ela nada falou com medo de acordar o pessoal. E se lembrou de um sonho. Uma dama vinha pela calçada de uma rua da capital. A jovem não sabia qual era a rua. Simplesmente era uma rua muito estreita. Uns dois metros ou três onde circulava apenas um carro. A calçada era estreita. Calçamento de tijolos apenas no passeio público. No caminho, a rua era toda calçada com paralelepípedos. Racilva caminhava sozinha. Em contrário vinha uma mulher parecida à dama do retrato. Ambas andavam na mesma calçada. O tempo era de estio. Havia sol, porém não incomodava Racilva. As casas estavam fechadas ou não tinha casa nenhuma. Ela caminhava com passos firmes e a mulher vinda em sua direção apenas relatou a Racilva:
--- Tome conta dele! – pronunciou a mulher parecida com Adélia Agar.
Com isso, Racilva acordou sobressaltada, pensando na dama que ela avistara no dia anterior em um retrato tamanho normal. Nesse mesmo instante, o foguetório começou do lado de fora do casarão e pessoas já estavam a discorrer na frente da augusta casa grande. No quarto de dormir, Walquiria, com voz sonolenta, apenas perguntou a Racilva como quem não quisesse despertar do seu sono.
--- Que horas? – perguntou Walquiria abrindo a boca.
--- Cinco horas. – respondeu Racilva atordoada com o sonho tido até a hora de despertar.

terça-feira, 26 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 11 -

- VENUS ESCARLATE -
- 11 -
Ao notar a presença de uma casa bem um chalé de tempos idos Racilva alargou os seus lindos olhos e fez pergunta a sua amiga Walquiria. Ela queria saber de quem era àquela casa enorme de grande ornada quase na margem do lago. A amiga sorriu e respondeu:
--- É do tempo do meu bisavô. Mas durante tão logo tempo já fizeram leves modificações na estrutura da casa grande. – respondeu Walquiria a sorrir.
--- Como é grande a casa. Puxa! Ele morava nela? - - indagou Racilva espantada com o casarão
--- Ele, meu avô, meus tios e até Glauco morou na casa. Passava um tempo. É distante a casa e por isso nem se pensava em morar. Eles vinham nos sábados, domingos, feriados e outras datas festivas. – respondeu Walquiria a sorrir.
--- Glauco morou na casa? – indagou inquieta Racilva.
--- Ele e a mulher. Mais os criados. Ela, você sabe? – indagou Walquiria surpresa.
--- Sei. Ele falou. Disse-me ter ela morrido com um ano de casamento. – expôs Racilva.
--- Ela era fraca. Eu penso que eles se casaram e ela já era fraca – falou baixinho – do pulmão
--- É capaz de ter sido assim. – falou Racilva de modo bem baixo.
--- Quando eles se casarão já estavam a namorar a um bocado de tempo. – falou Walquiria
--- Ela era daqui mesmo? – perguntou sempre baixo a moça Racilva.
--- Era da família Agar. Ela se chamava Adélia Agar. Não sei de juntou o nome de Rodrigues. Deve ter juntado. Mas se conhecia como Adélia Agar. O nome da família. – falou um pouco sisuda a moça Walquiria.
--- Vamos à casa? – perguntou impaciente Racilva.
--- Vamos. Glauco está olhando a lagoa. Os bichos. Tem é Garça. Veja! – articulou Walquiria
E as moças a cavalo rumaram para a casa de campo da família onde apearam da montaria. Logo em seguida Walquiria rumou para a casa se adiantando de Racilva. Essa sentia um tremor nas pernas e chegou a dizer a amiga.
--- Estou tremendo! – falou Racilva a sua amiga.
--- Tolice. É o costume de andara cavalo. Você nunca tinha andado a cavalo? – quis saber Walquiria.
--- A primeira vez. – respondeu Racilva passando as mãos nos quartos.
Então Walquiria abriu a porta quase sempre encostada porque a mulher da limpeza vivia naquela casa para cuidar de tudo. Por isso, a porta estava apenas encostada. As duas moças entraram no recinto e Racilva viu com surpresa um enorme retrato de mulher de tamanho natural armado bem na frente da sala onde se podiam ver outros retratos menores. De susto, a moça se inquietou temerosa, com certo temor até e em seguida indagou a Walquiria:
--- É ela? – perguntou com muito receio de a mulher poder descer do retrato onde estava.
--- É. Adélia Agar. Uma bela mulher. E se acabar tão nova. Mal do tísico. – falou prudente a outra moça.
--- Imagino! – relatou ainda com espanto a moça Racilva.
Nesse momento entrou na sala onde estavam as duas amigas com certeza a conversar, o homem Glauco Rodrigues. E logo foi cumprimentando as duas felizes ninfas.
--- Admirando a nossa coleção? – indagou Glauco sem querer sorrir.
--- Sim. Estou a mostrar os retratos dos meus antepassados. – respondeu Walquiria sem compunção ou temor.
--- São quadros de uma época remota. – fez questão em dizer o senhor Glauco.
Temerosa com aquele quadro de Adélia Agar, por isso mesmo Racilva procurou não opinar sobre o estado das coisas já então vividas. Um tremor lhe sacudiu o corpo por inteiro e um frio repentino se fez presente. Racilva se conteve e nada falou. O quadro a mulher era o mais a lhe assombrar, pois ali estava a parte perdida de um passado remoto no qual se cobria Glauco. Um terror atroz assomou Racilva e tão logo, o mais que depressa, ela procurou sair do recinto procurando a varanda para ver os gansos, os pássaros, as garças, os veados e outros mais a procurar o lago onde podiam saciar a sede.
Temerosa com o desaparecimento de Racilva, a sua amiga Walquiria se enveredou ligeiro a caminho chamando-a para ver as colheres de pau, o pilão de duas bocas, os ferros de engomar, os cabides de madeira, os espelhos da cômoda  e mais utensílios onde estavam guardados a antiga memoria da casa grande. Objetos antigos como louças, pratarias, móveis, relógios, objetos de farmácia entre mais, toda a antiguidade da vida camponesa dos famosos Generais. Ao chegar à varanda, Walquiria encontrou apenas a moça a chorar pelo que pode observar de repente. Walquiria ainda perguntou:
--- Por que choras? – indagou Walquiria a sua nova amiga a passar as mãos pelos seus cabelos caídos sobre a testa.
O tempo passou depressa enquanto Racilva chorava. Um pranto lânguido e temeroso. Ela apenas chorava. Enquanto sua amiga acalentava da dor sentida por algum motivo. Nesse momento se acercou das duas ninfas o homem Glauco e quis saber o motivo daquele pranto infantil.
--- Nada não. É tolice minha. – relatou em soluços a moça Racilva procurando enxugar as lágrimas pendentes no seu rosto.
--- Vamos continuar a visita a casa, senhorita! – reclamou Glauco para ver se quebrava aquele sentimento de dor.
Ao voltar à sala da casa, Racilva relutou por um instante em prosseguir por causa do retrato em tamanho natural a ex-mulher de Glauco. A meiga senhora tinha um olhar natural de uma mulher de extasiante beleza. Seus cabelos tinham a cor de um sol a irradiar e a cobrir-lhe os largos e voluptuosos ombros. Corpo terno em bem acabado de uma dama sensual e flamejante. Braços longos e bem cobertos por um vestido de cetim. Ao seio, uma joia rara e cara. À mão esquerda uma bolsa de veludo transparecendo ter ainda mais prendas. O vestido branco lhe acobertava todo o corpo a terminar nos pés. Aquilo era uma miríade eterna das estrelas crepusculares. Racilva olhou mais uma vez e sem querer para a singular foto e baixou a cabeça intermitente. Por sua, Walquiria a amparando e Glauco relatou ser o que estava exposto apenas uma fotografia.
--- Como você a amor! – relatou de forma baixa a moça Racilva a chorar lágrimas de dor.
--- Tenha calma. É apenas uma foto. – falou devagar o rapaz procurando afagar as lágrimas da moça.
--- Eu sei, sim. Mas como era bela a tua esposa. Tem tudo para não se trair por nem mais um minuto. Vê-se nela a sobriedade de uma dama bem educada e plena como a modesta rosa, conhecedora do amor profundo de quem a adorava. Nunca, ninguém pode ter imenso anseio e ventura de desejar como a esta dama plena e querida. Soberba mulher no esplendor da vida. Para mim ela era a nobreza da verdade íntegra. – falou emocionada a moça ao seu amigo Glauco.
E continuou a chorar como uma santa no máximo pudor.
Eram pouco antes das dezoito horas quando os três companheiros de excursão ao bosque chegaram a casa grande do coronel Fabriciano onde rapazes, moças, senhoras, senhores, vaqueiros e suas primas-damas se esquentavam no salão armado ao lado do verdadeiro local. Eles dançavam e cantavam músicas típicas do interior nordestino ao som de violas, cavaquinhos, pandeiros, violão, triângulos e das quatro grandes sanfonas de cento e vinte baixos  puxadas pelos melhores sanfoneiros da região. O coronel Fabriciano, sua mulher, Maria do Rosário, o seu filho coronel Arthur e sua mulher dona Nair assistiam a tudo do alto do terraço onde demais pessoal também gritavam comemorado os oitenta anos de vida do coronel Fabriciano. Era uma loucura só aquela festa de fim de tarde. O braseiro estava acesso a queimar as carnes gordas do gado morto e fogos de artificio sacudiam o céu festejando o aniversariante mal cabido em sua fama. O leilão começaria pela noite, após e jantar do pessoal para saber quem dava mais por uma novilha, um boi gordo, uma vaca amojada entre outros tantas oferendas: cabras, carneiros, bodes, novilhas e mesmo até galinhas.
Quando chegaram à festa os amigos Glauco, Racilva e Walquiria o coronel nem mesmo prestou a atenção imbuído a folia do arraial onde toda a aquela gente estava a comemorar o aniversariante do dia. Dona Nair, esposa do coronel Arthur foi quem viu primeiro e grupo e convidou Racilva a chegar para próximo para ver como tudo ocorria. Ela chamou Racilva por ser a moça estranha a tudo aquilo que se festejava. E Racilva, cansada, aceitou o convite de dona Nair dizendo:
--- Estou cansada no passeio. – sorriu breve Racilva.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 10 -

- ENIGMA -
- 10 -
Após esses atropelos de quem não sabe o querer, lá estavam os dois, Glauco de Racilva no meio de toda a gente a comemorar os oitenta anos de vida do coronel Fabriciano ao som da concertina e sob o cantar dos violeiros matutos. Eram dois os violeiros. Porém, de violeiros ninguém morria de sede. Havia uma porção de violeiros de pleno sertão a querer cantar os improvisos feitos ao coronel. Esse, animado que só pinto em beira de cerca, aplaudia a cada um dos que tocavam e cantavam. O comandante Sollo se aproximou do seu cunhado para saber algo mais sobre a moça.
--- Ela é uma amiga minha. – sorriu sem formalidades o cunhado Glauco.
--- Muito bela a moça. – fez partida o comandante.
--- Ela é filha do velho Arantes. Você conhece? – indagou Glauco ao comandante.
--- Creio que não. Porém pela forma é uma bela moça. – recomendou o homem do espaço.
E nas bancas vendiam-se cocadas, bolo de milho, bolo preto e todo as lances de se querer vender por um preço muito baixo. Tinha até galinha frita cozida e vivas mesmo. Tinha peru. Ah isso tinha. Até mesmo porcos vivos e tatu. E a moçada a dançar em plena manhã. Bebidas a granel. Desde cerveja a cachaça para os mais afoitos. Racilva olhava tudo aquilo de ficar de boca aberta para não dizer mais.
--- Como esse pessoal dança! – fez ver alarmada Racilva.
--- Esse é o começo. Mais tarde tem mais. – respondeu Glauco animado com a moça.
O velho coronel Fabriciano era todo cheio de contentamento. Até ele dançava o chamado “Miudinho”, dança típica do interior. Na parte do churrasco, esse tinha de monta e a granel. Quem comia não pagava nada. Era só pedir e comer. O churrasco era feito de boi ou de vaca. Uma porção enorme de carne enfiada em um espeço de ferro. Racilva tomou a iniciativa de ir até a banca de churrasco e provar um pouco da carne de boi. Ela se admirou no gosto da carne assada na brasa.
--- Hum! É uma delicia essa parte da carne! – sorriu com fé a jovem Racilva já empolgada com a festa matuta.
--- Coma mais. –recomendou Glauco.
--- Coma menina! – disse sorrindo o coronel Fabriciano, animadíssimo.
Fabriciano era o dono da festa. Esse, contente, começou a puxar conversa com a moça Racilva. E disse-lhe ter um pouco de terra para formar uma pequena fazenda. O neto tinha outro pedaço ficando no baixio onde Glauco criava umas cabeças de gado. A neta tinha mais um pouco de terra e o seu filho, Arthur era o de maior lucro, pois sua terra era um mundo velho para onde se podia ir. O coronel Fabriciano tinha também outra porção onde criava seu gado de leite e de corte.
--- Mas é tudo muito pouco. – declarou o fazendeiro de bom quilate.
--- E de que tamanho? – quis saberá moça.
--- Aqui mesmo é cinquenta léguas de frente, e mais cinquenta de fundo, correndo por cima e pelo outro lado com mais cinquenta léguas de cada vez. – relatou o velho fazendeiro.
--- Cinquenta léguas? O senhor acha pouco? – indagou perplexa Racilva.
--- É. Uma bostinha de nada. – relatou o coronel animado com a festa.
--- E o senhor queria quanto? – perguntou a moça ao coronel.
--- Pra a senhora vê. Meu avô, que foi o homem que chegou primeiro em Serra Grande, tinha um mundão de terra. Os vaqueiros passavam dias para atravessar as terras do meu avô.  – decifrou de vez o coronel Fabriciano.
--- E como se chamava o seu avô? – quis saber Racilva.
--- Meu avô? Coronel Timbó. João Duarte Rodrigues Timbó. – respondeu cuspindo de banda
--- Ah. Já sei. O filho do seu filho, o que eu vim com ele, me disse que era chamado de Joca de Timbó. É por isso. – sorriu a moça a decifrar a alcunha do homem.
--- É. O povo daqui tem esse costume. Família Timbó, que é a nossa; família do Berro que mora lá para os confins do mundo; família do Magro. E assim por diante. Nós não entramos em confronto, agora. Mas tem uns do Mato. Esses vivem em confronto. Família contra família. É um Deus nos acuda. – relatou o velho coronel.
--- Mas quem manda nesse povo todo? – perguntou com certa esperança de saber a moça Racilva.
--- Quem manda? Quem manda somos nós mesmo. – fez um sorriso o velho.
Alguém gritou do alpendre para o coronel e todos os presentes.
--- Tá na hora da missa. O padre está chamando para todos irem à capela. E é pra já. – recitou a mulher que estava fazendo o convite.
--- Tá na hora mesmo. Vamos correndo. O padre daqui é brabo que nem cascavel. – sorriu o velho coronel para Racilva.
Depois da Missa foi à vez de se almoçar. Racilva estava ao lado de Glauco, o Joca de Timbó, pois então ela ficou esclarecida do nome Timbó e junto também a esposa do coronel Arthur, filho do dono da festa, o coronel Fabriciano. A mulher ficou ao lado de Racilva para dar mais segurança a moça. Era a primeira vez de Racilva na fazenda. Do outro lado ficou os filhos do velho coronel, inclusive o marido de Nair, o coronel Arthur Rodrigues. As filhas e filhos dos outros irmãos de Arthur, e a irmã de Glauco como o seu esposo, o comandante Américo Debiase Sollo também compunham a mesa grande. O almoço foi servido com uma panelada muito bem feita. Além disso, tinham outras comidas, inclusive o churrasco feito no fogão de lenha armado fora de casa.
Durante o lauto almoço de tipos variados de carne de gado, inclusive buchada de boi, várias pessoas usaram da palavra. O padre foi o mais enfático ao dizer ser o coronel Fabriciano a marca de um tempo cujo progresso era o viver para existir. Ele bem aplaudido pelos presentes, inclusive o seu neto, Glauco Rodrigues. A roda de amigos do velho continuou falar e saudar com copos de cerveja e vinho. Tudo era festa. O salão de almoço se apinhava de gente, inclusive os mais simples, como os empregados e as domésticas e camareiras. Havia o serviço de transportar a boa comida feito a todo o momento. Os espetos de carne assada para os participantes do almoço era um negócio comum para a festa do interior.  Nesse instante a moça Valquíria sobrinha de Glauco, se aproximou da mesa e se sentou entre Racilva e o seu tio Glauco. Animadas como que, alí as duas senhoritas começaram uma amizade de modo a se pensar ser duradoura.
Logo após o almoço, as duas amigas saíram em busca de um descanso em um dos quarto para moças e levaram uma conversa solta. As outras irmãs e amigas também conversavam com Racilva a perguntar de onde ela estava chegando e com quem estava. E Racilva respondeu:
--- Sou da capital e estou aqui a convite de seu Glauco. – respondeu sorrindo a moça.
--- Ah sim. Natal. Bela cidade. Eu estudo na capital. – respondeu a prima de outras primas a Racilva.
--- Eu sou concluinte de Magistério. – sorriu Racilva ao dizer isso a moça.
--- Vai haver festa? – indagou uma das primas alegremente.
--- Já estamos organizando. – sorriu Racilva ao dizer.
Após a boa sesta as moças em par foram passear do terreiro vendo os fogos de artificio a ser soltos um pouco distante do casarão. O padre conversava animado com o coronel e outros presentes sempre a olhar para as bancas de comidas vendo se tinha muito dinheiro apurado, pois naquela parte da festa todo o dinheiro seria dado em prol da Igreja. Ainda havia o leilão onde se podia ver a sorte de quem tinha mais.  Nesse momento, Glauco procurou Racilva e a chamou para dar um passeio na companhia de sua nova amiga Walquiria ao longo da cercania e a montar cavalo. Isso, Racilva não tinha costume. E se tivesse que ir ao passeio, seria na garupa da amiga Walquiria. A moça Walquiria concordou e as duas tomaram as rédeas de um cavalo selado e se montaram a esperar pela ação de Glauco.
--- Vamos ver quem é mais ligeiro? – disse por vez Walquiria a Glauco.
--- Então vamos. – comentou o desafiado de corrida de cavalo.
E assim, os três fizeram a corrida até chegarem à Lagoa das Garças, um local aprazível em um local de mata virgem onde a lagoa se espraiava a longa distancia. Tinha ali um bosque repleto de arvores onde se podia notar as mais antigas e marcadas hasteies vindas de um tempo remoto  onde o homem não sabia de derrubada ou coisa assim. Árvores frondosas se unindo como as esplendias companheiras de um sertão remoto. Ao lado a água serena da Lagoa das Garças. E ao fundo, uma casa muito bem aprimorada. Não se via presença de gente nessa casa a despeito de ser bem aprumada.

domingo, 24 de julho de 2011

VENUS ESCARLATE - 09 -

- Natalie Edenburg -
- 09 -

O carro avançou depressa por uma estrada feita de barro caminhando mato adentro sem parar um instante. Então era calor forte. Glauco achou por bem suspender o teto do veículo até então abaixado para suavizar o calor normal da estrada naquela manhã de verão. Já havia modelos mais novos com a cobertura perfeita. Mesmo assim, Glauco preferia a série sem teto com um custo bem maior que os considerados normais. O sol da manhã já era forte e as mariposas zuniam a todo instante. Fechar os vidros das portas era o mais conveniente. Ele então fechou os vidros para espanto da senhoria Racilva.
--- Para que fechou? – perguntou amedrontada Racilva.
--- As moscas. Mosquitos. Estão batendo nos vidros. – relatou Glauco sem sorrir.
--- Ah tá! Mas são bichinhos inofensivos! – comentou a moça.
--- Nem tanto. Quando cair um em sua boca, você verá que não são tão inofensivos. – fez ver o homem limpando o vidro da frente – o para-brisa – por assim dizer.
--- Coitado dos bichinhos. Morrem todos esbagaçados. – fez ver a moça.
--- E o deputado? – perguntou Glauco para mudar de conversa.
--- Eu não vimais. Por quê? – perguntou Racilva querendo saber mesmo.
--- Por nada. Se você demorar mais, a vaga será preenchida. – disse mais o homem.
--- Eu tenho que falar com ele. – relatou a moça preocupada.
--- Eu se fosse você, não iria mais atrás de deputado. Afinal, você tem quem possa fazer por você o que o deputado teria a intenção de fazer. E se fizer! – comentou o homem.
--- Teria? – indagou a moça assustada com aquela afirmativa.
--- Sim. Pense! – disse Glauco a Racilva enquanto dirigia seu carro.
--- Mas pense como? Quem seria a pessoa? – fez a pergunta mais uma vez Racilva.
--- Não sei. Eu digo: Pense! – fez ver Glauco.
--- Mas eu não conheço ninguém! – comentou assustadíssima a moça.
--- Não conhece? Está bem. – fomentou Glauco.
--- Pois me diga quem! – reclamou de vez a moça.
--- Pense! – disse mais uma vez o homem.
Nesse instante o carro estacionou em frente a um portão onde tinha na porteira a inscrição: Fazenda Maxixe. Racilva olhou o termo e não entendeu coisa alguma. O homem abriu a porteira, escorou com um dos pés pondo uma estaca e gritou:
--- Manoel! Acorda! – gritou Glauco para alguém.
Racilva ficou a olhar o chamado de Glauco e com pouco tempo, de trás de um pé de turco, apareceu um vaqueiro meio com sono e esfregado os olhos. Ele pediu desculpas;
--- Desculpa patrão. Eu estava numa madorna. – relatou o vaqueiro.
--- Espera ai para fechar o cercado. – disse por vez o homem.
--- Sim senhor. – fez ver ter entendido o vaqueiro.
Racilva ficou a esperar a volta de Glauco. E quando esse com pressa entrou no Cadillac a moça argumentou o que ouvira ser dito.
--- Patrão! Quem é patrão? Você? – reclamou por ter ouvido a moça.
--- Besteira dele. – falou sem maior explicação o homem.
Racilva ficou a cismar e a olhar o seu companheiro de viagem como se fosse alguém. Uma autoridade ou coisa assim. Enfim, a moça quis saber da verdade da estória.
--- Eu quero saber que estória de patrão é essa. Ninguém chama outro de patrão só por chamar. Diz a verdade! – descreveu de vez Racilva.
--- Besteira, Racilva. Todos me chamam aqui de Joca de Timbó e eu nem ligo. Pra você vê. – articulou Glauco como querendo mudar de assunto.
--- Como é que é? – perguntou Racilva começando a sorrir francamente.
--- É. Aqui estamos na fazenda do Coronel Fabrício, o Timbó velho. – sorriu Glauco puxando o carro a toda velocidade pela estrada de barro.
--- Coronel quem? – perguntou assustada a moça.
--- Fabrício. É o meu avô. Meu pai é também o coronel Arthur Rodrigues, chamado de Timbó. - relatou por fim o homem, Glauco.
--- Meu Deus do Céu. E você me meteu numa bruta situação como essa. Só tem coronel. Ave Maria. Que é que eu faço agora! – comentou Racilva tremendo de medo.
--- Nada. Você foi convidada por mim, um Timbó, e se aguente. Tem festa desde ontem. Vaquejada, tiro ao alvo, gato no pote e uma danação de coisa. Comida tem a vontade. Churrasco e coisa de tal. É o aniversario de nascimento do Coronel Fabrício, o velho. Mas antes dele teve mais gente. É uma timbozada e tanto. – gargalhou o homem Glauco.
--- Estou com medo. Aqui tem sanitário? – quis saber Racilva.
--- Já está se urinando? – perguntou a gargalhar o jovem Glauco.
A moça ficou vermelha sem saber se era de raiva ou de vergonha. Ela estava simplesmente vermelha. E a se coçar então tremendo de frio. O homem parou o seu carro no meio da estrada e mandou a moça urinar detrás de uma moita de pau ferro.
--- Vá lá. Eu espero. Aqui não tem ninguém. E se tiver não vem olhar. – falou Glauco a Racilva.
--- Não. Eu espero para chegar à fazenda. – informou resoluta a moça.
--- Está bom. E já pensou? – quis saber Glauco tocando o carro pra frente.
--- Pensou no que? – perguntou a moça toda aturdida com a vontade de urinar.
--- Já sei que não pensou. Menina, se você quer um emprego no Estado, mostre-me os documentos que eu ponho você na folha ainda deste mês. Peça as contas, faça o que quiser. E você é funcionária da Recebedoria de Rendas. Eu não te disse isso? – fez ver Glauber a Racilva
--- Pronto. Era só o que faltava. Acabei de urinar na roupa. Você tem cada uma! – confessou Racilva com a cara toda vermelha.
--- Já fez xixi? Viva!!! – gritou Glauco parando o carro e gargalhando  dançando um xaxado em pleno sertão.
Com isso, Racilva correu para a mata adentro para acabar de urinar. Era então chegada a hora de terminar o que ela começou. Após alguns minutos, arranhões, ferroada de mosquito e tremendo com medo de cobra, ela voltou a suspirar e reclamar dizendo:
--- Agora tenho que mudar de roupa. – relatou Racilva toda sem jeito.
Glauco que já estava no seu carro fez a vez de dizer.
--- Você muda de roupa lá na fazenda. Tem um quarto só para isso. Para as donzelas trocarem de roupa. – sorriu Glauco adiantado o carro a pouca velocidade.
--- Tiros! – alertou a moça ao rapaz.
--- Fogos, guria. Fogos! É a comemoração dos oitenta anos do velho Timbó. – fez ver Glauco
--- E tem fogos? – indagou assustada a moça toda cheirando a urina.
--- Aniversário do coronel. – relatou Glauco dirigindo o carro com mais pressa.
Enfim, Glauco Rodrigues chegou à estância do seu pai, onde a festa estava animada com a turma assanhada a dançar, ouvindo ainda o repente dos cantadores para mostrar o coronel Fabriciano aos seus oitenta anos de vida.  O automóvel estacionou perto do casarão onde estavam outros automóveis de primos e da própria irmã Glace filha de Arthur. Glauco e Glace tinham diferença de um ano. Eram dois irmãos. Glauce era casada com um aviador e tinha morada na capital. No bairro do Tirol. A senhora havia chegado horas antes de Glauco em companhia do seu esposo, o piloto comandante Américo Debiasi Sollo, mais conhecido por comandante Sollo, filho de italiano. Em instante, Glauco pediu licença a Racilva para falar com sua mãe e levar moça até o quarto de moças para ela trocar de vestimenta Racilva, com profundo temor chegou a chorar de emoção. O rapaz foi num pé e voltou no outro pedindo a Racilva descer do carro e ir pela porta do lado. A mãe de Glauco, dona Nair, já estava pregada com o filho para dar mais atenção a Racilva. Com a mulher estava também uma camareira.