quinta-feira, 18 de julho de 2013

"DEUS" - 13 -

- O PARAISO -
- 13 -
O CRIME
O Monge Boaventura estava folheando o livro um tanto gasto em sua Cela iluminada pela chama de uma vela. Nos restante do pequeno espaço havia como nos outros locais, uma cama com um colchão de palha, uma banda para estudos, um armário para se guardar as vestes e uma cadeira duas cadeiras. Uma servia para os estudos. O ádito era como as demais com uma portinhola de tranca. O livro era um tanto pesado por seu grosso volume. O título era apenas: “Caim de Abel” e nada mais. No seu bojo trazia toda a história dos dois irmãos. Eles, filho de Adão e Eva os primeiros seres humanos, segundo a Bíblia. Em todo o texto trazia apenas a guerra entre Caim e Abel. Apesar de está trinta ou mais anos no Mosteiro, o Monge não perdia a sua curiosidade pelos assuntos religiosos. E foi dessa forma ter ele o cuidado de passar a ler o respectivo livro. Após se por a vontade em sua mesa e olhar ao redor para ter a certeza de que estava só então o monge começou a sua aventura. Ler o Livro de Caim e Abel.
Após uma breve introdução sobre o enredo, pondo na Bíblia e no Alcorão a história do primeiro assassinato ocorrido da Terra, a história conta a aventura de Caim após a morte do seu irmão praticada por ele mesmo e sair a vagar pela terra como um assassino. A história está repleta de enigmas. A preferencia de Deus por um dos irmãos, a reação violenta de Caim e um sinal misterioso que inspiraria ódio e intolerância durante dois mil anos. É uma das histórias mais brutais e desconcertantes já contadas: o sombrio mistério de Caim e Abel. Isso é o que conta o autor do livro.
--- A história de Caim e Abel é uma das mais fascinantes da Bíblia. Ela mostra a primeira morte de um ser humano e o primeiro assassinato. Um irmão matando o outro. Mas o que torna essa lição de Cain e Abel tão poderosa é que uma lição para uma família. Mas para toda a humanidade. A história é bastante curta, enigmática e misteriosa. Ela apresenta o assunto da rivalidade fraterna e então ressoa por todo o livro de Genesis. A história de Caim e Abel não é para os fracos. Brutais e detalhadas apenas dezesseis linhas do Genesis contam a história desse assassinato. Tudo começa depois que Deus expulsa Adão e Eva do paraíso e eles têm dois filhos. Caim, (lança) o primogênito, torna-se lavrador. Seu irmão mais novo, Abel, torna-se pastor. Os dois irmãos tentam agradar a Ele dando-Lhe graças e oferecendo sacrifícios. Esses são os primeiros rituais de sacrifícios registrados na Bíblia. Cada um dos irmãos fazendo suas oferendas de acordo com seu próprio meio de vida. Bíblia relata que Caim chega até Deus oferecendo-Lhe um sacrifício de sua colheita. E Abel oferece-Lhe um sacrifício do seu rebanho, o primeiro cordeiro a nascer. Deus aceita a oferenda de Abel. Mas rejeita a de Caim sem motivo aparente. Esse é o primeiro dos muitos enigmas da história. Por que Deus prefere um sacrifício a outro? Quanto a isso o Genesis nada diz. Mas a história prossegue. Caim fica zangado e com ciúmes do seu irmão mais bem sucedido e se torna violento. Logo que eles  chegaram ao campo Caim lançou o seu crime ao irmão. E o matou. Eis o outro mistério. Se ninguém havia sido morto antes, muito menos assassinado, como é que Caim sabia como matar? E será que chegou a entender o que havia feito?
- E então o Senhor disse a Caim: “Onde está Abel, o teu irmão?” Caim respondeu: “Eu não sei. Acaso sou o tutor do meu irmão?” – E o Senhor replicou: “Que fizeste”? “A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim”. ”De futuro serás maldito sobre a terra que bebeu da tua boca para beber da tua mão o sangue do teu irmão”.  E agora, a Bíblia deixa clara o quanto Deus está zangado com Caim por cometer um crime tão hediondo. Deus o bane de sua terra para sempre e ele é condenado a vagar sozinho pelo planeta. Caim implora a Deus dizendo que ele tem medo que possa ser morto por alguém que possa encontra-lo no deserto. Então Deus promete colocar um sinal para ninguém se aproxime de Caim e o machuque. Mais enigmas. Se no início havia apenas Adão e Eva e Caim e Abel, quem são as pessoas que Caim teme no deserto? E o mais enigmático ainda. Mistério que ecoaria através dos tempos: qual é o sinal de Caim? Finalmente Caim afastou-se da presença do Senhor o foi residir na região de Nod (terra da fuga) no oriente do Éden. Mas algo desconcertante que gera perguntas sem respostas. Mas na verdade, uma mensagem poderosa surge em alto e bom som: “Sim. De fato você é o guardião do seu irmão”. Na continuidade se pode observar que o pacifismo de Jesus, Mahatma Gandhi e Martin Luther King podem todos remontar a história de Caim de Abel com sua mensagem sobre a irmandade do homem e a importância da não violência. Mas ao mesmo tempo o sinal de Caim tem sido usado a centenas de anos para demonizar e destruir pessoas, nações e raças. De onde vem essa história intrigante, contraditória e quase bizarra? As grandes religiões do mundo há muito tempo lutam para penetrar nos mistérios dos testos sagrados.
Cada tradição acrescenta detalhes intrigantes e surpreendentes tentando reconciliar os enigmas e contradições dessa história extraordinária. Apesar de séculos de hostilidades, guerras e derramamento de sangue, judeus, cristãos, mulçumanos  concordam com uma coisa: todos eles tem suas crenças em um Deus e no conceito de que são descendentes de Adão e Eva, até as tribos hebraicas e o profeta Abraão.  As filosofias centrais e duradoras de um Deus, amor e perdão são a força fundamental por trás das grandes religiões do mundo. Entretanto cada religião precisa lidar com os enigmas da história à sua própria maneira. Comentaristas islâmicos de hebraicos sugerem uma razão surpreendente para Deus ter aceitado a oferenda de Abel, mas não a de Caim: o coração de Abel é justo porque Deus sabe de tudo.  Em outra versão, historiadores islâmicos e hebraicos, trata-se a fonte previsível de conflito entre dois homens: uma mulher. Caim cobiça a mulher que deve ser do seu irmão. Daí a ira Deus com o irmão mais velho. Os comentaristas sugerem que Caim e Abel tinham uma irmã. O nome dela era Auan.  O Genesis a propósito não ver qualquer problema com irmãos e irmãs se casando, pois não há outra opção nesse ponto. Agora o ressentimento de Caim parece um pouco mais claro. Deus havia favorecido a Abel tanto no casamento quanto no sacrifício. Deus adverte Caim para que se afaste de pensamentos maldosos. Mas ele não faz isso. Com o passar dos séculos a tradição islâmica acrescenta mais detalhes a história, simpatizando o lado pacífico  de Abel. Estranhamente, apesar da reação passiva de Abel, Caim não consegue completar o terrível ato. Quando Caim percebe apesar de todos os seus esforços ele não consegue matar Abel, o Demônio aparece e fala com Caim e o ensina como cometer o assassinato. O Demônio diz a Caim para atingir o irmão na cabeça com uma pedra. Mas, o que significa assassinato nesse mundo sem morte? Os comentários islâmicos oferecem alguns detalhes como a situação era nova e terrível. Quando o Demônio visita Eva que ainda não sabe que seu filho mais novo está morto, ele diz:
--- Seu filho Abel não irá voltar para você. – diz o demônio.
--- Como assim? – pergunta Eva.
--- Ele está morto. Ele foi morto.  - responde o demônio.
--- O que significa morto? E que significa morte?  – volta Eva com espanto a indagar.
--- Ele não falará mais com você. Ele não voltará. Ele não respira.  – falou o demônio.
Ela começa a chorar, afinal Abel é o seu filho. Segundo os comentários do Alcorão as lágrimas de Eva são as primeiras de um ser humano. Na tradição islâmica foi assim que a tristeza se tornou parte da experiência humana pela primeira vez. Em todas as tradições monoteístas esse é o primeiro exemplo de morte, assassinato, fratricídio e pesar. E para sempre a partir daí, o pesar se multiplica tanto no Antigo como no Novo Testamento. Lágrimas; roupas violentamente rasgada; ranger de dentes e derramamento de sangue, todos eles respiram essa segunda queda da graça de Deus no assassinato de um irmão. E o restante do Antigo Testamento está repleto de histórias que repetem os temas mais violentos relativos a Caim e Abel. Irmãos colocados contra irmãos. Pela família, pelo sangue, pela herança, pelo ciúme.
Monge:
--- Com mil demônios. Então foi assim? Mas eu tenho uma questão: Essa história é uma lenda. Sendo assim, nada disso aconteceu. Isso é apenas o exemplo de como se daria a causa. Os Sumérios, tempos antes pregavam tal método. E ninguém sabe ter sido a Bíblia a cópia do livro dos sumérios. E o alcorão veio bem depois. Diabos! – reclamou exaltado o monge Boaventura.
Era a hora de seguir para o interior da Igreja onde o monge faria a sua oração corriqueira. Nada falaria aos demais Monges, Ele teria que ver o restante do livro em que estado ficou toda a questão. Havia de consultar outros alfarrábios para se inteirar da verdade.  Ao vento frio sobrou leve e Boaventura olhou par foram vendo o firmamento. As nuvens escuras garantiam chuva em poucos minutos. O monge se cobriu com sua opa e, guardando por debaixo da cama o grosso livro, logo após ele destrancou a porta e saiu vexado para o templo. Quem o visse sentia a impressão de que era um camundongo a correr envolto em capa percorrendo o corredor por entre a úmida parede. Seus passos miúdos garantiam mais ainda a forma de um rato amedrontado. As folhas de ciprestes acoitavam com a ventania a aumentar a cada instante. O monge do sino estava a badalar o campanário a chamar todos para as orações diurnas. O Monge Boaventura deixava todo coberto com o capuz a sua cabeça ligeiramente fendida para frente. No interior da Igreja se ouvia o cantar dos outros Monges recitando o Canto Gregoriano.
O templo, naquela hora da manhã de um dia chuvoso, estava cheia de autoridades da Igreja. Boaventura procurou se inteirar quem eram os artífices religiosos a estarem presentes. Um Monge declarou fielmente em murmúrio ser as autoridades do Sumo Pontífice.
Boaventura:
--- O que eles querem em horas tão diminutas do dia? – quis saber de forma preocupada.
Monge:
--- Não sei. Talvez apenas visita de rotina. – declarou o monge.

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